Capítulo 3 - O rival

Lívia continuou olhando para o envelope na mão dele.

O nome Vale ainda ecoava em sua cabeça.

Qualquer pessoa que circulasse no mesmo meio que Henrique conhecia aquele sobrenome. Era impossível não conhecer. A rivalidade entre as famílias Albuquerque e Vale era antiga, alimentada por disputas empresariais, fusões fracassadas e um histórico de confrontos silenciosos.

Era o tipo de rivalidade que aparecia nas páginas de economia dos jornais.

E, de repente, aquele homem estava parado diante dela.

— Eu realmente não tenho interesse em falar sobre Henrique — disse ela, por fim.

Augusto Vale não pareceu ofendido.

Na verdade, parecia ter esperado exatamente aquela resposta.

— Não é sobre ele — respondeu com calma. — É sobre você.

Aquilo a pegou desprevenida.

Lívia franziu levemente a testa.

— Eu não vejo como isso poderia ser problema seu.

— Talvez não seja. Mas pode ser uma oportunidade.

Ele ainda segurava o envelope, esperando.

Por alguns segundos, ela pensou em simplesmente ir embora.

O dia já tinha sido humilhante o suficiente. A última coisa de que precisava era de mais um capítulo estranho envolvendo o nome de Henrique.

Mas havia algo na postura daquele homem que chamou sua atenção.

Augusto Vale não parecia curioso.

Não parecia interessado em fofoca.

Parecia… analisando.

— O que tem nesse envelope? — perguntou ela.

— Informações que talvez você queira ver.

— Sobre o quê?

— Sobre o que realmente aconteceu ontem à noite.

O coração dela apertou.

— Eu já vi o suficiente.

— Não viu tudo.

Silêncio.

O vento da tarde passou pela rua, levantando alguns papéis próximos ao meio-fio.

Augusto não desviou o olhar dela.

— Henrique acredita que você vai continuar exatamente onde sempre esteve — disse ele.

Lívia cruzou os braços.

— E você veio aqui para me dar conselhos?

— Não. Vim porque, pela primeira vez em anos, alguém da família Albuquerque cometeu um erro estratégico.

— E eu sou o erro?

— Não — respondeu ele. — Você é a consequência.

Aquilo a irritou.

— Se isso é algum tipo de jogo empresarial, você escolheu a pessoa errada.

— Eu discordo.

Ele finalmente estendeu o envelope novamente.

— A diferença entre você e Henrique é que ele subestima as pessoas.

Ela hesitou.

— E você não?

— Eu prefiro observá-las primeiro.

Por um momento, Lívia pensou em recusar.

Em manter distância de tudo que envolvesse aquele universo de famílias poderosas, acordos silenciosos e jogos de influência.

Mas então lembrou da matéria no portal.

Das palavras cuidadosamente escolhidas.

“Relacionamento discreto.”

“Já estava desgastado.”

“Admiração por Helena.”

Se a família Albuquerque estava tão disposta a reescrever a história, talvez fosse hora de ela começar a entender o que realmente estava acontecendo.

Lívia pegou o envelope.

O papel era pesado.

Dentro havia algumas folhas impressas.

Ela abriu.

A primeira página era uma cópia de um contrato preliminar.

O nome de Helena Ferraz aparecia ao lado do de Henrique Albuquerque.

Lívia folheou.

Outro documento.

Relatórios de empresas.

Acordos financeiros.

Ela levantou os olhos.

— O que é isso?

— O verdadeiro motivo do casamento.

— Negócios.

— Mais do que isso.

— Então fala logo.

Augusto inclinou levemente a cabeça.

— A empresa da família Ferraz está à beira de um colapso financeiro. O casamento cria uma fusão indireta entre os grupos.

Lívia sentiu um frio no estômago.

— Então ele não fez isso por amor.

— Não.

Aquilo não deveria doer.

Mas doeu.

Porque, em algum lugar dentro dela, ainda existia uma parte pequena e teimosa que queria acreditar que tudo aquilo tinha alguma justificativa emocional.

— E por que você está me mostrando isso?

— Porque você ainda faz parte do cálculo deles.

— Não faço mais.

— Eles não pensam assim.

Ela apertou o envelope.

— Eu terminei.

— Henrique não acredita nisso.

— Isso é problema dele.

Augusto observou o rosto dela por alguns segundos.

Como se estivesse avaliando algo.

— Talvez.

Depois continuou:

— Mas existe outra possibilidade.

— Qual?

— Transformar isso em vantagem.

Ela soltou uma pequena risada incrédula.

— Você quer que eu me vingue dele?

— Eu não uso essa palavra.

— Mas está sugerindo exatamente isso.

— Estou sugerindo equilíbrio.

Silêncio.

Carros passavam na avenida próxima.

Algumas pessoas saíam do prédio da galeria.

A cidade seguia funcionando como se nada tivesse acontecido.

— E o que exatamente você quer de mim? — perguntou ela.

Augusto respondeu sem hesitar.

— Um acordo.

Lívia ergueu as sobrancelhas.

— Um acordo?

— Sim.

— Entre mim e você?

— Entre nós dois.

— E o que eu ganho com isso?

Ele respondeu com a mesma calma de antes.

— A chance de não ser mais a mulher que eles descartaram.

As palavras ficaram suspensas no ar.

Lívia respirou fundo.

— E o que você ganha?

Augusto demorou alguns segundos antes de responder.

Então disse:

— A oportunidade de derrubar Henrique Albuquerque.

O silêncio entre eles pareceu crescer.

Lívia olhou novamente para o envelope.

Para os documentos.

Para o nome de Henrique impresso nas páginas.

Depois voltou a olhar para Augusto.

— Eu não faço parte das suas guerras empresariais.

— Talvez já faça.

— Eu não sou uma peça de xadrez.

Ele deu um pequeno sorriso.

— Eu sei.

— Então por que veio até mim?

Augusto respondeu sem desviar os olhos.

— Porque, às vezes, a única pessoa capaz de derrubar um rei… é aquela que ele teve certeza de que nunca iria se levantar.

Lívia ficou em silêncio.

Dentro dela, a dor ainda existia.

Mas agora havia algo novo misturado a ela.

Curiosidade.

E uma raiva muito bem direcionada.

— Eu vou pensar — disse, por fim.

Augusto assentiu.

— Faça isso.

Ele começou a se afastar, mas parou depois de dois passos.

— Senhorita Monteiro.

Ela o olhou.

— Henrique realmente acredita que você vai voltar para ele.

Lívia apertou o envelope.

— Então talvez esteja na hora de ele descobrir que não.

Augusto a observou por mais um segundo.

Depois entrou no carro.

O sedã preto desapareceu na esquina.

Lívia ficou parada na calçada por alguns instantes.

O envelope ainda em suas mãos.

Algo naquela conversa tinha mudado o rumo do dia.

Talvez até o rumo da sua vida.

Ela ainda não sabia se aquilo era um erro.

Ou o começo de algo muito maior.

Mas uma coisa era certa.

Henrique Albuquerque tinha certeza de que ela sempre ficaria.

E talvez fosse exatamente por isso que ele nunca imaginaria o que estava prestes a acontecer.

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