Mundo ficciónIniciar sesiónTyler Hale acreditava que o mar pudesse curar o que o luto havia quebrado. Recém-viúvo e emocionalmente à deriva, ele embarca em um cruzeiro luxuoso com amigos na tentativa de fugir das memórias da mulher que perdeu — e de si mesmo. É durante essa viagem que ele conhece Jane Whitmore, a mulher da cabine ao lado: bela, silenciosa e carregando um magnetismo impossível de ignorar. O romance entre eles nasce rápido, intenso e imprudente. O tipo de conexão que não pede permissão nem explicações. Quando o cruzeiro termina, Tyler acredita ter encontrado uma nova chance de felicidade. Anos depois, porém, o casamento perfeito começa a revelar fissuras sutis — olhares que duram demais, silêncios que dizem muito, verdades adiadas. Na esperança de salvar o que ainda resta, o casal decide repetir o ritual que os uniu: outra viagem em alto-mar. Mas o que deveria ser um recomeço se transforma em um jogo perigoso quando Jane desaparece misteriosamente durante a madrugada. Sinais de violência surgem. Testemunhas contradizem-se. E Tyler se torna o centro de uma investigação sufocante, onde cada detalhe parece apontar para algo que ele próprio não consegue — ou não quer — lembrar. Entre desejo, culpa e obsessão, A Garota da Cabine ao Lado conduz o leitor por uma narrativa claustrofóbica, sensual e perturbadora, onde nada é exatamente o que parece — e algumas verdades preferem permanecer escondidas nas profundezas do mar.
Leer másO mar estava calmo demais para alguém que carregava tanto ruído por dentro.
Tyler Hale apoiou os antebraços no corrimão do convés superior e deixou o vento noturno bater no rosto, como se pudesse arrancar pensamentos à força. O cruzeiro avançava em silêncio, cortando a água escura com uma elegância quase cruel. Tudo ali era bonito demais. Organizado demais. Feliz demais. Ele não pertencia àquele lugar. Quatro meses haviam se passado desde a morte de Diana. Tempo suficiente para que o mundo seguisse em frente, mas não ele. Tyler aprendera a responder às perguntas com frases curtas e um sorriso educado. Estou indo, dizia. Ninguém precisava saber que algumas noites ainda pareciam longas demais para atravessar sozinho. — Se continuar encarando o mar assim, vai acabar se jogando — disse Mark Bennett, aproximando-se com dois copos de uísque. Tyler aceitou um deles. — Ainda não — respondeu, sem humor. Mark riu, um riso leve demais para o peso da conversa. — Essa viagem é pra isso. Pra distrair. Pra lembrar que ainda existe vida fora da memória. Tyler assentiu, embora não tivesse certeza se queria lembrar disso. O grupo se dispersara após o jantar. O navio parecia maior à noite, mais silencioso. Tyler respirou fundo, tentando se convencer de que aquela sensação de deslocamento passaria. Então ele a viu. Ela estava alguns metros adiante, apoiada no corrimão, observando o mar como se não houvesse mais nada ao redor. Os cabelos loiros se moviam suavemente com o vento. O vestido escuro delineava o corpo com naturalidade, sem chamar atenção — e, ainda assim, chamava. Não havia exagero nela. Nenhuma tentativa de ser notada. Tyler percebeu que não era exatamente a beleza que o prendia. Era o modo como ela parecia… ausente. Como se estivesse ali por um motivo que não precisava ser explicado. — Conhece? — perguntou Mark, seguindo o olhar dele. — Não — respondeu Tyler, sem desviar os olhos. Ela virou o rosto, quase por acaso. Os olhos claros encontraram os dele por um instante breve demais para ser íntimo, longo demais para ser indiferente. Não houve sorriso. Nem convite. Apenas um reconhecimento silencioso que fez algo se mover dentro dele. Mark se afastou, deixando-o sozinho com aquele incômodo novo, inesperado. Algum tempo depois, ela se afastou do convés. Tyler não pensou — apenas seguiu, mantendo uma distância respeitosa, consciente demais do próprio gesto para fingir que era casual. O corredor das cabines estava vazio. O som distante do navio preenchia o silêncio. Ela parou diante de uma porta e ele fez o mesmo, alguns passos atrás. Ela olhou para o número da cabine, depois para a porta ao lado. — Parece que somos vizinhos — disse, com um leve tom de surpresa na voz. Tyler seguiu o olhar. 512. 513. — Parece — respondeu. Ela estendeu a mão. — Jane. O toque foi rápido, correto. A pele fria. Nada além disso. — Tyler. — Boa noite, Tyler — disse ela, com um sorriso discreto, quase tímido. A porta se fechou. Tyler entrou em sua cabine alguns segundos depois, tentando ignorar a estranha sensação de que algo havia se deslocado do lugar — não no navio, mas dentro dele. Naquela noite, ele demorou a dormir. E, quando finalmente fechou os olhos, não foi o rosto de Diana que surgiu em sua mente. Foi o da mulher da cabine ao lado.Tyler acordou antes de Jane. Naquela manhã, o que o despertou foi a presença ao seu lado. Jane dormia de lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro, o rosto relaxado de quem não precisava fingir enquanto dormia. Tyler a observou em silêncio, sentindo uma inquietação estranha — uma mistura de paz e medo. Paz por estar ali. Medo por gostar demais.Ele se levantou com cuidado, vestiu a camisa e abriu a cortina apenas o suficiente para deixar o azul do mar invadir a cabine. O sol começava a nascer, tingindo tudo de dourado. Pensou em Diana sem querer. Não no rosto, mas na sensação de acordar ao lado de alguém. A lembrança veio seca, sem dor imediata. Isso o assustou mais do que entristeceu.— Você sempre acorda assim cedo?A voz de Jane veio rouca, carregada de sono. Tyler se virou.— Não — respondeu com honestidade. — Acho que hoje acordei diferente.Ela se sentou na cama, puxando o lençol até o peito, os olhos ainda semicerrados.— Diferente costuma ser bom ?Ele sorriu de canto.— A
O jantar havia terminado há poucos minutos, mas Tyler não tinha pressa alguma de voltar para a cabine. O salão do navio ainda pulsava com música baixa, taças tilintando e risos dispersos, mas ele só enxergava Jane.Ela caminhava ao seu lado, o vestido azul-marinho colado ao corpo de forma discreta e provocante ao mesmo tempo. Não havia exagero — nunca havia. Jane tinha essa maneira silenciosa de ser desejável, como se não soubesse exatamente o efeito que causava.— Você está quieto — ela disse, quebrando o silêncio, sem parar de andar.Tyler sorriu de canto.— Estou tentando aproveitar. Isso. O momento. Você.Jane parou no corredor, de frente para ele.— E por que isso te deixaria em silêncio?Ele pensou por alguns segundos.— Porque faz tempo que eu não me sinto em paz. E isso… — ele fez um gesto vago entre os dois — parece frágil. Como se eu pudesse perder se falar alto demais.O olhar dela suavizou.— Tyler, você não precisa andar em ovos comigo.— Eu preciso — ele respondeu baixo.
Tyler não lembrava a última vez em que o próprio corpo havia se tornado um problema.Deitado na cama, encarava o teto da cabine enquanto o navio avançava em silêncio. O balanço suave, quase hipnótico, contrastava com a inquietação que tomava conta dele. Fechava os olhos e via Jane — não nua, não explícita, mas próxima demais. O peso do corpo dela na pista de dança. A mão em seu peito. A respiração que se confundira com a dele.Era o suficiente para acender algo que ele acreditava adormecido.Levantou-se, abriu a porta da cabine outra vez. O corredor estava vazio, como se o navio inteiro tivesse decidido dormir ao mesmo tempo. A porta ao lado permanecia fechada.Por um instante, ele hesitou.Então bateu.Não foi uma batida firme. Nem indecisa. Foi… honesta.Alguns segundos se passaram. Tyler quase recuou quando a porta se abriu.Jane estava descalça. Usava apenas uma camisola clara, simples, que caía solta sobre o corpo. Os cabelos estavam soltos, os olhos atentos — não surpresos.— Ac
O salão do jantar parecia outro lugar à noite.As luzes mais baixas suavizavam os contornos, transformando rostos comuns em versões mais interessantes de si mesmos. O som de taças se chocando misturava-se a risadas controladas, e o cheiro de perfume caro se espalhava pelo ar como uma promessa silenciosa.Tyler percebeu Jane antes mesmo de vê-la.Era sempre assim.Ela estava próxima à mesa central, conversando com um casal que ele não conhecia. O vestido azul escuro caía com precisão sobre o corpo dela, simples demais para ser ignorado, elegante demais para parecer casual. Os cabelos estavam soltos, tocando-lhe os ombros de um jeito que o fez desviar o olhar por um segundo — um gesto involuntário, quase defensivo.Quando Jane o viu, não sorriu de imediato. Apenas sustentou o olhar por um instante longo, íntimo demais para ser acidental. Depois, inclinou a cabeça em um cumprimento discreto.Tyler sentiu o corpo reagir antes da mente.A mesa do grupo estava cheia. Chloe falava animadamen
Tyler passou a noite acordado demais para quem dizia estar cansado.O teto da cabine parecia mais baixo, como se o espaço tivesse encolhido desde o fim da tarde. Ele tentou ler, depois tentou dormir, depois desistiu de ambos. A conversa na piscina voltava em fragmentos — frases incompletas, silêncios longos demais, o modo como Jane não desviara o olhar quando ele falara de Diana.Não havia pena nos olhos dela. Tampouco curiosidade mórbida. Apenas atenção.Aquilo o incomodava.Perto da meia-noite, levantou-se e abriu a porta da cabine, sem um motivo claro. O corredor estava silencioso. A porta ao lado, fechada. Tyler ficou ali por alguns segundos, sabendo da própria tolice, antes de voltar para dentro.Naquela noite, dormiu pouco e sonhou menos ainda.Na manhã seguinte, o céu estava encoberto, um cinza claro que deixava o mar com aparência metálica. Tyler encontrou o grupo no café, mas a conversa parecia distante, como se ele estivesse escutando através de uma parede fina.— Hoje tem o
Tyler passou o dia inteiro olhando para o relógio sem perceber.As horas se arrastaram entre compromissos que não lhe diziam respeito: uma excursão que ele recusou, um almoço longo demais, risadas altas demais. O navio seguia seu curso com a precisão de sempre, mas dentro dele algo parecia desalinhado, como se tivesse perdido o eixo.O bilhete permanecia dobrado no bolso da calça.A piscina fica vazia depois das seis.Simples. Direto. Nenhuma assinatura. Ainda assim, Tyler não teve dúvidas sobre quem o escrevera. Aquilo o incomodava mais do que deveria. Não pelo convite em si, mas pela facilidade com que aceitara a ideia antes mesmo de decidir.Às cinco e cinquenta e oito, ele já estava no elevador.Trocara a camiseta por uma camisa leve de linho e vestira um short escuro. Não estava tentando impressionar — era isso que dizia a si mesmo. Ainda assim, passou mais tempo do que o habitual diante do espelho, ajeitando a barba, conferindo o próprio rosto como quem procura rachaduras.A áre
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