Mundo de ficçãoIniciar sessãoLívia não chorou na mesma hora.
Isso foi o que mais a assustou. Ficou sentada no chão do quarto, com as costas apoiadas na lateral da cama e o celular caído ao lado, como se o corpo tivesse entendido antes da mente que alguma coisa dentro dela havia morrido. As lágrimas vieram quase uma hora depois, silenciosas, pesadas, sem soluços. Não eram lágrimas de surpresa. Eram lágrimas de confirmação. Às duas da manhã, Henrique ligou. Ela olhou o nome dele brilhando na tela. Uma parte dela quis atender e gritar. Outra quis implorar por uma explicação. Outra, menor e vergonhosa, quis ouvir que aquilo tudo tinha sido um mal-entendido. No fim, não atendeu. O telefone tocou de novo. E de novo. Na quarta vez, ela deslizou o dedo pela tela e colocou no viva-voz, sem dizer nada. — Lívia? A voz dele saiu baixa, controlada. Ela continuou em silêncio. — Eu sei que você viu. Ainda em silêncio, ela fechou os olhos. Henrique respirou fundo. — Não aconteceu do jeito que você está pensando. Como homens assim sempre diziam a mesma coisa? Não importava a cena, a evidência, a humilhação pública. Nunca acontecia do jeito que a mulher estava pensando. — Então me explica — disse ela, por fim. — Helena está passando por um momento difícil. — E isso exige que você a peça em casamento? — Você não entende o contexto. — Então me faça entender, Henrique. Porque, até onde eu sei, pedir outra mulher em casamento enquanto sua namorada te espera sozinha em um restaurante não parece contexto. Parece traição. Do outro lado, ele demorou um instante para responder. — Eu ia te contar. — Quando? Depois da lua de mel? — Não fala assim. — Assim como? Como a mulher que foi feita de idiota? A voz dela falhou na última palavra, e ela odiou isso. Odiou ainda mais quando Henrique assumiu aquele tom cansado, quase impaciente, que usava sempre que ela saía do papel da mulher compreensiva. — Lívia, controla suas emoções para que a gente consiga conversar. Ela ficou em silêncio por dois segundos. Depois falou, muito calma: — Você tem razão. Vamos conversar com calma. Há quanto tempo isso está acontecendo? — Não importa. — Importa para mim. — Algumas semanas. Lívia apertou os olhos. — E sua mãe sabia? Henrique não respondeu. Não precisava. — Claro — murmurou ela. — Por isso ela me ligou. Por isso me disse para não ir ao evento. Todo mundo sabia. Todo mundo, menos eu. — Era uma situação provisória. — Provisória? Você ajoelhou diante de outra mulher com uma aliança na mão. — Foi necessário. — Para quem? Para os negócios da sua família? Para a imagem de vocês? Para essa encenação ridícula de homem salvador? Henrique perdeu o pouco de paciência que ainda fingia ter. — Você está transformando tudo em algo egoísta. Lívia ficou imóvel. — Egoísta? — Sim. Existem decisões maiores do que sentimentos individuais. Por alguns segundos, ela realmente não soube o que dizer. Aquilo era pior do que a traição. Era a completa ausência de culpa. Henrique não parecia arrependido. Parecia apenas incomodado por ter sido descoberto. — Você sabe o que é mais cruel nisso tudo? — perguntou ela, em voz baixa. — Não é ter escolhido outra mulher. É ter feito isso com a certeza de que eu continuaria aqui. Ele não negou. E, naquele silêncio, Lívia entendeu a verdade inteira. Henrique realmente acreditava que ela ficaria. Porque sempre ficou. Depois das ausências. Dos aniversários esquecidos. Das promessas adiadas. Das pequenas humilhações. Do desprezo elegante da família dele. Ela sempre ficou. Então, por que ele pensaria diferente agora? — Lívia… — Não. Agora você vai me ouvir. Ela se levantou do chão, como se a própria coluna tivesse endurecido. — Eu esperei seis anos, Henrique. Aguentei tudo porque te amava e porque acreditei que, em algum momento, você finalmente me enxergaria como prioridade. Mas você nunca me amou de verdade. Você só se acostumou a ser amado por mim. Do outro lado da linha, ele soltou um suspiro curto. — Está exagerando. Ela sorriu sem humor. Até o fim. Até o fim ele pisaria na dor dela e chamaria aquilo de exagero. — Acabou. O silêncio que veio depois foi tão abrupto que pareceu um corte. — Não seja infantil — disse ele, por fim. Lívia quase riu. Infantil. Abandoná-la publicamente não era infantil. Mentir não era infantil. Usá-la como garantia emocional enquanto construía outra vida não era infantil. Mas terminar era. — Você acha que eu vou aceitar isso e continuar esperando você voltar quando estiver pronto? — perguntou ela. Henrique respondeu com a calma cruel de quem sempre se sentiu no controle: — Eu acho que, quando essa situação passar, você vai entender. Foi então que alguma coisa terminou de quebrar. Porque não havia sequer um pedido de desculpas. Nem medo. Nem amor. Apenas certeza. A certeza absoluta de que ela o amava mais do que amava a si mesma. — Boa noite, Henrique. — Lívia— Ela desligou. Bloqueou o número dele. Depois bloqueou o da mãe dele. Ficou parada no centro do quarto, respirando como se tivesse corrido uma maratona. O coração doía. A cabeça latejava. As mãos tremiam. Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia algo estranho misturado à dor. Raiva. Na manhã seguinte, Mariana apareceu às sete, com café, pão de queijo e uma expressão assassina. — Se você me disser que voltou com ele, eu mesma te sequestr— Ela parou ao ver o rosto de Lívia. — Meu Deus. Lívia estava pálida, os olhos inchados, mas ereta. — Eu terminei. Mariana piscou, surpresa. — Terminou mesmo? — Terminei. — E ele? — Acha que eu vou entender tudo no tempo dele. Mariana fechou a porta com força. — Eu vou atropelar esse homem. Pela primeira vez desde a madrugada, Lívia soltou uma risada breve e amarga. As duas se sentaram à mesa da cozinha. Mariana empurrou uma caneca de café para ela. — Você não vai voltar atrás, vai? Lívia segurou a caneca quente entre as mãos. Pensou nos seis anos. Na foto. Na joia na mão dele. Na legenda da colunista. Na voz fria da mãe dele. Na arrogância cruel ao telefone. — Não — disse, enfim. — Mas acho que ele ainda não entendeu isso. Mariana a observou por alguns segundos. — Então faça ele entender. — Como? — Sumindo da vida dele. Horas depois, ao chegar à galeria onde trabalhava, Lívia percebeu os olhares. Dois colegas cochichavam perto da recepção. Uma estagiária fingia mexer no computador. Outra baixou a cabeça rápido demais. Então seu chefe, Renato, aproximou-se com uma expressão cautelosa. — Lívia, se quiser ir para casa, tudo bem. Ela sentiu o estômago afundar. — Por quê? Renato hesitou. Pegou o tablet sobre a bancada e entregou a ela. Uma matéria em um portal de colunas sociais ocupava a tela. “Herdeiro Albuquerque assume compromisso com Helena Ferraz após anos de relacionamento discreto com ex-namorada.” Ex-namorada. Discreta. Como se ela fosse apenas um detalhe constrangedor sendo apagado da versão oficial. A matéria seguia com frases ainda piores: “Fontes próximas afirmam que o relacionamento anterior já estava desgastado há meses.” “Henrique Albuquerque sempre demonstrou grande admiração por Helena.” “A união fortalece laços entre famílias tradicionais.” Lívia devolveu o tablet com movimentos lentos. No fundo, Henrique e a família dele não estavam apenas encerrando uma relação. Estavam reescrevendo a história. Transformando-a em um capítulo menor. Descartável. Conveniente. E isso ela não aceitaria. No fim da tarde, quando saiu do prédio, encontrou um carro preto estacionado do outro lado da rua. Não era o de Henrique. Era um sedã importado, discreto, elegante. Um homem alto, encostado à porta, observava a entrada da galeria. Terno cinza-escuro. Postura impecável. Rosto sério. Quando os olhos dele encontraram os dela, Lívia sentiu um arrepio estranho. Ele atravessou a calçada com calma. Parou a poucos passos. — Senhorita Lívia Monteiro? — Sim. — Meu nome é Augusto Vale. Ela reconheceu o sobrenome no mesmo instante. Vale. O maior rival empresarial dos Albuquerque. O homem estendeu a ela um envelope. — Preciso falar com você sobre Henrique. Lívia não pegou o envelope. — Não tenho mais nada para ouvir sobre ele. Augusto sustentou seu olhar sem vacilar. — Acredito que, desta vez, você vai querer ouvir.






