Natália
O carro desliza pelas ruas desertas dos Jardins com uma elegância silenciosa, quase predatória. São Paulo à noite parece outra cidade — mais honesta, mais sombria, sem o caos das buzinas, apenas o asfalto escuro reflete as luzes dos postes como flashes de memórias que eu tento organizar.
Ricardo mantém uma das mãos firme no volante. A outra repousa perto do câmbio, relaxada demais, um contraste irritante com a tensão que eu sinto emanar dos seus ombros. O maxilar dele está travado, aquela linha dura que eu conheço tão bem e que sempre denuncia o que ele se recusa a dizer.
O silêncio entre nós não é vazio. Ele pesa. Tem textura.
— É uma boa reunião — arrisco, tentando quebrar o gelo que parece cristalizar o ar dentro do carro.
— É — ele responde, curto. Seco. Sem desviar os olhos da estrada.
Nada mais. Eu odeio esse novo silêncio dele. No começo do nosso casamento, ele costumava me deixar entrar, conversava comigo, dividia os pensamentos. Agora, parece que ele construiu um mur