Mundo de ficçãoIniciar sessãoEnquanto Lívia caminhava ao lado de Augusto pelo salão, ela sentia alguns olhares acompanhando cada passo.
Entre eles, um em particular. Henrique. Ela não precisava olhar diretamente para saber que ele os observava. Durante seis anos, Henrique sempre teve certeza de uma coisa: Lívia nunca iria embora de verdade. E agora ela estava ali. Atravessando o salão ao lado do maior rival dele. Augusto parou perto de uma das mesas laterais. — Você acabou de provocar um pequeno terremoto social — disse ele, em tom baixo. Lívia pegou uma taça de água de uma bandeja que passava. — Ótimo. — Não parece nervosa. — Eu estou. Augusto levantou levemente uma sobrancelha. — Não parece. Ela tomou um pequeno gole. — Talvez eu esteja cansada de parecer fraca. Augusto observou o rosto dela por um instante. — Você não parece fraca. Antes que ela respondesse, uma nova presença se aproximou. Helena. Ela caminhava com passos calculados. Elegante. Serena. Exatamente como alguém que tinha sido preparada a vida inteira para aparecer em eventos como aquele. Mas havia algo diferente no olhar dela. Uma tensão que não estava ali antes. — Lívia — disse Helena. O nome saiu com uma cordialidade cuidadosamente controlada. — Helena. O silêncio entre as duas foi breve, mas pesado. Helena lançou um olhar rápido para Augusto. — Senhor Vale. — Senhorita Ferraz. Lívia percebeu naquele instante: Helena não estava ali por educação. Estava ali para medir território. — Eu não esperava te ver aqui hoje — disse Helena. — Imagino. — Depois de tudo o que aconteceu. Lívia inclinou levemente a cabeça. — Depois de qual parte, exatamente? Helena demorou um segundo antes de responder. — Da exposição desnecessária dos últimos dias. Lívia apoiou a taça na mesa. — Exposição desnecessária? — As notícias. Os comentários. Esse tipo de situação costuma ser desconfortável. Aquilo era quase elegante. Quase. Mas continuava sendo provocação. — Imagino que para você sim — respondeu Lívia. Helena manteve o sorriso. — Henrique tentou falar com você. — Eu sei. — Ele ficou preocupado quando você bloqueou o número dele. Lívia ergueu levemente uma sobrancelha. — Que curioso. — O quê? — Ele não parecia preocupado quando pediu outra mulher em casamento. Por um instante, o sorriso de Helena vacilou. Duas mulheres próximas diminuíram o tom da conversa para ouvir melhor. Helena percebeu. Mas já era tarde. — Henrique acha que vocês ainda precisam conversar — disse ela. — Henrique acha muitas coisas. — Imagino. — Mas nenhuma delas é mais problema meu. O olhar de Helena então se moveu para Augusto. Depois voltou para Lívia. — Vejo que você encontrou companhia. Augusto respondeu antes que ela falasse. — Não diria que ela encontrou. Ele deu um pequeno sorriso. — Eu diria que fui eu quem teve sorte. Helena ficou em silêncio por um momento. Era evidente que não esperava aquela resposta. — Entendo — disse ela, por fim. Mas o sorriso dela já não parecia tão seguro. — De qualquer forma, espero que possamos manter uma convivência civilizada. Lívia respondeu com calma: — Civilidade nunca foi o problema. Helena assentiu. Depois se afastou. Lívia acompanhou com o olhar enquanto Helena atravessava o salão em direção a Henrique, que observava tudo à distância. Assim que Helena se aproximou, os dois começaram a conversar. Henrique parecia irritado. Helena tentava manter o controle da situação. — Você percebeu? — perguntou Augusto. — O quê? — Ela não estava aqui por você. — Não? — Ela estava aqui por mim. Lívia franziu levemente a testa. — Por quê? — Porque ela sabe exatamente quem eu sou. — E isso é um problema? Augusto respondeu com tranquilidade. — Para a família Albuquerque, sempre foi. Do outro lado do salão, Henrique voltou a olhar diretamente para eles. Os olhos dele encontraram os de Augusto. E, pela primeira vez naquela noite, não havia apenas irritação ali. Havia preocupação. Augusto percebeu também. — Interessante — murmurou. — O quê? — Ele acabou de perceber que perdeu o controle da situação. Lívia respirou fundo. — Isso é apenas um jantar. Augusto virou-se levemente para ela. — Não. Ele observou o salão. Os cochichos. Os olhares. A curiosidade. — Isso foi a primeira jogada. Lívia ficou em silêncio. E, naquele momento, entendeu algo que ainda não tinha percebido completamente. Aquilo não era apenas sobre vingança. Era sobre influência. Era sobre poder. Era sobre duas famílias acostumadas a controlar tudo. E talvez fosse exatamente por isso que Henrique parecia tão desconfortável. Porque, pela primeira vez, ele não sabia qual seria o próximo movimento dela.






