Eu sempre demoro a perceber quando as coisas realmente mudam. Não as mudanças óbvias — as que vêm com gritos, portas batidas ou palavras que não podem ser desditas. Falo das outras. As silenciosas. Aquelas que se instalam devagar, como poeira sobre os móveis, até que um dia a luz incide de um jeito diferente e revela o acúmulo.
Foi assim com o meu casamento.
Não houve uma briga. Não houve traição. Não houve uma cena dramática que justificasse o aperto constante no meu peito. O que houve foram pequenos ajustes invisíveis: um gesto que não se repete, um olhar que passa por mim sem pousar, um silêncio que dura segundos demais. O suficiente para que um abismo se forme — e se feche — sem que ninguém admita.
No início, eu tinha uma explicação para tudo. Sempre tive. Dizia a mim mesma que era apenas cansaço.
Ricardo sempre trabalhou demais. Sempre foi assim. Um homem moldado pela ambição implacável e por uma disciplina que beira a devoção. Ele não busca o sucesso; ele o exige. Acorda antes do sol, já uma máquina de decisões, resolvendo problemas de outros continentes com uma frieza cirúrgica. Eu não só aceitava isso — eu admirava. Havia algo de letalmente atraente na sua capacidade de controle, algo que me fazia acreditar que o amor adulto funcionava daquele jeito: menos paixão, mais a admiração pela sua força intelectual.
Até que começou a não funcionar.
Naquela manhã, estamos sentados à mesa do café. O sol invade a sala de jantar da nossa cobertura em São Paulo, refletindo no mármore branco e frio. Lá embaixo, a cidade desperta em ruído e pressa. Aqui em cima, tudo parece suspenso sob a gravidade da sua concentração.
Seguro a xícara com as duas mãos, buscando o calor como quem busca apoio. Meus olhos, no entanto, estão nele. Ricardo está absorto no celular. O polegar desliza pela tela com uma precisão mecânica, a testa levemente vincada pela complexidade dos números que só ele entende. Ele não percebe que eu o observo. E é exatamente essa indiferença focada que dói.
— Você dormiu mal? — pergunto.
— Um pouco — ele diz.
A voz é baixa, um murmúrio de quem não quer desviar o foco. Ele não olha para cima. Antes, ele teria reclamado de alguma coisa. Agora, ele economiza palavras como se o silêncio fosse mais valioso, um recurso que ele usa para me manter à distância.
— Quer que eu vá com você hoje? — tento de novo. — Nós podemos almoçar perto do seu escritório.
Ele hesita. É quase nada. Mas eu vejo. Eu sinto.
O maxilar, sempre tenso, endurece. A respiração prende.
— Hoje vai ser complicado. Muitas reuniões.
— Entendi — respondo rápido demais. — Claro.
Eu sorrio. Sempre sorrio. Aprendi a sorrir no lugar das perguntas que não faço.
Ele se levanta, ajeita a gravata com um gesto rápido e final, como quem encerra um contrato. Beija minha testa. Não minha boca.
Um beijo protocolar. De quem cumpre uma formalidade.
— À noite a gente se vê.
Não soa como promessa. Soa como agenda inadiável.
Fico sozinha quando a porta fecha. O café esfria de vez. A casa cresce ao meu redor. O silêncio pesa. Ainda não é tristeza. É algo antes. Um aviso. A sensação estranha de que decisões estão sendo tomadas sem mim.
Mais tarde, vou ao mercado. Escolho tudo o que sei que ele gosta, como se amor fosse uma lista bem-feita. O vinho certo. O pão que ele elogia. O queijo que “combina com domingo”. Ainda acredito — ou preciso acreditar — que atenção resolve rachaduras.
À noite, ele chega cansado. Distante.
— Fiz risoto — digo. — Do jeito que você gosta.
— Obrigado.
Ele come. Elogia. Mas não está ali. É como se estivesse apenas cumprindo uma tarefa.
Depois do jantar, sento ao lado dele no sofá e encosto a cabeça em seu ombro. Ele não se afasta. Mas também não me acolhe.
— Ricardo…
— Oi.
— Você está bem?
O silêncio antes da resposta é maior do que a resposta em si.
— Estou.
Não é mentira.
Mas também não é tudo.
— Às vezes eu sinto você longe — digo, com cuidado. — Não sei explicar.
Ele se mexe, desconfortável.
— Você está sensível demais, Natália. — suspira. — É só uma fase.
Eu aceito. Engulo. Fico.
Na cama, sinto o instante exato em que ele vira de costas para mim. Não é rejeição declarada. É ausência. Estendo a mão no escuro e toco suas costas. Ele não se afasta. Também não responde.
Fico ali, medindo o frio de algo que está esfriando rápido demais.