Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya encontrou em Porto do Silêncio o que o resto do mundo tentou lhe tirar: a paz. Após ter sua imagem e reputação estilhaçadas por uma fofoca viral na adolescência, ela reconstruiu sua vida, cercada pelo som do mar e pelo cheiro de café e papel antigo. Dona do Recanto da Maré, uma pousada que abriga um café literário sem Wi-Fi, ela vive sob uma regra clara: conexão apenas se for real, olho no olho. Leo Veronese é a voz que o Brasil inteiro conhece, mas que ninguém realmente ouve. Exausto de ser um produto da indústria musical e sufocado pela vigilância constante dos paparazzi, ele entra em seu carro e dirige sem rumo, fugindo de um contrato milionário e de uma vida vazia. Ele busca o silêncio que sua mente não conhece há anos. O destino dos dois se cruza em um bar no deck, entre mesas de sinuca, dardos e o som do totó. Enquanto Leo observa Maya — a garota que joga com a leveza de quem não deve nada a ninguém — ele percebe que, pela primeira vez, não foi reconhecido. Atraído pela conversa daquela estranha que prefere livros a redes sociais, Leo confessa que está apenas de passagem, em busca de um lugar para descansar do barulho do mundo. Sem imaginar que está diante do maior astro do país, Maya decide dar uma chance ao misterioso viajante de boné e o convida para conhecer sua pousada. O que ela não sabe é que, ao abrir as portas do seu refúgio para o homem que o mundo inteiro procura, ela está colocandor sua própria paz em risco. Em uma cidade que protege seus moradores e filtra seus visitantes, Leo encontrará a música que perdeu, mas Maya poderá perder o anonimato que tanto lutou para conquistar.
Ler maisPonto de vista: Maya
A placa na entrada da cidade estava desbotada pelo sol e pelo salitre, mas o aviso era claro: Porto do Silêncio. Reduza a velocidade e ouça o mar. Eu me mudei para cá há cinco anos, carregando apenas três malas e um trauma que não cabia em nenhuma delas. Naquela época, meu nome estava em todas as abas de fofoca da minha antiga cidade. "A garota da foto", eles diziam. Uma imagem distorcida, uma mentira viral e o silêncio cúmplice de quem eu achava que eram meus amigos. Eu descobri cedo demais que a internet pode ser um tribunal sem juiz. Aqui, eu reconstruí tudo. Comprei o casarão de madeira caindo aos pedaços na encosta e o transformei na Recanto da Maré. No andar de baixo, criei meu santuário: um café literário. Não temos Wi-Fi. Não temos pressa. Se você quer falar com alguém, precisa olhar nos olhos. Foi assim que recuperei minha dignidade. Mas, naquela sexta-feira à noite, a calmaria parecia prestes a ser testada. O bar do deck estava lotado. O som das tacadas de sinuca e as peças de totó batendo freneticamente eram a trilha sonora da minha diversão com Beto e os outros moradores. Eu estava rindo, segurando o taco de sinuca com confiança, quando senti um arrepio na nuca. Afastei o olhar da mesa e o vi. Ele estava numa mesa de canto, quase engolido pelas sombras do telhado de palha. Usava um boné escuro e uma jaqueta que parecia pesada demais para o clima litorâneo. Tinha uma barba por fazer, bem mais cerrada do que a dos pescadores locais, e olhos que pareciam estar em alerta máximo. Ele me observava. Não com malícia, mas com uma estranheza, como se estivesse vendo um espécime raro. Quando nossos olhos se cruzaram, ele não sorriu. Ele apenas abaixou a cabeça, escondendo-se atrás da garrafa de cerveja. — Maya, sua vez! — Beto gritou. Eu tentei focar no jogo, mas o barulho das risadas começou a soar alto demais. O calor das lâmpadas amareladas me sufocava. Eu precisava do mar. Saí do bar sem avisar, deixando o taco encostado na mesa. Caminhei até a borda do deck de madeira e desci os três degraus que levavam à areia úmida. O vento gelado do Atlântico bateu no meu rosto, e eu finalmente consegui respirar. — Noite agitada lá dentro? Me virei rapidamente. O estranho do boné estava encostado em uma das pilastras do deck, a poucos metros de mim. De perto, a barba dele parecia ainda mais escura e os traços do rosto, apesar de cansados, eram marcantes. — Só um pouco de barulho demais para uma sexta-feira — respondi, cruzando os braços. — E você? Achei que estivesse aproveitando as sombras. Ele deu um passo à frente, mas parou antes de entrar totalmente na luz que vinha do bar. — As sombras são ótimas até você perceber que está sozinho nelas. — Filosofia de bar a uma hora dessas? — tentei brincar, mas ele não relaxou. — Só cansaço. Dirigi o dia todo. Saí de... — ele hesitou por um segundo — saí de longe sem rumo. Só parei aqui porque o asfalto acabou e o cheiro do mar era forte. — Porto do Silêncio tem esse efeito. É o fim da linha para muita gente — eu disse, sentindo uma ponta de empatia. Eu também tinha chegado ali daquele jeito. — É uma cidade bonita. Mas parece pequena demais. Tem algum lugar por aqui que aceite alguém que só quer um travesseiro e nenhuma pergunta? Eu olhei para ele de cima a baixo. Havia algo de familiar nele, algo que eu não conseguia identificar, mas o cansaço nos olhos dele era genuíno. — Você está com sorte. Eu sou a dona da única pousada que ainda tem uma vaga decente nesta época do ano. Ele pareceu surpreso, as sobrancelhas subindo sob a aba do boné. — Você? A jogadora de sinuca? — Dona de pousada, jogadora de sinuca e mestre em café — estendi a mão. — Me chamo Maya. Ele apertou minha mão. A pegada dele era firme, mas ele pareceu recuar um pouco quando os dedos se tocaram, como se tivesse medo de ser reconhecido pelo toque. — Leo. Prazer, Maya. — Venha, Leo. O Recanto da Maré fica a duas quadras daqui. Vou te mostrar onde o mundo realmente fica em silêncio.Ponto de Vista: MayaEu nunca soube o que era força de verdade até aquela noite. Entre o clarão dos relâmpagos e o brilho trêmulo das velas, o mundo se resumiu ao som da minha própria respiração e ao toque firme das mãos do Leo nas minhas. Quando a Fátima finalmente anunciou que a hora tinha chegado, o medo que me acompanhou durante toda a gravidez desapareceu, dando lugar a um instinto primitivo de sobrevivência.— Mais uma vez, Maya! Com força! — a voz da Fátima era o meu único norte.Eu dei tudo o que me restava. Senti meu corpo ser levado ao limite e, de repente, o peso saiu de mim. O choro dele — agudo, forte, cheio de vida — finalmente ecoou pelas paredes de pedra, abafando o barulho da tempestade lá fora. Eu estava exausta, trêmula, mas meus olhos buscavam desesperadamente o rosto do Leo.— Leo... o que é? — sussurrei, a voz quase sumindo.Nós tínhamos decidido, desde que o primeiro teste deu positivo, que não queríamos saber o sexo.Queríamos que o Porto nos desse esse present
Ponto de Vista: Leonardo Minha vida se transformou em uma corda bamba esticada entre dois mundos. De um lado, o rugido ensurdecedor de estádios lotados, o brilho dos flashes e o peso de um disco que se tornou um fenômeno global. Do outro, o silêncio sagrado de Porto do Silêncio e o som da respiração da Maya. Eu não parei; na verdade, nunca trabalhei tanto. O Marcos conseguiu reajustar a agenda para que eu tivesse janelas maiores em casa, mas eu ainda vivia entre aviões e hotéis, sempre com o coração na mão, temendo que o nosso filho decidisse chegar enquanto eu estivesse a milhares de quilômetros de distância. Eu estava no auge. Cada música que eu cantava parecia ter um novo peso agora que eu sabia que o "nosso pequeno náufrago" estava ouvindo. Mas, por dentro, eu estava exausto de ser o Leonardo Veronese. Eu só queria ser o Leo. O Alerta Vermelho A calmaria foi interrompida em uma madrugada de tempestade furiosa, apenas dois dias depois de eu ter voltado da última sequência de s
Ponto de Vista: MayaO retorno da Ilha da Sentinela para Porto do Silêncio foi como cruzar um portal entre o sonho e a realidade. Mas, desta vez, a realidade não era mais assustadora. Ao entrar na casa de pedra agora como a Senhora Veronese, senti que cada canto daquele lugar tinha ganhado uma nova alma. A obra da academia estava terminada, o caminho de pedra sabão estava assentado e a poeira tinha baixado, dando lugar ao cheiro de maresia e de flores frescas que a Fátima espalhou por todos os cômodos para nos receber.Seis meses de gestação. A minha barriga agora era uma curva orgulhosa e nítida sob meus vestidos. O bebê, que o Leo já chamava carinhosamente de "nosso pequeno náufrago", parecia ter herdado a energia do pai; ele não parava um segundo, chutando ritmadamente sempre que ouvia o som do violão ou a voz grave do Leo conversando comigo.O Ninho e o HerdeiroO Leo tinha se transformado. O homem que dominava arenas ao redor do mundo agora passava as tardes com as mãos sujas de
Ponto de Vista: LeonardoSexta-feira. O sol de Porto do Silêncio pareceu esperar por nós. No momento em que Maya pisou na areia, o horizonte se incendiou em tons de coral e cobre, criando uma moldura que nenhum cenógrafo de turnê conseguiria simular. Eu estava ali, descalço, sentindo a textura dos grãos de areia entre os dedos, ouvindo o pulsar do mar que, naquele dia, batia na orla com uma suavidade reverente.Lá fora, o plano de Marcos funcionava como um relógio suíço. Mas aqui, o único som era o das ondas e o choro contido da Fátima, que terminava de arrumar o pequeno altar improvisado na areia, bem ao pé da nossa nova escada de pedra.— Tá na hora, garoto — o Tião disse, surgindo na porta com seu melhor terno antigo, cheirando a naftalina e orgulho. — Ela tá vindo.Caminhei até a areia. O altar era simples: dois troncos de madeira de deriva que o mar trouxe, adornados com flores brancas nativas. Então, ela apareceu no topo da escada. Meu coração errou a batida. Maya estava deslumb
Ponto de Vista: MayaTrês meses se passaram como se estivéssemos vivendo dentro de uma bolha de sabão: linda, iridescente, mas perigosamente frágil. A minha barriga, que antes era apenas um segredo guardado entre o Leo e eu, começou a desenhar uma curva suave, impossível de esconder sob os vestidos leves de linho que eu costumava usar na pousada.O Leo, fiel à sua promessa de "blindagem", não descansou um segundo. A compra da Ilha da Sentinela foi finalizada em tempo recorde. Ele não queria apenas um terreno; ele queria um santuário.— Vamos lá hoje? — ele perguntou, surgindo na cozinha enquanto eu tentava, sem muito sucesso, ignorar o enjoo matinal com um chá de gengibre. — O Marcos disse que os advogados confirmaram: a ilha é oficialmente nossa. Ou melhor, sua. É o seu presente.Fomos no mesmo barco de madeira, o "disfarce" favorito do Leo. Mas desta vez, o sentimento era diferente. Ao encostarmos na areia branca daquela enseada que tínhamos batizado de nosso refúgio, não éramos ape
Ponto de Vista: LeonardoEu estava paralisado. No centro da academia que eu mesmo ajudei a erguer, com o cheiro de madeira nova e o som do mar ao fundo, o mundo que eu achava que tinha sob controle simplesmente se transformou. O pequeno sapatinho de lã branca entre os meus dedos parecia pesar mais do que qualquer responsabilidade que já tive na vida.— Um filho, Maya... — a palavra saiu como um sopro, uma nota que eu nunca tinha cantado.Senti um soco de adrenalina. Primeiro, uma alegria tão selvagem que me deu vontade de subir no telhado e gritar para o oceano. Depois, o medo. Um medo frio e cortante que me fez tremer. Como eu seria pai? Eu, que vivi anos em hotéis, aviões e camarins? Como proteger uma criança do brilho agressivo dos flashes que quase destruíram o meu noivado?Minha mente deu um salto para o futuro. Os shows, a turnê que o Marcos já estava rascunhando, a fama... Tudo mudou de perspectiva. A academia onde estávamos não seria apenas para treinos, mas o lugar onde eu en
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