Natália
A tarde se arrasta, densa e pegajosa, como se o tempo tivesse decidido me observar sofrer em câmera lenta. É quase um insulto. O sol segue seu curso, indiferente, enquanto eu permaneço estagnada nesse intervalo asfixiante entre o que sinto e o que finjo sentir.
É assustador como Ricardo se infiltrou em mim. Não apenas nos meus pensamentos, mas nos meus ossos. Naqueles recônditos silenciosos onde a vontade não alcança. Não consigo silenciar o eco do seu pedido de perdão, a voz quebrada, aquele olhar que não implorava por absolvição, mas por uma fresta, uma chance mínima de continuar existindo na periferia da minha vida. Às vezes, isso me esmaga o peito. Em outras, confesso, o gosto amargo de vê-lo sofrer é o que me mantém de pé. É viciante. Eu sempre lutei por ele. Sempre. E agora, pela primeira vez, sou eu quem escolhe não correr.
Estou na sala, afundada na poltrona de areia — aquela que abraça o corpo melhor do que deveria, como se tivesse sido desenhada para momentos de rend