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Natália
Eu sempre demoro a notar quando as coisas mudam. Não as mudanças barulhentas, claro — os gritos, as portas b**endo, as palavras que a gente não consegue mais engolir. Falo das outras, as que chegam de mansinho. Elas se acumulam como a poeira num móvel que ninguém usa, até que um dia, a luz b**e de um jeito diferente, e você vê a camada grossa de esquecimento.
Foi exatamente assim que meu casamento acabou.
Não teve traição escancarada, nem aquela briga final que limpa a alma. O que teve foi uma série de pequenos desencaixes: a mão que parou de procurar a minha, o olhar que me atravessava sem me ver, o silêncio que durava um pouco mais do que o suportável. Eram rachaduras que se abriam e se fechavam, construindo um vazio que nenhum de nós tinha coragem de encarar.
No começo, eu tinha uma desculpa para cada afastamento. Sempre tive. Colocava a culpa no cansaço.
Ele sempre foi um homem engolido pelo trabalho. Uma pessoa moldada pela ambição e por uma disciplina que parecia devoção. Não era o sucesso que ele queria; era o sucesso que ele exigia. Acordava antes do sol, já transformado numa máquina de resolver problemas, decidindo dilemas globais com uma precisão fria. Eu não só aceitava isso, eu admirava. Havia um fascínio na sua capacidade de controle, a crença de que um amor maduro se sustentava mais na admiração pela sua inteligência do que na paixão.
Até que essa conta parou de fechar.
Naquela manhã, estávamos tomando café. O sol entrava na sala de jantar da nossa cobertura, refletindo no mármore gelado. Lá embaixo, a cidade corria. Aqui em cima, tudo parecia parado sob o peso da sua concentração.
Segurei a xícara com as duas mãos, buscando um calor que ele não me dava. Meus olhos estavam fixos nele. Ele estava grudado no celular, o polegar deslizando na tela com um movimento mecânico, a testa franzida pelos números complexos que só ele entendia. Ele não percebia que eu o olhava. E era justamente essa indiferença focada que me machucava.
— Dormiu mal? — arrisquei.
— Um pouco — respondeu.
A voz era um sussurro, o som de quem não queria ser interrompido. Ele não levantou os olhos. Antes, teria reclamado de alguma reunião ou de um voo. Agora, economizava palavras, como se o silêncio fosse um recurso precioso, uma ferramenta para manter a distância.
— Quer que eu te acompanhe hoje? — tentei de novo. — Podíamos almoçar perto do seu escritório.
Ele hesitou. Foi um segundo, mas eu senti.
O maxilar, sempre duro, ficou mais tenso. A respiração parou.
— Hoje vai ser complicado. Muitas reuniões.
— Entendi — respondi rápido demais. — Claro.
Eu sorri. Sempre sorria. Aprendi a usar o sorriso para disfarçar as perguntas que eu não tinha coragem de fazer.
Ele se levantou, ajeitou a gravata com um gesto rápido e final, como quem assina um contrato. Beijou minha testa. Não a boca. Um beijo de protocolo. De quem cumpre uma obrigação.
— À noite a gente se vê.
Não soou como uma promessa. Soou como mais um item inadiável na agenda dele.
Fiquei sozinha quando a porta fechou. O café esfriou de vez. A casa ficou enorme ao meu redor. O silêncio virou um peso. Ainda não era tristeza. Era um pressentimento. A sensação incômoda de que decisões importantes estavam sendo tomadas sem mim.
Mais tarde, fui ao mercado. Escolhi tudo o que sabia que ele gostava, como se o amor pudesse ser medido por uma lista de compras perfeita. O vinho certo. O pão que ele elogiava. O queijo que "combinava com o domingo". Eu ainda acreditava — ou precisava desesperadamente acreditar — que a atenção aos detalhes podia consertar as rachaduras.
À noite, ele chegou exausto. Longe.
— Preparei risoto — anunciei. — Do jeito que você gosta.
— Obrigado.
Ele comeu. Elogiou. Mas a alma dele não estava ali. Era como se estivesse apenas cumprindo tabela.
Depois do jantar, sentei no sofá ao lado dele e apoiei a cabeça no seu ombro. Ele não me afastou. Mas também não me abraçou.
— Você está bem? — perguntei, com cuidado.
O silêncio antes da resposta disse mais do que a própria resposta.
— Estou.
Não era mentira. Mas também não era a verdade inteira.
— Às vezes sinto você distante — confessei, com a voz baixa. — Não sei explicar.
Ele se mexeu, desconfortável.
— Você está sensível demais, Natália. — suspirou. — É só uma fase.
Eu aceitei. Engoli. Fiquei.
Na cama, senti o momento exato em que ele virou as costas para mim. Não era uma rejeição clara. Era a ausência. Estendi a mão no escuro e toquei suas costas. Ele não se afastou. Mas também não reagiu.
Fiquei ali, sentindo o frio de algo que estava sumindo rápido demais.
Eu ainda não sabia o que estava acontecendo. Não sabia o porquê. Não sabia a dimensão do que estava por vir.
Mas uma certeza se instalava: ele não estava se afastando por acaso. Ele estava se preparando para algo. E, de alguma forma, eu já não fazia parte do plano.







