Capítulo 4 — O acordo

Naquela noite, Lívia não conseguiu dormir.

O envelope estava aberto sobre a mesa da cozinha.

Os documentos continuavam ali, espalhados, silenciosos, como se cada folha carregasse um peso maior do que parecia.

Ela releu uma das páginas.

Fusão indireta.

Transferência de ativos.

Garantias familiares.

Aquilo não era um casamento.

Era uma operação empresarial.

Henrique não tinha escolhido Helena.

Ele tinha escolhido a estratégia.

Lívia recostou-se na cadeira e deixou o olhar subir até o teto do apartamento.

Seis anos.

Seis anos acreditando que aquele homem estava apenas esperando o momento certo.

Que o atraso no casamento era prudência.

Que a frieza dele era apenas personalidade.

Que o desprezo da família dele era resistência temporária.

Agora tudo parecia ridiculamente claro.

Ela nunca fez parte dos planos.

Foi apenas… conveniente.

O celular vibrou sobre a mesa.

Número desconhecido.

Ela abriu a mensagem.

“Se quiser conversar, estarei no Café Valmont às dez.”

Augusto Vale.

Lívia encarou a tela por alguns segundos.

Não respondeu.

Não queria parecer desesperada.

Nem disponível.

Mas às nove e quarenta da manhã seguinte, ela empurrou a porta de vidro do Café Valmont.

O lugar era silencioso e elegante, frequentado por executivos e advogados da região financeira da cidade.

Augusto já estava lá.

Sentado perto da janela.

Terno cinza-escuro.

Postura impecável.

Um café preto diante dele.

Ele levantou os olhos quando ela entrou.

Não sorriu.

Mas havia algo próximo de expectativa em seu olhar.

— Achei que talvez você não viesse.

— Eu quase não vim.

Ela se sentou.

O garçom apareceu imediatamente.

— Um café, por favor.

Augusto observava cada movimento dela com atenção.

— Você leu os documentos — disse ele.

Não era uma pergunta.

— Li.

— Então já sabe por que aquele casamento precisa acontecer.

— Dinheiro.

— Poder.

— Reputação.

Augusto inclinou levemente a cabeça.

— Você aprende rápido.

Lívia apoiou os cotovelos na mesa.

— A pergunta é outra.

Ele aguardou.

— Por que você realmente quer impedir isso?

Augusto demorou um segundo antes de responder.

— Porque Henrique Albuquerque acredita que sempre ganha.

— E você quer provar que não.

— Algo assim.

O café de Lívia chegou.

Ela agradeceu e esperou o garçom se afastar.

— Ainda não entendi onde eu entro nisso.

Augusto entrelaçou os dedos sobre a mesa.

— Na opinião pública.

— Continue.

— A família Albuquerque construiu uma imagem perfeita. Tradição, estabilidade, valores. O casamento com Helena reforça exatamente essa narrativa.

— E eu estrago essa narrativa.

— Exatamente.

— Virando o quê? A ex-namorada traída?

— Não.

Augusto sustentou o olhar dela.

— A mulher que seguiu em frente.

Lívia soltou um pequeno suspiro.

— Isso ainda parece pequeno.

— Porque você ainda não ouviu a segunda parte.

— Qual?

— Você não segue em frente sozinha.

O silêncio caiu sobre a mesa.

Lívia entendeu antes mesmo de ele terminar a frase.

— Não.

Augusto não se alterou.

— Você ainda não ouviu a proposta.

— Já ouvi o suficiente.

Ele tirou um cartão do bolso do paletó e o deslizou pela mesa.

Lívia olhou.

Era um convite elegante, impresso em papel espesso.

No topo estava escrito:

Jantar privado de investidores e patrocinadores do circuito cultural

Local: Hotel Fasano

Data: três dias

Ela levantou os olhos.

— Você quer que eu vá com você.

— Sim.

— Como o quê? Sua acompanhante?

— Como minha parceira.

— Você quer fingir que estamos juntos.

— Não exatamente fingir.

Lívia soltou uma pequena risada.

— Você quer transformar minha vida amorosa em estratégia de relações públicas.

— Eu prefiro chamar de resposta proporcional.

Ela observou novamente o convite.

— E por que exatamente esse jantar?

Augusto respondeu com naturalidade:

— Porque metade dos investidores mais influentes da cidade estará lá.

— E?

— E Henrique Albuquerque também estará.

O silêncio caiu entre eles.

— Ele foi convidado?

— Claro.

— E Helena?

Augusto deu de ombros.

— Provavelmente.

Lívia respirou fundo.

Agora fazia sentido.

Aquilo não era apenas um jantar.

Era um palco.

— Você quer que ele nos veja.

— Quero que todos vejam.

Lívia passou os dedos pela borda do convite.

— Você gosta de jogos perigosos.

— Apenas dos que posso vencer.

Ela ergueu os olhos.

— E se eu disser não?

Augusto respondeu imediatamente.

— Então nada muda.

— E se eu disser sim?

Pela primeira vez, um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.

— Então começamos a mudar o jogo.

Lívia ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois guardou o convite dentro da bolsa.

— Se eu aceitar, isso não é sobre você.

— Eu sei.

— E também não é sobre vingança.

— Então sobre o quê?

Ela respondeu sem hesitar.

— Sobre nunca mais permitir que alguém decida o meu lugar na própria história.

Augusto assentiu.

— Justo.

Ele se levantou.

— Prepare-se.

— Para quê?

Augusto ajeitou o paletó com tranquilidade.

— Para o momento em que Henrique Albuquerque perceber que perdeu você.

Lívia terminou o café.

Mas algo dentro dela dizia que aquilo era apenas o começo.

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