Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia continuou olhando para o envelope na mão dele.
O nome Vale ainda ecoava em sua cabeça. Qualquer pessoa que circulasse no mesmo meio que Henrique conhecia aquele sobrenome. Era impossível não conhecer. A rivalidade entre as famílias Albuquerque e Vale era antiga, alimentada por disputas empresariais, fusões fracassadas e um histórico de confrontos silenciosos. Era o tipo de rivalidade que aparecia nas páginas de economia dos jornais. E, de repente, aquele homem estava parado diante dela. — Eu realmente não tenho interesse em falar sobre Henrique — disse ela, por fim. Augusto Vale não pareceu ofendido. Na verdade, parecia ter esperado exatamente aquela resposta. — Não é sobre ele — respondeu com calma. — É sobre você. Aquilo a pegou desprevenida. Lívia franziu levemente a testa. — Eu não vejo como isso poderia ser problema seu. — Talvez não seja. Mas pode ser uma oportunidade. Ele ainda segurava o envelope, esperando. Por alguns segundos, ela pensou em simplesmente ir embora. O dia já tinha sido humilhante o suficiente. A última coisa de que precisava era de mais um capítulo estranho envolvendo o nome de Henrique. Mas havia algo na postura daquele homem que chamou sua atenção. Augusto Vale não parecia curioso. Não parecia interessado em fofoca. Parecia… analisando. — O que tem nesse envelope? — perguntou ela. — Informações que talvez você queira ver. — Sobre o quê? — Sobre o que realmente aconteceu ontem à noite. O coração dela apertou. — Eu já vi o suficiente. — Não viu tudo. Silêncio. O vento da tarde passou pela rua, levantando alguns papéis próximos ao meio-fio. Augusto não desviou o olhar dela. — Henrique acredita que você vai continuar exatamente onde sempre esteve — disse ele. Lívia cruzou os braços. — E você veio aqui para me dar conselhos? — Não. Vim porque, pela primeira vez em anos, alguém da família Albuquerque cometeu um erro estratégico. — E eu sou o erro? — Não — respondeu ele. — Você é a consequência. Aquilo a irritou. — Se isso é algum tipo de jogo empresarial, você escolheu a pessoa errada. — Eu discordo. Ele finalmente estendeu o envelope novamente. — A diferença entre você e Henrique é que ele subestima as pessoas. Ela hesitou. — E você não? — Eu prefiro observá-las primeiro. Por um momento, Lívia pensou em recusar. Em manter distância de tudo que envolvesse aquele universo de famílias poderosas, acordos silenciosos e jogos de influência. Mas então lembrou da matéria no portal. Das palavras cuidadosamente escolhidas. “Relacionamento discreto.” “Já estava desgastado.” “Admiração por Helena.” Se a família Albuquerque estava tão disposta a reescrever a história, talvez fosse hora de ela começar a entender o que realmente estava acontecendo. Lívia pegou o envelope. O papel era pesado. Dentro havia algumas folhas impressas. Ela abriu. A primeira página era uma cópia de um contrato preliminar. O nome de Helena Ferraz aparecia ao lado do de Henrique Albuquerque. Lívia folheou. Outro documento. Relatórios de empresas. Acordos financeiros. Ela levantou os olhos. — O que é isso? — O verdadeiro motivo do casamento. — Negócios. — Mais do que isso. — Então fala logo. Augusto inclinou levemente a cabeça. — A empresa da família Ferraz está à beira de um colapso financeiro. O casamento cria uma fusão indireta entre os grupos. Lívia sentiu um frio no estômago. — Então ele não fez isso por amor. — Não. Aquilo não deveria doer. Mas doeu. Porque, em algum lugar dentro dela, ainda existia uma parte pequena e teimosa que queria acreditar que tudo aquilo tinha alguma justificativa emocional. — E por que você está me mostrando isso? — Porque você ainda faz parte do cálculo deles. — Não faço mais. — Eles não pensam assim. Ela apertou o envelope. — Eu terminei. — Henrique não acredita nisso. — Isso é problema dele. Augusto observou o rosto dela por alguns segundos. Como se estivesse avaliando algo. — Talvez. Depois continuou: — Mas existe outra possibilidade. — Qual? — Transformar isso em vantagem. Ela soltou uma pequena risada incrédula. — Você quer que eu me vingue dele? — Eu não uso essa palavra. — Mas está sugerindo exatamente isso. — Estou sugerindo equilíbrio. Silêncio. Carros passavam na avenida próxima. Algumas pessoas saíam do prédio da galeria. A cidade seguia funcionando como se nada tivesse acontecido. — E o que exatamente você quer de mim? — perguntou ela. Augusto respondeu sem hesitar. — Um acordo. Lívia ergueu as sobrancelhas. — Um acordo? — Sim. — Entre mim e você? — Entre nós dois. — E o que eu ganho com isso? Ele respondeu com a mesma calma de antes. — A chance de não ser mais a mulher que eles descartaram. As palavras ficaram suspensas no ar. Lívia respirou fundo. — E o que você ganha? Augusto demorou alguns segundos antes de responder. Então disse: — A oportunidade de derrubar Henrique Albuquerque. O silêncio entre eles pareceu crescer. Lívia olhou novamente para o envelope. Para os documentos. Para o nome de Henrique impresso nas páginas. Depois voltou a olhar para Augusto. — Eu não faço parte das suas guerras empresariais. — Talvez já faça. — Eu não sou uma peça de xadrez. Ele deu um pequeno sorriso. — Eu sei. — Então por que veio até mim? Augusto respondeu sem desviar os olhos. — Porque, às vezes, a única pessoa capaz de derrubar um rei… é aquela que ele teve certeza de que nunca iria se levantar. Lívia ficou em silêncio. Dentro dela, a dor ainda existia. Mas agora havia algo novo misturado a ela. Curiosidade. E uma raiva muito bem direcionada. — Eu vou pensar — disse, por fim. Augusto assentiu. — Faça isso. Ele começou a se afastar, mas parou depois de dois passos. — Senhorita Monteiro. Ela o olhou. — Henrique realmente acredita que você vai voltar para ele. Lívia apertou o envelope. — Então talvez esteja na hora de ele descobrir que não. Augusto a observou por mais um segundo. Depois entrou no carro. O sedã preto desapareceu na esquina. Lívia ficou parada na calçada por alguns instantes. O envelope ainda em suas mãos. Algo naquela conversa tinha mudado o rumo do dia. Talvez até o rumo da sua vida. Ela ainda não sabia se aquilo era um erro. Ou o começo de algo muito maior. Mas uma coisa era certa. Henrique Albuquerque tinha certeza de que ela sempre ficaria. E talvez fosse exatamente por isso que ele nunca imaginaria o que estava prestes a acontecer.






