O tempo avança com a lentidão e a precisão de um relógio quebrado que, milagrosamente, voltou a funcionar. Ricardo melhora. Os pontos cicatrizam, mas a fragilidade permanece. Não a física, mas a emocional. Ele não é mais o CEO inabalável. Ele é um homem que se levanta devagar, que precisa de ajuda para vestir o paletó, que me olha antes de tomar uma decisão, como se eu fosse o seu novo norte moral.
A nossa convivência se torna uma rotina de pequenos milagres. O café que ele tenta fazer, mesmo com a costela doendo, o cheiro de queimado sendo um lembrete bem-vindo da sua humanidade. O silêncio confortável que se instala entre nós, um silêncio que não precisa ser preenchido com palavras, mas com a certeza da presença.
Uma noite, estamos no sofá. Ele está lendo um relatório, mas a cada parágrafo, seus olhos me procuram. Eu estou lendo um livro sobre maternidade, e o bebê se mexe. Um chute forte, que faz o relatório cair no chão. Ele sorri.
— Eu nunca pensei que sentiria isso novamente — e