Mundo de ficçãoIniciar sessãoAnny só queria trabalhar como empregada na mansão mais luxuosa da cidade e juntar dinheiro. Para isso, seguia regras claras: não se aproximar do patrão, não chamar atenção, não desejar Samuel Zaskc, o poderoso presidente de um império de joias. Casado por conveniência com Sarah, herdeira de outra grande joalheria, Samuel vive um casamento perfeito apenas no papel. Pressionada a gerar o herdeiro que vai consolidar a aliança entre as famílias, Sarah dopa o marido com um afrodisíaco. O plano sai do controle, e Samuel, confuso e intoxicado, acaba no quarto de Anny. Ela percebe que ele está drogado. Mesmo assim, entre medo e desejo, entrega a ele sua primeira vez. Na manhã seguinte, Anny foge da mansão. Mas Samuel se lembra de tudo. Obcecado, ele a traz de volta e revela a armação da esposa diante da família, e a possibilidade de que Anny esteja grávida do herdeiro Zaskc. Para evitar um escândalo, a matriarca impõe um acordo cruel: Anny ficará escondida na mansão até o nascimento do bebê e, depois, será apenas a babá do filho do presidente. Samuel promete manter distância. Ele não cumpre. Presos na mesma casa, vigiados por uma esposa vingativa e uma família elitista, Anny e Samuel enfrentam uma paixão proibida que ameaça destruir um dos casamentos mais poderosos do país, e mudar o destino de todos.
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Eu termino de esfregar o último pedaço de mármore do corredor e olho para o próprio reflexo torto no chão brilhando. Não é que eu goste de limpar, mas aquele brilho me dá a sensação de que, pelo menos, alguma coisa na minha vida responde ao meu esforço. O resto não. O resto parece decidido desde antes de eu nascer. A mansão Zaskc respira riqueza por cada fresta. Do meu canto, vejo o lustre do hall principal aceso, mesmo com o sol ainda entrando pelas janelas enormes. Tudo é demais ali dentro: demais ouro, demais vidro, demais silêncio. Silêncio principalmente quando eu apareço. É como se, no momento em que eu atravesso a porta, o mundo rico lembrasse que existem pessoas como eu e resolvesse diminuir o volume. Seguro o balde com uma mão e o pano com a outra, atravessando o corredor que leva ao escritório do presidente. Samuel Zaskc. Meu patrão. O homem que comanda empresas, campanhas, manchetes e… o meu fôlego. Não era para eu sentir nada, eu sei. Mas, quando a gente passa a vida inteira sendo invisível, qualquer olhar que se demora um segundo a mais parece tempestade. Entro no escritório depois de bater de leve na porta. Ninguém responde, então empurro com cuidado. A sala está vazia. O cheiro de couro e café caro ainda está no ar, misturado com a colônia que eu já aprendi a reconhecer mesmo lá na lavanderia. As paredes exibem prêmios, fotos, quadros frios. Atrás da mesa, o logo da Zaskc brilha dourado. Eu só brilho quando o chão reflete a luz. Sobre a mesa, há uma caixa de veludo aberta com algumas joias que a senhora Zaskc experimentou mais cedo. A assistente me pediu para guardar com cuidado no cofre. Aproximo devagar, como se aquelas pedras fossem ter opinião sobre quem está tocando nelas. — Você sabe quanto vale isso nas suas mãos, Anny? A voz dele corta o ar antes que eu consiga respirar direito. Levo um susto, quase derrubo a caixa. Samuel está encostado ao batente da porta de vidro que dá para a varanda, terno escuro impecável, gravata afrouxada como se o mundo fosse sempre uma reunião que acabou de terminar. Não ouvi a porta abrir, não ouvi passos. Ele tem esse talento de aparecer onde não deveria. Engulo seco, tentando lembrar qual é o lugar de uma empregada numa cena dessas. — O suficiente para eu nunca mais precisar limpar esse chão… mas não é meu, senhor. Eu só seguro e devolvo. Minha voz sai baixa, mas firme. Não sei de onde tiro coragem para falar assim com ele. Talvez seja cansaço. Talvez seja essa vontade idiota de mostrar que eu sei fazer conta, mesmo que seja de cabeça. Ele dá alguns passos na minha direção, devagar. Cada passo ecoa no piso de madeira, marcando o tempo entre nós. — É por isso que eu confio em você. O “confio” cai sobre mim como se fosse elogio, mas pesa como teste. Sinto o rosto esquentar. Ninguém fala de confiança para quem dorme em quarto de empregada, a menos que esteja prestes a pedir algo que não deveria. Seguro a caixa com força, como se ela pudesse me proteger do homem que está à minha frente. — Eu só faço o meu trabalho, senhor. Desvio o olhar para as joias, tentando fingir que estou mais interessada nelas do que nele. Mentira. Eu conheço cada linha do rosto dele sem nunca ter encarado de frente por mais de três segundos. O cabelo sempre tão arrumado, o olhar calculado, o jeito como ele aperta os lábios quando está irritado. Já vi tudo isso de longe, dos corredores, da porta entreaberta da cozinha, do reflexo dos vidros. Ele para perto demais. A distância que separa patrão e empregada deveria caber um armário inteiro. Agora cabem só alguns centímetros, o suficiente para eu sentir o perfume e o calor da presença dele. — Sabe, às vezes eu acho que você vê mais do que deveria, Anny. — Eu só vejo o que sobra, senhor. Conversas que o vento traz, portas que não fecham direito… Não se preocupe, não sou de falar. Meu coração dispara. — “Por que eu falei isso? Fale menos, Anny, pensa mais.” — eu mesma me repreendo. Ele inclina o corpo um pouco para o lado, como se estivesse estudando meu rosto. — Não é disso que eu tenho medo. As palavras saem mais baixas, quase um segredo. Minha pele arrepia. Aperto a caixa de veludo até sentir o tecido machucar a palma da mão. — Do que o senhor tem medo, então? A pergunta escapa antes que eu consiga engolir. Era para eu ficar calada, anotar mentalmente a ordem, guardar as joias, desaparecer. Mas alguma parte de mim quer ouvir a resposta. Quer saber se o homem que manda em tudo teme alguma coisa. Ele não responde. Em vez disso, deixa a mão deslizar pela lateral da mesa até se aproximar da minha cintura. Não me toca, não ainda. Só reduz a distância até que eu consiga sentir a promessa do toque. — De esquecer que você é funcionária. Meu estômago vira. Metade de mim quer recuar, metade quer ficar exatamente onde está para ver até onde o presidente iria. — “É agora que você estraga tudo, Anny.” — eu penso, sentindo o coração bater na garganta. — O senhor é casado. A frase sai num sussurro, quase um pedido de socorro para mim mesma. Lembro da esposa dele descendo a escada mais cedo, joias penduradas nos pulsos que eu lustrei, perfume caro cortando o ar. Lembro das revistas na banca lá de fora, com a foto deles sorrindo para as câmeras. Famílias perfeitas sempre ficam mais bonitas em papel brilhante. Ele solta um riso curto, sem humor. — Sou preso a um contrato, não a um amor. A maneira como ele fala “contrato” faz parecer que o casamento é só mais um papel assinado entre muitos. Eu sei que não é tão simples, mas, naquele segundo, acredito. Ou quero acreditar. Porque, se for só papel, talvez não seja tão errado sentir o que eu sinto. Talvez eu não seja tão monstruosa assim. A mão dele enfim encontra minha cintura. É um toque leve, quase um teste, mas meu corpo reage como se fosse choque. Eu deveria me afastar de imediato. E me afasto. Só que não tão rápido quanto deveria. O intervalo entre o toque e o passo para trás é suficiente para ele entender que o problema não é nojo. É medo. — Eu… preciso guardar isso, senhor. Afasto a mão dele com cuidado, sem grosseria. Não posso comprar briga. Gente como eu não sobrevive a guerras com gente como ele. Abro o cofre que fica atrás do quadro, digito a senha que decorei depois de ver uma vez só. Isso também faz parte da tal confiança. Guardar segredos que não são meus. Coloco a caixa lá dentro, escuto o clique metálico, fecho o quadro. Quando me viro, ele ainda está lá, me observando com aquele olhar que mistura curiosidade e algo mais escuro. — Você já pensou em sair daqui, Anny? A pergunta me pega de surpresa. — Da mansão? — Da mansão. Do trabalho. Dessa vida de… andar em silêncio. Ele acabou de resumir meu currículo inteiro em duas palavras: andar em silêncio. — Já, senhor. — “Todo santo dia.” — eu penso, mas não digo. — E por que não vai? Dou de ombros, apertando o pano de chão agora úmido entre os dedos. — Porque o lado de fora não está exatamente esperando por mim de braços abertos. Aqui, pelo menos, eu sei onde estão as paredes. Ele me encara por mais um momento, como se quisesse atravessar essas paredes que eu mesma ergui dentro de mim. Depois desvia o olhar, pega o celular sobre a mesa, volta a ser o presidente que resolve coisas grandes. — Pode ir descansar quando terminar. Diga a governanta que eu autorizei. — Sim, senhor. Saio do escritório quase tropeçando nas próprias pernas. O corredor está vazio, mas eu juro que o ar parece mais pesado. Encosto a mão no peito, tentando regular a respiração. — Você não é do mundo dele, Anny. Lembre disso. — eu sussurro para mim mesma, descendo as escadas de serviço. O caminho até o anexo onde fica meu quartinho é sempre o mesmo… corredor estreito, cheiro de comida vindo da cozinha, risadas abafadas dos outros funcionários tentando esquecer a dureza do dia. Passo por tudo como se estivesse dentro de um sonho lento. Abro a porta do quarto. O espaço é minúsculo, cama estreita, armário que não fecha direito, uma janela pequena que dá para o estacionamento. Longe dos lustres, longe das joias, longe dele. Jogo o pano de chão dentro do balde, tiro os sapatos, sento na beira da cama. Olho para as próprias mãos. São mãos que carregam bandeja, que esfregam piso, que recolhem restos de festas. Mãos que, hoje, seguraram uma caixa de joias que valia mais do que tudo o que eu vou ganhar em anos. E que sentiram, por alguns segundos, o peso do toque do presidente na minha cintura. — “Você precisa sair daqui antes que o coração faça alguma besteira.” — eu penso, apertando os olhos com força. Mas, quando deito e encaro o teto descascado, a imagem que volta não é a do cofre nem da mansão. É o olhar dele quando disse que tinha medo de esquecer que eu era funcionária. E, contra toda a lógica, uma parte de mim deseja que ele esqueça. Mesmo sabendo que, se isso acontecer, quem vai pagar a conta sou eu. Puxo o lençol fino até o queixo e viro de lado, tentando fugir dos pensamentos. Lá fora, os carros caros vão embora um por um. Aqui dentro, a empregada que não deveria sonhar tenta convencer o próprio coração de que, na vida real, contos com presidente e empregada sempre acabam em demissão ou escândalo, nunca em final feliz.Samuel De manhã, a casa do meu filho não acorda. Ela explode. Cheiro de café vindo da cozinha, choro de bebê atravessando corredor, risada da Anny misturada com a da sogra do meu filho, voz da Samantha ditando algum diálogo em voz alta, como se o mundo fosse sala de roteiro.Do meu lugar na cadeira da varanda, eu enxergo tudo em quadro aberto.Andryel passa com um dos meninos no colo, cabelo desgrenhado, camiseta amassada, cara de quem dormiu pouco e, ainda assim, faria tudo de novo.Hadassah cruza a sala com uma das meninas no peito, passo mais lento, cicatriz escondida debaixo do pijama largo, mas uma luz no rosto que não combina com quem quase ficou.Alguém passa, de avental, com prato na mão e ameaça:— Quem deixar prato sujo fora da pia vai perder direito de colo hoje, aviso logo.Anny ri alto lá de dentro:— Então eu vou lavar até panela que não usei.Samantha aparece com o notebook aberto, andando e falando sozinha:— Não, esse diálogo tá muito bonzinho… eles precisam brigar m
Samantha Eu sempre achei que, pra ser escritora, eu ia precisar estudar muito o mundo lá fora.Viajar, observar estranhos em cafés, ouvir conversa alheia no metrô.No fim, descobri que bastava sentar na sala da minha família.Ser autora em família dramática é como ter Netflix em casa, sem pagar assinatura.Tem reviravolta, personagem com passado sombrio, figurante roubando cena, vilão que vira mocinho. Às vezes, tudo isso na mesma pessoa. Por anos, eu fui a irmã que observava.Andryel achava que eu tava só no celular, mas eu tava anotando mentalmente cada diálogo atravessado, cada silêncio pesado, cada “depois a gente conversa” que nunca vinha.Minha mãe achava que eu era “a menina do mundo da lua”.Eu estava nos bastidores, montando cena. Quando a coisa entre ele e a Hadassah explodiu, parecia roteiro pronto.Patrão rico, funcionária de mundo diferente, família contra, passado pesando, culpa, segunda chance. Eu olhava pra aquilo tudo e pensava:— “Se eu colocar isso num livro, vão d
HadassahQuando eu volto a mim de verdade, não é com o corte cicatrizado, nem com as forças inteiras. É com uma pergunta simples:— Quando eu posso pegar um deles no colo?A enfermeira sorri por trás da máscara.— Hoje. — responde. — Hoje a gente começa.Até então, eu só tinha visto meus filhos por janelas. Vidro de UTI, berços aquecidos, fios finos demais pro tamanho deles.Eu encostava a mão na incubadora, chamava pelo apelido que a gente nem tinha decidido se ia pegar, e voltava pro meu leito com um vazio estranho nos braços.Agora, sentada na poltrona da UTI Neonatal, com travesseiro de apoio e mil orientações sobre como não arrancar nada, eu esperava.— Vamos começar pelo Axel. — diz a enfermeira. — Ele é o mais espoleta hoje.Só de ouvir o nome, meu peito aperta de um jeito bom. Ela vem com aquele pacotinho embrulhado, touquinha na cabeça, sonda no nariz.Coloca devagar no meu colo, arrumando braços, pernas, fios. Por um segundo, eu travo. Tenho medo de respirar errado e derruba
Andryel Nunca uma sala de espera me pareceu tão pequena para tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. Por fora, cadeiras, café ruim, TV ligada em canal qualquer. Por dentro, quatro vidas recém-chegadas e uma pendurada num fio.Eu ainda ouvia, de vez em quando, o eco dos choros. Primeiro um, depois outro, depois outro, depois outro.Quatro.Algum pediatra veio até mim, máscara no rosto, olhos gentis:— Eles nasceram bem. — disse. — Prematuros, mas com boa vitalidade, respirando com pouco suporte. Vão pra avaliação e observação na UTI Neonatal, mas o quadro é estável.Estável. Apgar bom. Prematuros, mas fortes. Palavras técnicas tentando traduzir milagre. Ele falou de peso, medidas, coisas que eu quase não registrei. Eu só pensava:— “Eles estão vivos.”Foi quando percebi que, na minha cabeça, os nomes começaram a se alinhar sozinhos.Axel.Arthur.Heloísa.Hellye.Quase falei em voz alta. Mas engoli.— Sem ela acordada, eu não vou definir nada. — sussurrei, mais pra mim do que pros out
Hadassah Quando penso no dia em que meus filhos nasceram, minha memória parece um filme mal editado. Tem cenas nítidas, buracos, cortes secos. Luzes demais. Som demais. E, no meio, quatro choros que valem por uma vida inteira.Lembro do carro. Do banco inclinado, da mão do Andryel apertando a minha, do telefone no viva-voz.— Doutor, as contrações estão de tantos em tantos minutos. — ele dizia. — É quadrigêmeos, o senhor sabe. Estamos a caminho.A voz do médico vinha calma do outro lado:— Vem direto pra maternidade. — orientou. — Vamos avaliar, mas com esse quadro é bem provável que a gente indique cesariana. Gestação múltipla, quatro bebês… precisamos agir rápido.“Gestação múltipla.”“Cesariana indicada.”“Precisamos agir rápido.”As palavras ficaram ecoando na minha cabeça, misturadas com o barulho do trânsito, o som da minha respiração contando contração.Quando chegamos, foi tudo muito rápido e muito demorado ao mesmo tempo. Papel pra assinar. Pulseira no braço. Roupa trocada.
Andryel Se eu soubesse que aquela era a última noite “normal”, talvez tivesse prestado mais atenção em cada detalhe. No jeito da Hadassah andar, na fala da minha sogra, até no barulho do talher batendo no prato. Mas a gente só chama de véspera depois. Na hora, parece só mais um dia.Minha manhã começou como tantas outras nos últimos meses. Reunião na empresa, email atrasado, ligação com fornecedor, check rápido com o pessoal do financeiro.Por trás de tudo, um cronômetro invisível: “falta pouco”. Ninguém sabe quanto é “pouco” numa gestação de quatro. Os médicos falam de janela, de semana ideal, de risco de parto prematuro.A cabeça trabalha em duas linhas o tempo todo, meta do trimestre, meta de manter todo mundo aqui dentro até onde der. No almoço, decidi ir pra casa. Quinze minutos de carro. Já fiz esse trajeto tantas vezes que sei o tempo de cor em cada horário. Entrei no triplex, encontrei Hadassah no sofá, mão nas costas.— Tá tudo bem? — perguntei.Ela fez uma careta.— Só um





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