Mundo ficciónIniciar sesiónApós seis anos ao lado de Henrique Albuquerque, Lívia Monteiro acreditava que finalmente se tornaria sua esposa. Ela suportou ausências, promessas adiadas e o desprezo silencioso da família dele, convencida de que o amor que sentia era suficiente para manter tudo de pé. Mas tudo desmorona na noite em que, por acaso, ela presencia Henrique ajoelhado diante de outra mulher, pedindo-a em casamento diante de todos. Sem imaginar que Lívia estava ali, ele ainda declara com arrogância que ela jamais teria coragem de deixá-lo, porque o ama mais do que ama a si mesma. O que Henrique não sabe é que, naquele instante, algo dentro de Lívia se quebra para sempre. Determinada a reconstruir a própria dignidade, ela decide desaparecer da vida dele e recomeçar. Mas quando surge Augusto Vale, o maior rival empresarial de Henrique, oferecendo uma oportunidade inesperada, Lívia percebe que o destino pode ter planos muito diferentes para sua história. Agora, enquanto Henrique acredita que ainda pode recuperá-la quando quiser, ele descobrirá da forma mais cruel possível que algumas perdas são definitivas. Porque, desta vez, o arrependimento dele terá um preço.
Leer másLívia Monteiro estava há exatos quarenta minutos sentada sozinha à mesa reservada no último andar do restaurante mais caro da avenida Faria Lima.
Na frente dela, duas taças. Uma já servida com vinho. A outra, vazia. Henrique tinha prometido que chegaria às oito em ponto. Eram oito e quarenta. Ela olhou para a tela do celular mais uma vez. Nenhuma mensagem. Ao redor, casais conversavam em voz baixa, empresários riam discretamente e garçons passavam carregando pratos sofisticados que ela mal conseguia notar. O nó na garganta era forte demais para permitir qualquer apetite. Naquela noite, Lívia havia escolhido o vestido azul-marinho que Henrique uma vez disse gostar. Prendera o cabelo como ele preferia e passara o perfume que ele lhe dera no último aniversário. Porque, pela primeira vez em muitos meses, ela havia acreditado que talvez aquele jantar fosse importante. Talvez fosse a noite. Talvez, depois de seis anos, Henrique finalmente parasse de adiar o casamento. Ela sorriu sozinha, sem humor. Era humilhante perceber o quanto ainda conseguia criar esperança com quase nada. O celular vibrou. Seu coração disparou. Mas não era Henrique. Era uma mensagem de Mariana, sua melhor amiga. “Ele chegou?” Lívia digitou de volta: “Ainda não.” Os três pontinhos apareceram quase na mesma hora. “Lívia, vai embora. Pelo amor de Deus.” Ela leu. E não respondeu. Ir embora sempre parecia simples quando o amor era dos outros. Quando era o dela, tudo ganhava camadas. Memórias. Explicações. Desculpas que ela mesma criava para não encarar a verdade. Henrique era ocupado. Henrique tinha responsabilidades. Henrique estava sob pressão. Henrique a amava do jeito dele. O problema era justamente esse: o jeito dele doía. Às oito e cinquenta e sete, finalmente o nome dele apareceu na tela. Sem boa-noite. Sem pedido de desculpas. “Não vou conseguir chegar. Surgiu um compromisso.” Lívia ficou olhando para a mensagem por longos segundos. Depois respondeu: “Compromisso de trabalho?” A resposta veio rápido demais. “Sim.” Só isso. Sem explicação. Sem “vamos remarcar”. Sem “desculpa por te deixar esperando”. Ela sentiu o rosto queimar. O garçom se aproximou com delicadeza. — A senhora deseja fazer o pedido? Por um instante, Lívia quase riu. A senhora. Ela tinha vinte e sete anos e já se sentia cem. — Não. Obrigada. Eu vou embora. Pagou a própria água, recusou a ajuda do garçom e saiu do restaurante com a postura reta, como se não estivesse despedaçada. Só permitiu que a expressão vacilasse quando entrou no elevador espelhado. Ao se ver refletida ali, impecável por fora e ridícula por dentro, pensou na última vez em que discutira com Henrique. — Você vive me prometendo um futuro que nunca chega. Ele, sentado na cadeira do escritório, sequer levantara os olhos do notebook. — Não faz drama, Lívia. Drama. Tudo o que ela sentia sempre virava drama. A solidão. A espera. Os aniversários esquecidos. As datas adiadas. As ausências constantes. A aliança que nunca vinha. Talvez fosse por isso que esperava tanto. Quando os pais morreram, anos antes, em um acidente de carro enquanto ela ainda estava na faculdade, Lívia aprendera cedo demais que algumas pessoas atravessam a vida sem rede de proteção. Sem família. Sem ninguém para voltar. Henrique tinha sido, por muito tempo, a única coisa que parecia estável. No térreo, o celular vibrou outra vez. Era sua sogra, Neide Albuquerque. Lívia atendeu por reflexo. — Boa noite, dona Neide. A voz da mulher veio fria, polida, como sempre. — Lívia, Henrique não poderá jantar com você hoje. Imagino que já tenha avisado. Lívia apertou o telefone. — Sim. Ele avisou. — Ótimo. Na verdade, liguei apenas para dizer que amanhã haverá um evento importante da família. Empresários, investidores, imprensa. Seria melhor que você não comparecesse. Lívia piscou. — Melhor que eu não comparecesse? — Você sabe como essas ocasiões são delicadas. Ainda não há nada oficial entre você e meu filho. Certas presenças geram interpretações inconvenientes. A frase entrou como uma lâmina limpa. Ainda não há nada oficial entre você e meu filho. Seis anos. Seis anos e ela ainda era tratada como uma presença inconveniente. — Entendi — disse, com a voz surpreendentemente firme. — Fico feliz. Boa noite, Lívia. A ligação encerrou. Ela permaneceu parada na calçada, sob a luz branca da fachada do restaurante, tentando respirar normalmente. Então percebeu. Não era apenas sobre o jantar perdido. Era sobre tudo. Sobre ser sempre a mulher escondida. A mulher não oficial. A mulher que esperava do lado de fora da vida de Henrique, como se fosse uma convidada temporária. Um carro preto parou à sua frente. O vidro baixou. Mariana a encarava do banco do motorista. — Entra. Lívia entrou sem discutir. Mal fechou a porta, Mariana arrancou com o carro. — Eu sabia que ele faria isso. — Não sabia, não — Lívia respondeu baixinho. — Sabia, sim. Talvez não exatamente isso, mas alguma coisa do tipo. Homem que ama não trata mulher como intervalo. Lívia virou o rosto para a janela. São Paulo passava em luzes borradas. — Eu só queria que ele me escolhesse uma vez sem ser empurrado. Mariana ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou, num tom mais suave: — E se ele nunca escolher? Lívia engoliu seco. — Então eu perdi seis anos da minha vida. — Não — Mariana corrigiu. — Você só perde de verdade quando continua ficando depois de entender quem ele é. A frase ecoou durante todo o trajeto. Quando o carro parou em frente ao apartamento de Lívia, ela demorou a sair. — Mari… — Hum? — Você acha que alguém pode amar muito e ainda assim ir embora? Mariana segurou sua mão. — Acho que, às vezes, ir embora é a única forma de finalmente se amar. Naquela noite, sozinha no apartamento silencioso, Lívia tentou ligar para Henrique duas vezes. Ele não atendeu. Na terceira tentativa, o celular caiu direto na caixa postal. Ela se sentou na beira da cama, ainda com o vestido azul, e ficou olhando para a parede escura. Pouco depois da meia-noite, uma notificação apareceu nas redes sociais. Uma foto publicada por uma colunista de eventos. No centro da imagem, Henrique Albuquerque estava impecável em um terno preto, segurando uma taça de champanhe. Ao lado dele, sorrindo para as câmeras, estava Helena Ferraz. Filha de um dos empresários mais influentes do setor. A legenda dizia: “Noite especial para a união de duas famílias poderosas.” Lívia sentiu o sangue gelar. Abriu a foto. Ampliou. Henrique estava com a mão na cintura de Helena. Íntimo. Confortável. Público. A respiração dela falhou. Desceu para a próxima imagem. Nessa, ele estava ajoelhado. Com uma caixa de veludo aberta nas mãos. Helena levava os dedos à boca, em choque. Ao redor, aplausos. A legenda da colunista foi atualizada segundos depois: “Pedido surpresa de casamento emociona convidados.” O celular escorregou da mão de Lívia e caiu no tapete. Mas ela já tinha visto. Já tinha entendido. Enquanto ela esperava sozinha em um restaurante, usando o vestido que ele gostava, Henrique pedia outra mulher em casamento. E o pior não era a traição. Era perceber que, talvez, ele nunca tivesse escolhido ela de verdade.A semana passou com aquela leveza nova que Lívia ainda estava aprendendo a carregar. Era diferente de tudo que ela conhecia. Não havia aquela ansiedade constante de antes. Aquele monitoramento silencioso de mensagens, de horários, de humor. Aquela sensação permanente de que precisava se encaixar em algum espaço que nunca era exatamente o tamanho dela. Com Augusto era diferente. Ele mandava mensagem quando queria falar. Ela respondia quando podia. Às vezes ele aparecia. Às vezes era ela que aparecia. Sem agenda rígida. Sem cobrança. Apenas os dois existindo um na vida do outro de um jeito que parecia natural demais para ser tão novo. Na quarta-feira ele mandou mensagem no final da tarde. “Você está na galeria ainda?” “Estou. Saio em uns vinte minutos.” Uma pausa. “Posso passar aí ?” Ela franziu levemente a testa. Augusto não pedia para passar. Ele dizia que ia passar. A diferença era pequena mas ela percebeu. “Pode.” Ele chegou quinze minutos depois. De paletó.
Ela sentiu antes de acordar.Algo leve.Quente.Um beijo no ombro.Depois no pescoço.Depois na lateral do rosto.Ela franziu o nariz.Tentou ignorar.Não conseguiu.— Não — murmurou sem abrir os olhos.Ele riu baixo perto do ouvido dela.— Bom dia.— Não é bom dia ainda.— São sete e vinte.— Então definitivamente não é bom dia.Ele beijou a têmpora dela.Devagar.Com aquela calma que tinha em tudo.Ela finalmente abriu um olho.E fechou de novo imediatamente.— Você está com toalha.— Estou.— Você tomou banho.— Tomei.Ela abriu os dois olhos dessa vez.Ele estava sentado na beira da cama, inclinado sobre ela, com a toalha amarrada na cintura e o cabelo ainda levemente úmido.Ela olhou para ele.Para o cabelo.Para os ombros.Para a toalha.Depois olhou para si mesma.Cabelo em todos os sentidos.Rosto amassado de travesseiro.Completamente dest
Mais tarde. O apartamento estava em silêncio. A música tinha acabado em algum momento sem que nenhum dos dois percebesse. Ela estava deitada com a cabeça no peito dele. O braço dele em volta dela. As luzes da cidade entrando pelas janelas sem cortina. Nenhum dos dois falando. Não havia nada que precisasse ser dito naquele momento. Apenas o silêncio bom. O tipo que só existe entre pessoas que se sentem seguras uma com a outra. Ela ouviu o coração dele. Regular. Firme. Fechou os olhos. Respirou fundo. O cheiro dele era familiar agora. Como se já devesse ter estado ali antes. — Augusto. — Hm. — Você está acordado? — Estou. Uma pausa pequena.
Ele não largou o rosto dela.Ficou ali.Com o polegar passando devagar pela bochecha.Olhando para ela de perto.Com aquela expressão que ela nunca mais precisaria tentar decifrar.— Você tem fome? — ele perguntou por fim.Ela piscou.Não era o que esperava ouvir.— O quê?— Fome. — Ele soltou o rosto dela devagar. — Você saiu do trabalho direto para cá. Provavelmente não jantou.Ela ficou olhando para ele.Para aquele homem que segundos atrás estava com a mão no rosto dela depois do beijo mais intenso que ela se lembrava de ter dado.E que agora estava perguntando se ela tinha fome.— Você é impossível — ela disse.— Tenho comida em casa.— Você mora aqui do lado?— A quinze minutos.Ela olhou ao redor.Para o escritório.Para a cidade lá fora pela janela.Para ele.— Tudo bem — disse por fim.Ele pegou o paletó.Ela pegou a bolsa.E saíram juntos.O apartamento dela j
Último capítulo