Mundo de ficçãoIniciar sessãoO convite ficou sobre a mesa durante dois dias.
Lívia tentou ignorá-lo. Tentou se convencer de que tudo aquilo era absurdo. Um plano empresarial disfarçado de estratégia social, criado por um homem que claramente tinha seus próprios interesses. Mas, cada vez que pensava em Henrique, lembrava da mesma coisa. A certeza na voz dele. “Quando essa situação passar, você vai entender.” Como se ela fosse inevitavelmente voltar. Como se a decisão dela não tivesse peso algum. Na terceira manhã, Lívia finalmente pegou o convite. O jantar aconteceria naquela mesma noite. Jantar privado de investidores e patrocinadores do circuito cultural. Hotel Fasano. Um encontro discreto de empresários, financiadores e conselhos culturais da cidade. Exatamente o tipo de ambiente que Henrique frequentava. Exatamente o tipo de lugar onde a notícia do noivado dele ainda estava circulando. Lívia abriu o armário. Ficou olhando as roupas por alguns minutos. Não escolheu o vestido mais chamativo. Nem o mais discreto. Escolheu o que transmitia exatamente o que queria parecer: alguém perfeitamente no controle. Às oito da noite, o salão reservado do hotel já estava cheio. Luzes suaves. Conversas elegantes. Taças de vinho circulando entre grupos de empresários. Lívia entrou sozinha. E, como esperado, algumas pessoas reconheceram seu rosto imediatamente. Os cochichos começaram. — Não é ela? — A ex-namorada do Henrique? — Achei que ela tivesse desaparecido… Lívia continuou andando. Cabeça erguida. Passos firmes. Como se nada daquilo tivesse importância. Foi então que ela o viu. Henrique estava do outro lado do salão. Ao lado de Helena. Ele conversava com dois investidores, mas os olhos dele encontraram os dela quase imediatamente. Por um segundo, a expressão dele mudou. Surpresa. Depois algo mais duro. Irritação. Como se a presença dela ali fosse inconveniente. Helena também a viu. O sorriso dela vacilou por um instante. Lívia manteve o olhar apenas por alguns segundos. Depois desviou. Não tinha vindo ali para discutir. Tinha vindo para provar algo. — Você veio. A voz grave surgiu atrás dela. Lívia se virou. Augusto Vale estava parado a poucos passos. Terno preto. Gravata escura. Postura calma. Mas havia algo diferente no olhar dele. Aprovação. — Achei que você não apareceria — disse ele. — Eu considerei seriamente essa opção. — E o que mudou? Lívia deu um pequeno sorriso. — Curiosidade. Augusto observou o salão. Depois falou em tom baixo: — Henrique já viu você. — Eu sei. — Ele não esperava. — imaginei Augusto estendeu o braço. Não de forma teatral. Apenas natural. — Pronta? Lívia hesitou apenas um segundo. Depois segurou o braço dele. E, naquele instante, algumas cabeças se viraram. Porque Augusto Vale raramente aparecia em eventos acompanhado. Muito menos com alguém… inesperado. Do outro lado do salão, Henrique parou de falar no meio da frase. O investidor diante dele continuava falando. Mas Henrique já não escutava. Os olhos dele estavam fixos em Lívia. No braço dela entrelaçado ao de Augusto. — Com licença — disse Henrique, abruptamente. Helena franziu a testa. — Henrique? Mas ele já estava atravessando o salão. Passos firmes. Direto até eles. Parou a poucos metros. O olhar dele passou por Augusto primeiro. Frio. Depois caiu sobre Lívia. — Podemos conversar? A voz era baixa. Controlada. Mas havia tensão nela. Lívia respondeu com calma: — Acho que não temos mais nada para conversar. — Temos, sim. Augusto falou antes que ela continuasse. — Boa noite, Henrique. O silêncio entre os dois homens era palpável. — Vale — respondeu Henrique. O tom não era amigável. Nem um pouco. Os dois se observaram por alguns segundos. Era evidente que aquela rivalidade era antiga. E pessoal. Henrique voltou a olhar para Lívia. — Eu liguei para você. — Eu sei. — Você me bloqueou. — Sim. — Isso é ridículo. Lívia inclinou levemente a cabeça. — Engraçado. Eu pensei exatamente a mesma coisa quando vi você ajoelhado diante de outra mulher. Henrique apertou a mandíbula. — Você está fazendo uma cena. — Não. Eu estou participando de um jantar. O olhar dele se moveu para o braço dela. Ainda entrelaçado ao de Augusto. — Com ele? Augusto respondeu com tranquilidade: — Comigo. Henrique soltou uma pequena risada sem humor. — Isso é algum tipo de provocação? Lívia respondeu antes que Augusto falasse: — Não. Isso se chama seguir em frente. O silêncio que veio depois foi pesado. Pela primeira vez desde que a conhecia, Henrique parecia… incerto. Ele olhou novamente para Augusto. — Você está usando ela. Augusto não se moveu. — impressão sua meu caro. — não foi uma pergunta, e não estou falando com você. — Mas deveria. Os olhos dos dois homens se encontraram novamente. Henrique deu um passo à frente. — Lívia, vamos conversar em particular. — Não. — Eu não estou pedindo. — Então você deveria começar. Henrique respirou fundo. — Você não entende o que está acontecendo. Lívia soltou uma pequena risada. — Pela primeira vez em anos, eu entendo perfeitamente. Ela se inclinou levemente para mais perto dele. E disse em voz baixa: — Você só não esperava que eu deixasse de te amar primeiro. Henrique ficou imóvel. Augusto então falou calmamente: — Acho que a conversa acabou. Henrique voltou a olhar para ele. — Isso ainda não terminou. Augusto respondeu com a mesma tranquilidade: — Eu espero que não. Lívia virou as costas. Ainda segurando o braço de Augusto. E, enquanto os dois caminhavam pelo salão, ela podia sentir os olhares. Os cochichos. A curiosidade. A surpresa. Do outro lado do salão, Henrique continuava parado. Observando. Pela primeira vez, sem saber exatamente o que fazer. E algo dentro de Lívia percebeu naquele instante. Talvez Augusto tivesse razão. Talvez Henrique Albuquerque tivesse cometido o maior erro da vida dele.






