O espelho

Natália

Eu fico parada diante do espelho por mais tempo do que deveria. Não porque eu esteja insegura — repito isso para mim mesma, como um mantra que tenta afastar a dúvida —, mas porque hoje, mais do que nunca, tudo precisa estar perfeito. Cada dobra do tecido, cada fio de cabelo, cada nuance da maquiagem. Aliso a lateral da saia com cuidado, sentindo a seda deslizar sob meus dedos, um toque suave que, eu espero, possa organizar também o turbilhão de emoções que ainda pulsa inquieto dentro de mim.

Branco. A cor que ele escolheu. Virginal. Elegante. Discreto demais para ser casual, bonito demais para passar despercebido. Perfeito. Inclino levemente a cabeça, observando o reflexo de perfil. A luz do quarto, suave e indireta, b**e no espelho grande, daqueles que não perdoam nada: mostram a postura, mas também o cansaço que insisto em esconder. Revelam o que a gente tenta disfarçar até de si mesma.

— Ele vai gostar — murmuro, a frase soando mais como uma promessa que faço a mim mesma do que como uma certeza inabalável.

Endireito os ombros. Aprendi cedo que postura é tudo. Mulher de homem importante não pode parecer pequena, mesmo quando se sente.

Passo os dedos pelo decote com cuidado. Nada exagerado. Ele não gosta de exageros. Nunca gostou.

O salto já está nos pés, embora ainda falte tempo para sair. Gosto de me acostumar com eles antes, sentir a altura, ajustar o corpo. É estranho como a gente aprende a habitar o próprio corpo de acordo com o olhar do outro.

Respiro fundo.

O espelho me devolve uma mulher bonita. Eu sei disso racionalmente. Escuto isso com frequência. Mas beleza, quando não é confirmada por quem importa, vira apenas um detalhe técnico.

Pego a bolsa e confiro o celular por hábito. Nenhuma mensagem nova.

Ele disse que passaria para me buscar no horário combinado, como sempre faz quando temos um compromisso assim.

Guardo o telefone sem pensar muito.

Eduardo é pontual. Sempre foi.

— Ele já deve estar chegando — digo para mim mesma.

Saio do apartamento e sigo pelo corredor silencioso até o elevador. Quando as portas se abrem, entro sozinha. Aperto o botão do térreo e, por reflexo, olho meu próprio reflexo no espelho interno.

Sorrio.

Não um sorriso grande. Um ensaiado. Daqueles que dizem está tudo bem mesmo quando ninguém perguntou.

No décimo quinto andar, o elevador para.

As portas se abrem e eu escuto primeiro as vozes.

— Calma, Ana, você vai derrubar tudo…

— Relaxa, Clara, isso aqui aguenta mais que a gente.

Elas entram rindo, equilibrando sacolas de papel e uma caixa comprida apoiada contra o corpo. O cheiro doce de alguma coisa recém-comprada invade o espaço fechado antes mesmo de as portas terminarem de se abrir.

O riso morre no mesmo instante em que me veem.

O silêncio dura meio segundo.

Depois, explode.

— Meu. Deus. — Ana leva a mão livre ao peito, apertando o tecido do vestido, enquanto segura as sacolas na outra. — Natália…

— Não se mexe — Clara diz, já puxando o celular. — Não se mexe mesmo.

— Clara, não — reclamo, rindo, levando a mão ao rosto.

— Tiro sim — ela responde, erguendo o telefone com rapidez. — Você nunca se vê como a gente vê.

Ana me observa dos pés à cabeça, devagar, como se estivesse diante de uma obra de arte.

— Esse vestido… — ela faz um gesto vago com o queixo. — Isso é maldade com a sociedade.

Rio, sentindo o rosto esquentar.

— Para com isso.

— Não paro — ela rebate. — Olha pra você.

O elevador volta a descer. As portas se fecham. O espaço fica pequeno demais para tantas reações.

— Espera — Clara franze a testa. — Esse vestido não é novo?

— É — respondo, ajeitando uma das alças. — Ele que escolheu.

As duas se entreolham pelo espelho.

— Ele escolheu? — Clara pergunta, curiosa.

Assinto.

— Pessoalmente. Mandou ajustar na cintura e pediu para subir dois centímetros da barra. Disse que assim ficava mais… elegante.

Há um silêncio breve. Não desconfortável. Só carregado.

— Bom — Ana quebra, abrindo um sorriso largo —, então além de lindo, ainda tem esforço envolvido. Isso conta pontos.

Eu sorrio mais forte agora.

Conta. Conta muito.

Porque são esses detalhes que sustentam tudo. O fato de ele ter lembrado da cor. De ter reparado no comprimento. De ter participado.

Pequenos gestos são mais fáceis de amar do que grandes promessas.

— Você está feliz? — Clara pergunta, mais baixa agora, ajeitando uma mecha solta do meu cabelo.

Penso por um segundo.

— Estou — respondo. — Acho que estou.

E quero acreditar nisso.

O elevador segue descendo. Música baixa toca no celular de Ana. Perfume, risadas, o leve nervosismo que sempre antecede uma noite importante.

— Juro — Ana diz —, se um dia eu me casar, quero alguém que escolha vestido para mim também. Cansei de decidir tudo sozinha.

— Você fala isso agora — Clara rebate —, mas na primeira opinião atravessada, você já mandava o sujeito catar coquinho.

— Talvez — Ana ri. — Mas ainda assim… é bonito.

— Ele não é controlador — digo, quase defensiva. — Ele só… presta atenção.

As duas me olham pelo espelho do elevador.

— A gente não disse que ele era — Clara responde com cuidado. — Só estamos comentando.

— Eu sei — falo rápido. — Desculpa. É que… é importante para mim.

Ana apoia a mão no meu braço.

— A gente sabe — diz, mais suave. — Você o ama. Isso é visível.

Meu peito aperta um pouco.

— Ele não é de demonstrar — continuo, falando rápido, como se precisasse justificar até pra mim mesma. — Não do jeito que vocês esperam.

Clara me observa pelo espelho. Não há julgamento no olhar dela. Só atenção.

Antes que eu diga mais alguma coisa, o elevador desacelera com um aviso discreto. As portas se abrem no térreo.

— Ei — Clara estala os dedos, chamando nossa atenção. — Hoje não. Hoje é noite de fazer sucesso.

Ela me vira suavemente de frente para o espelho do elevador, segurando meus ombros.

— Olha isso. Postura. Elegância. Esse olhar… — ela balança a cabeça, impressionada. — Você não faz ideia do impacto que causa.

Olho para meu reflexo mais uma vez.

O vestido branco cai perfeitamente sobre o corpo. Limpo. Delicado. Quase inocente demais para a mulher que eu sou — ou para a que estou tentando ser. O cabelo está no lugar. A maquiagem, suave. Nada exagerado.

Estou pronta.

Pronta para ser vista.

Pronta para ser escolhida.

Pronta para acreditar.

Sorrio para mim mesma, um sorriso pequeno, íntimo.

Ele pode não saber demonstrar.

Pode não ficar tanto quanto eu gostaria.

Mas ele se importa.

Eu sei que se importa.

E isso, por enquanto, é suficiente.

As portas se abrem de vez. O hall nos recebe com luz quente e passos apressados.

— Vamos — Ana diz, animada. — Ele já deve estar lá.

Assinto.

E sigo.

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