Capítulo 2

Anny

Antes de conhecer a mansão dos Zaskc, eu já tinha perdido tanta coisa que achava que não sobrava mais nada para tirarem de mim.

Meu mundo acabou sete anos atrás, dentro de um ônibus. Eu tinha quinze. Estava sentada do lado da janela, encostada no ombro da minha mãe, voltando de uma visita à casa da minha avó.

Meus irmãos gêmeos, dois anos mais velhos, estavam lá atrás, fazendo piada com qualquer coisa, rindo alto demais. Meu pai cochilava, com aquele jeito de quem trabalha o dia inteiro e aproveita qualquer banco pra descansar.

Lembro do barulho até hoje. Um freio longo, o grito do motorista, o estalo de metal rasgando metal. Depois, silêncio.

Quando acordei, tinha vidro no meu cabelo, cheiro de gasolina e ferro quente no ar. O ônibus estava de lado, gente chorando, gritando nomes. Chamei pelos meus pais e irmãos.

— Mãe? Pai? Léo? Luan?

Ninguém respondeu.

Não vou descrever o resto. Tem coisa que nem eu quero lembrar inteira. Só sei que, naquele dia, numa estrada qualquer, eu deixei minha família inteira para trás.

Fui a única que saiu do hospital andando. Deram a notícia em partes. Primeiro do meu pai, depois da minha mãe.

— Você é forte. — diziam as pessoas. Como se eu tivesse opção.

A casa onde eu cresci não era grande, mas era o único lugar do mundo que fazia sentido pra mim.

Na frente, um portão baixo, nos fundos, um quintal pequeno onde minha mãe plantava umas flores teimosas que insistiam em nascer até no cimento rachado.

A casa estava no nome da minha avó, que já tinha morrido, mas todo mundo sabia que era “a casa da minha mãe”.

Pelo menos eu achava que todo mundo sabia.

Quando o luto ainda estava fresco demais pra eu conseguir pensar em conta de luz, meus tios apareceram. E, com eles, os papéis.

— A casa está no nome da mamãe. — disse um deles, ajeitando o óculos. — Então, por direito, é nossa. Você é muito nova pra cuidar disso.

— Mas eu moro aqui. — respondi, sem entender. — Meus pais…

— Seus pais não deixaram nada escrito. — cortou o outro. — Você sabe como eles eram. Tudo na confiança. Agora precisa ser tudo legalizado.

Eu não sabia naquela época, mas “legalizado”, na boca de gente gananciosa, é só outro jeito de dizer “vamos tirar o que é seu, mas com assinatura”.

Falaram em documento, inventário, dívidas que eu nunca tinha ouvido falar. Quando percebi, estavam me pedindo para assinar “uma autorização” pra resolver tudo mais rápido.

Eu não assinei, era menor de idade. Isso não impediu que eles conseguissem o que queriam.

Descobri depois, pelos vizinhos, que deram um jeito de provar que eu não tinha condições de manter a casa, que existiam contas atrasadas, que seria melhor vender “para pagar tudo”.

Senti que, além dos meus pais e irmãos, estavam enterrando também o lugar onde eu podia encontrar o cheiro deles nas paredes.

No dia em que chegaram com a notícia final, estava só na sala, abraçada à almofada favorita da minha mãe.

— Você precisa sair até o fim do mês. — disseram. — Já temos comprador.

Falei que não tinha pra onde ir. Eles deram de ombros.

— A gente até ajudaria, mas cada um tem seus problemas. — um deles disse, sem vergonha nenhuma.

Foi quando a vizinha do lado, dona Ivone, apareceu na porta. Ela morava sozinha, numa casa ainda menor que a nossa, cheia de planta em garrafa cortada e santos em cima da geladeira.

— A menina não vai pra rua. — ela falou, sem pedir licença. — Enquanto eu estiver viva, tem um colchão pra ela lá em casa.

Meus tios não gostaram. Mas, como já tinham conseguido a casa, não se importaram o suficiente pra brigar por mim.

Levei minhas roupas numa mala emprestada, umas fotos dos meus pais e dos gêmeos, e um caderno onde minha mãe anotava receita. O resto ficou.

Na casa da dona Ivone, aprendi a viver com pouco ainda mais pouco.

O quarto era dividido com um armário cheio de roupa que não era minha, a cama era um colchão velho estendido no chão. Mas tinha café quentinho de manhã, alguém pra perguntar se eu tinha comido, e um “boa noite” no fim do dia.

Ela não tinha muito, mas me deu o que eu mais precisava, um lugar que não me jogasse fora.

— Você é nova. — ela dizia. — Não deixa esse povo matar o resto de vida que te sobra.

Para não ser peso, comecei a procurar qualquer coisa que desse dinheiro. Limpava casa, passava roupa, fazia lanche pra vender na porta da escola, ajudava uma senhora a tomar banho e se vestir. Tudo em troca de notas que eu dobrava e escondia numa caixinha de metal embaixo do colchão.

Cada moeda que caía lá dentro era um passo a menos dependendo dos outros. Passei meses, anos assim. Acordava cedo, ajudava dona Ivone, corria pros bicos, voltava tarde. Tinha dias em que o corpo reclamava de cansaço, mas eu repetia pra mim mesma:

— “É isso ou deixar que decidam tudo por você de novo.”

Um tempo depois, consegui juntar o suficiente pra dar entrada num quarto numa pensão barata. Era num prédio antigo, pintura descascando, cheiro de fritura no corredor. Meu quarto tinha uma cama de solteiro, um cabideiro improvisado, uma janela pequena que mal abria e uma tomada que vivia falhando.

Para muita gente, era um buraco. Pra mim, era liberdade.

— Você tem certeza que quer sair daqui? — dona Ivone perguntou, apertando meu braço. — Aqui você tem gente. Você é nova, precisa de alguém ao seu lado.

— Lá eu vou ter o que eu pagar. — respondi. — A senhora já fez demais durante esses anos. Preciso tentar andar com as minhas pernas.

Não deixei de ir vê-la. A pensão virou meu “endereço oficial”, mas o carinho continuou na casa dela.

Nos dias de folga, eu ia pra lá comer comida de verdade, ouvir história antiga da rua, chorar em silêncio quando dormia no sofá.

Foi numa dessas buscas por trabalho melhor que ouvi falar da família Zaskc. Uma mulher que eu conhecia da igreja comentou:

— Estão procurando alguém pra ajudar com a casa de uma família importante. Coisa chique, mansão, mas parece que pagam bem. Só que tem que ter muita discrição.

“Discrição” parecia fácil pra alguém que tinha aprendido a viver como sombra.

Fui na entrevista com minha melhor blusa, a única que não tinha mancha de cloro, e um sapato que machucava o calcanhar, emprestado da filha da dona Ivone. O portão da mansão parecia alto demais, a casa grande demais, tudo brilhando.

Lá dentro, a rotina era outra. Quartos que eu nunca pisaria, salas que só veria por fora, regras para tudo, como falar, como se vestir, por onde circular. Mas o salário era alto, e tinha uma cama só minha, num quarto pequeno e estreito.

Assinei o contrato. A pensão passou a ser o lugar onde eu dormia nas folgas, quando podia respirar um pouco sem câmera.

Quando conheci Samuel de verdade, já estava instalada ali. Ele era “o presidente” da joalheria da família.

Eu o via de longe, em fotos, nos jornais, em alguma revista esquecida na cozinha dos funcionários.

Pessoalmente, parecia ainda mais distante, terno impecável, olhar calculado, alguém acostumado a ter o mundo dobrando na frente dele.

Eu nunca me imaginei perto dele. Nem como funcionária, nem como nada. Meu trabalho era limpar, organizar, obedecer. E, por um tempo, foi só isso.

As coisas começaram a mudar sem eu perceber. Uma vez, desci mais tarde na cozinha pra pegar um copo de água e encontrei ele lá, de camisa dobrada, sem gravata, mexendo no celular encostado no balcão.

— Boa noite, senhor. — falei, automática, pegando o copo.

— Boa noite, Anny. — ele respondeu.

Aquilo me assustou mais do que se tivesse gritado.

Ele sabia meu nome.

— O senhor precisa de mais alguma coisa? — perguntei, tentando manter a postura.

— No momento, só de silêncio. — ele disse, com um meio sorriso cansado.

Quase comentei que silêncio era a coisa que eu mais sabia oferecer. Mas calei. Depois, vieram outras cenas.

Eu arrumando uma sala, ele entrando pra falar no telefone, passando perto demais. Eu servindo café, ele segurando minha mão um segundo a mais quando pegava a xícara.

— Obrigado, Anny. — dizia.

Coisa pequena, mas que, pra mim, já parecia demais. Eu me repetia:

— “Ele não é pra você. Ele é o dono da casa. Você é a mulher que perdeu tudo e agora limpa o chão onde ele pisa.”

Só que o coração não sabe de hierarquia.

Teve um dia em que tudo escapou um pouco mais do controle. Eu estava na biblioteca, recolhendo livros que a família tinha largado pela metade. A casa estava quieta, quase todo mundo já tinha ido dormir.

Samuel entrou sem eu perceber. Quando me virei, dei de cara com ele encostado na estante, afrouxando a gravata.

— Não sabia que tinha gente aqui. — ele disse.

— Eu já estou indo. — respondi, apressada, abraçando os livros.

— Não precisa. — ele falou. — Fica. A biblioteca é grande o suficiente.

Começou a andar entre as estantes, passando o dedo pelas lombadas, como quem procura alguma coisa que não sabe o quê.

— Você gosta de ler? — perguntou.

— Gosto. — respondi. — Mas faz tempo que não tenho tempo.

— Pega um. — ele sugeriu. — Qualquer um.

Olhei para as prateleiras cheias de capa dura, títulos estrangeiros, autores que eu nunca tinha ouvido falar. Apertei os lábios.

— Acho que esses livros não são pra mim. — sussurrei.

Ele se aproximou um pouco.

— Por quê?

— Porque eu sou de outro tipo de história. — soltei, meio sem pensar. — Dessas que não viram livro, no máximo fofoca de família.

Ele riu, de verdade.

— É exatamente esse tipo de história que devia virar livro. — disse.

Meu peito apertou. Não sei se foi naquele dia que ele se apaixonou. Sei que, dali em diante, começou a olhar pra mim de um jeito diferente. E eu comecei a fugir.

Fugir de alguém que mora na mesma casa que você é difícil.

Eu trocava turno, pedia pra ficar em outra área, inventava serviço onde não tinha. Mesmo assim, às vezes acabava sozinha com ele.

Um dia, isso aconteceu na varanda lateral.

Eu tinha saído pra pegar ar, depois de uma bronca da governanta por causa de um copo fora do lugar.

Estava encostada no corrimão, olhando o jardim, tentando lembrar do cheiro das flores que minha mãe plantava no quintal.

Samuel apareceu.

— Fugindo de quem? — ele perguntou.

— De ninguém. — menti.

Ele chegou perto, mas não encostou.

— Você anda me evitando. — observou.

— Eu só tenho muito trabalho. — respondi.

— Eu também. — ele disse. — Mesmo assim, dou um jeito de te encontrar.

Aquilo me fez tremer.

— Senhor… — comecei.

— Samuel. — ele corrigiu.

— O senhor… você precisa tomar cuidado com o que fala. — sussurrei. — Essa casa tem mais ouvido do que parede.

— Eu sei. — ele falou. — Mas, pela primeira vez, não me importo tanto com o que estão ouvindo.

Virei o rosto pra responder, e foi aí que aconteceu.

Ele chegou mais perto do que devia. O cheiro do perfume dele misturou com o vento. Meu coração disparou.

Samuel tocou minha mão, devagar, como se me desse tempo pra puxar. Eu não puxei. Quando percebi, o rosto dele estava a centímetros do meu.

— Você não devia… — tentei.

Ele me beijou.

Foi rápido, assustado, quase um teste.

Meu primeiro impulso foi empurrá-lo.

— Não faz isso. — falei, ofegante.

— Desculpa. — ele disse, mas não parecia arrependido. — Eu precisava saber se…

— Se uma empregada ia aceitar ser seu passatempo? — cortei, com mais dureza do que sentia.

Ele franziu a testa.

— Não é isso.

— Claro que é. — respondi. — Você é rico, bonito, poderoso. Eu sou pobre, mal sei andar de salto, não sei posar pra foto, não sei nem como me portar num lugar desses. — a voz falhou. — Eu não sou pra você.

Falei isso mais pra mim do que pra ele. Era um mantra que eu repetia desde que percebi que meu coração batia diferente quando ele entrava numa sala.

Ele me olhou como se quisesse discutir, provar o contrário. Mas, naquele momento, apenas recuou.

— Tudo bem. — disse. — Eu respeito.

Respeitou por uns dias.

Depois, os avanços voltaram. Um toque na cintura quando passava atrás de mim na cozinha, um olhar demorado demais quando eu servia café, outro beijo roubado num corredor vazio.

— Você complica tudo. — eu reclamava.

— Você que insiste em fingir que não sente nada. — ele devolvia.

Era mentira.

Eu sentia.

Sentia o corpo inteiro reagir, sentia a cabeça dizer “corre” e o coração pedir “fica só mais um pouco”.

Mas a imagem dos meus tios me tirando a casa, a sensação de perder tudo de novo, me segurava.

Na minha cabeça, me envolver com Samuel era mais uma forma de arriscar o pouco que eu tinha construído. Eu achava que, se deixasse, ele ia me usar até enjoar… e depois eu ia estar onde?

Sem família, sem casa, sem emprego e, dessa vez, sem me perdoar. Então fiz o que sempre aprendi a fazer quando o mundo ameaçava demais: me encolhi.

Só que o mundo não se encolheu comigo.

E a verdade é que não importa o quanto eu repetisse que ele “não era pra mim”, o destino parece ter dado risada e respondido:

— “Espera só pra ver o tamanho da confusão que eu ainda vou arrumar entre vocês dois.”

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