Mundo ficciónIniciar sesiónNatália
A casa de Augusto Lacerda é silenciosa de um jeito calculado. Imensa, mas sem excessos. Elegante sem ostentação. O jardim parece uma extensão da arquitetura: tudo ali foi pensado para impressionar sem precisar provar nada.
Augusto nos recebe com um sorriso preciso, treinado. — Ricardo — diz, apertando a mão dele com firmeza. — Finalmente. — Augusto — Ricardo responde, no mesmo tom. — Esta é minha esposa, Natália. O título vem antes do nome. Sempre vem. — Um prazer — Augusto diz, apertando minha mão com firmeza, o olhar demorando um segundo a mais do que deveria. — Confesso que não esperava alguém tão… jovem. Sorrio por educação. — Obrigada. — Jovem e muito bonita — ele completa, como se estivesse apenas constatando um fato óbvio. — Ricardo tem bom gosto. Sinto a mão de Ricardo se firmar um pouco mais nas minhas costas. — Sempre tive — ele responde, curto. Controlado. Augusto sorri, satisfeito, como quem acabou de tocar num ponto sensível sem precisar insistir. — Imagino — diz. — Juventude ilumina qualquer ambiente. Ele se afasta, deixando a frase suspensa no ar. O silêncio que fica não é constrangedor. É denso. Ricardo não comenta. Não precisa. Eu sinto. A postura dele muda. O corpo fica mais rígido, como se precisasse lembrar a si mesmo de algo. Ou de alguém. Ou do tempo. E, pela primeira vez naquela noite, percebo que meu vestido branco não chama atenção apenas pela elegância. Chama atenção porque denuncia minha tenra idade. Ricardo retira a mão das minhas costas devagar, como se o gesto fosse casual demais para significar alguma coisa. — Vamos entrar — ele diz, já se movendo. — O pessoal do conselho está nos esperando. Assinto e o sigo. A sala principal se abre em tons neutros, iluminação calculada, móveis que parecem ter sido escolhidos para durar mais do que as pessoas que os usam. Homens de terno conversam em grupos pequenos, copos baixos nas mãos, risadas contidas. Tudo ali funciona no volume certo. — Ricardo! — alguém chama. — Finalmente. Ele se vira no mesmo instante. O rosto muda. A rigidez vira domínio. O corpo encontra o lugar que conhece tão bem. — Senhores — diz, firme. — Boa noite. Sou apresentada em sequência: nomes importantes, sobrenomes pesados, olhares que avaliam rápido demais. Sorrisos educados. Comentários gentis. — Sua esposa é encantadora. — Muito jovem. — Elegante. —Outro diz. Cada palavra cai como um elogio embrulhado em observação. Ricardo responde por mim quase sempre. Um aceno de cabeça. Um “obrigado”. Um sorriso mínimo. Quando falam comigo diretamente, ele permanece atento, próximo demais para ser coincidência. — Natália — diz em certo momento, tocando meu braço. — Quer um drinque? — Aceito — respondo. Ele sinaliza para um garçom antes mesmo de eu especificar. — Água com gás. Sem gelo. É o que sempre bebo. O copo chega. Seguro entre os dedos frios. A conversa avança para números, prazos, aquisições. Fico ao lado dele, presente, silenciosa quando convém, sorrindo quando esperado. É assim que funcionamos. Do outro lado da sala, Vitor reaparece no meu campo de visão. Ele observa, distraído demais para ser apenas educado. Quando nossos olhos se encontram, ele ergue o copo num cumprimento leve. Sorrio de volta. A noite avança devagar, como se tivesse sido ensaiada. As conversas se multiplicam em pequenos grupos. Risos contidos. Copos sendo preenchidos com discrição. O som baixo de um jazz elegante preenche os espaços vazios entre as frases importantes. Ricardo não larga minha cintura. Não aperta. Não puxa. Mas mantém a mão ali como um lembrete silencioso. Eu pertenço a ele. — Você está indo bem — ele murmura perto do meu ouvido, enquanto um dos conselheiros fala sobre prazos e licenças. — Só sorria. Não precisa falar nada. Assinto. Sempre faço isso. Observo. Sorrio. Escuto. É assim que funcionamos em público. Um casal sólido. Elegante. Sem ruídos. Mas, aos poucos, começo a sentir algo estranho. Não é desconforto. É uma espécie de… vigilância. Ricardo acompanha cada movimento meu. Cada vez que alguém se aproxima. Cada vez que eu rio alto demais. Cada vez que meu olhar demora onde não deveria. Quando Vitor se aproxima novamente, isso fica mais claro. Um fotógrafo surge do nada, pedindo para tirar uma foto nossa. Concordamos, forçando sorrisos. Um homem mais corpulento se aproxima e quer aparecer na foto. Quando ele se afasta, Vitor me encara, ignorando o copo que Ricardo acaba de erguer na nossa direção — Vocês vão ficar até tarde? — pergunta. — Não sei — respondo. — Depende da reunião. Vitor sorri. — Sempre depende da reunião. Ricardo responde por mim: — Temos um compromisso amanhã cedo. Não temos, mas eu permaneço em silêncio. Vitor arqueia uma sobrancelha, divertido. — Claro — diz. — Negócios nunca dormem. O olhar entre eles dura um segundo a mais do que deveria. Não há hostilidade explícita. Há território. — Vou falar com o Augusto — Vitor anuncia, afastando-se. — Aproveita a noite, Nat. Nat. O diminutivo soa íntimo demais naquele ambiente. Sinto a mão de Ricardo se mover levemente na minha cintura, descendo um pouco, marcando presença. — Ele continua expansivo — comenta, como se falasse do clima. — Ele sempre foi assim — respondo. — Você sabe. Ele sabe, mas não gosta.






