Mundo de ficçãoIniciar sessãoAnny
As batidas na porta vieram fortes, descompassadas, como se quem estivesse do outro lado não soubesse mais controlar a própria força. Eu acordei sobressaltada, o coração já na garganta antes mesmo de abrir os olhos. O relógio de cabeceira marcava 1:47. Peguei o robe fino que ficava pendurado na cadeira e corri para a porta, descalça, o chão frio me arrepiando as pernas. Quando abri, ele estava ali. Samuel. Suado, o cabelo grudado na testa, a camisa branca semiaberta, o peito subindo e descendo rápido demais. Seus olhos… Deus, os olhos dele estavam diferentes. Escuros, dilatados, quase irreconhecíveis. Ele cambaleou para dentro sem esperar convite, quase tropeçando no tapete. Fechei a porta rápido, com o coração batendo na boca. — Senhor… o que aconteceu com você? Ele não respondeu de imediato. Só me olhou. Um olhar tão intenso que senti calor subir pelo pescoço. — Você… — a voz saiu rouca, entrecortada — só você… me acalma. Ele deu um passo na minha direção. Instintivamente recuei. O cheiro dele chegou até mim: suor, perfume caro e algo mais doce, estranho, químico quase. Quando tentou me alcançar, quando as mãos grandes dele tocaram minha cintura, eu empurrei com força. — Não. Ele parou, confuso, como se não entendesse a palavra. — Não, Samuel. Não. Tentei de novo, mais firme, mas minha voz tremia. Ele balançou a cabeça, como quem tenta afastar névoa. — Anny… por favor… — Não! O senhor é casado. Empurrei outra vez, com mais força. Ele recuou dois passos, bateu com as costas na parede e deslizou um pouco, os joelhos fraquejando. Foi aí que eu vi de verdade, ele não estava bêbado. Estava… perdido. Desorientado. Os olhos vidrados, a respiração irregular, as mãos tremendo. — O que fizeram com você? — perguntei, horrorizada. Ele fechou os olhos com força, passou as mãos no rosto. — O vinho… o jantar… Sarah… ela… — as palavras saíam desconexas — ela sorriu… disse que era… especial… Meu estômago virou. Alguém o drogou. Alguém. E eu sabia quem. O silêncio entre nós ficou pesado, sufocante. Ele deslizou mais para baixo na parede até ficar sentado no chão, as costas apoiadas, a cabeça tombada para trás. Parecia um homem lutando contra algo muito maior do que ele. Eu fiquei parada, olhando para ele, o peito apertado de tantas coisas ao mesmo tempo: raiva, medo, pena… e outra coisa que eu não queria nomear. Porque, no fundo, eu sempre soube. Sempre soube que, se um dia ele me olhasse daquele jeito, realmente me olhasse, eu não ia conseguir dizer não. E agora ele estava aqui. Quebrado. Vulnerável. E me querendo. — Se eu sair por essa porta agora… — ele falou baixo, quase para si mesmo — eu não sei o que acontece comigo. Não sei onde eu vou parar. As palavras dele caíram como pedras no meu peito. Eu imaginei. Imaginei ele tropeçando pelos corredores, entrando no quarto errado, caindo nos braços de quem o colocou nessa condição. A imagem me deu náusea. Não. Não ia acontecer. Não enquanto eu pudesse impedir. Respirei fundo, uma, duas vezes. Fechei os olhos por um segundo. Depois abri. — Olha pra mim, Samuel. Ele ergueu o rosto devagar. Os olhos encontraram os meus e, por um instante, pareceu que a névoa se dissipou só um pouquinho. — Já estou olhando. — ele sussurrou, a voz rouca de uma sinceridade que não tinha filtro. — Sempre estive. Meu coração deu um salto doloroso. Aproximei-me devagar, como quem se aproxima de um animal ferido. Estendi a mão. — Vem. Levanta. Ele segurou minha mão. A palma dele estava quente, úmida. Quando se levantou, precisou se apoiar em mim. O corpo dele tremia inteiro. Levei ele até a cama. Ele sentou na beirada, as mãos nos joelhos, tentando se controlar. Eu fiquei em pé na frente dele, o robe entreaberto, o coração martelando tão alto que eu tinha certeza que ele escutava. — Anny… — ele sussurrou — me perdoa… eu não queria… vir aqui assim… — Shhh. — Coloquei um dedo nos lábios dele. — Não fala. Ele obedeceu. E então eu fiz a coisa que vinha evitando há anos. Deixei o robe deslizar pelos ombros e cair no chão. O ar ficou mais denso. Ele prendeu a respiração. Eu subi na cama devagar, de joelhos, e me aproximei até nossos rostos ficarem a poucos centímetros. Senti o calor que saía dele, o tremor que ainda percorria o corpo inteiro. — Se for pra acontecer… — minha voz saiu baixa, quase quebrada — que seja comigo. Os olhos dele se encheram d’água. — Anny… — Quieto. Beijei ele. Foi lento no começo. Quase tímido. Mas quando os lábios dele finalmente cederam, quando ele correspondeu, foi como se todo o restante do mundo desaparecesse. As mãos dele subiram pelas minhas costas, hesitantes, pedindo permissão a cada centímetro. Eu respondi puxando-o mais para perto, deixando que sentisse meu coração disparado contra o peito dele. Não houve pressa. Não podia haver. Era a primeira vez. Minha primeira vez. E eu sabia que seria a única. Cada toque dele parecia uma pergunta. Cada resposta minha, uma permissão. Quando ele me deitou com cuidado nos lençóis, quando os corpos finalmente se encontraram sem barreiras, eu senti tudo ao mesmo tempo: medo, desejo, culpa, amor, vergonha, ternura. Doía. Doía um pouco, sim. Mas o que mais doía era saber que aquilo era adeus disfarçado de entrega. Ele se movia devagar, atento a cada suspiro meu, a cada estremecimento. Murmurava meu nome como se fosse uma oração. Eu mordia o lábio para não chorar, mas as lágrimas escapavam mesmo assim. — Você é… — ele sussurrou contra meu pescoço, a voz embargada — você é tudo. Eu não respondi. Só o abracei mais forte, as unhas cravadas nas costas dele, querendo guardar cada sensação, cada respiração, cada tremor. Quando tudo terminou, quando os corpos se aquietaram e o silêncio voltou, nós ficamos ali. Exaustos. Suados. Entrelaçados. Ele adormeceu primeiro. A respiração foi ficando lenta, profunda. O rosto relaxado de um jeito que eu nunca tinha visto. Eu fiquei acordada. Olhando para ele. A barba por fazer, as linhas suaves ao redor dos olhos, a boca entreaberta. Passei os dedos de leve pelo rosto dele, como se pudesse memorizar cada traço. Uma lágrima escorreu pelo meu canto do olho e caiu no travesseiro. — Última vez. — sussurrei, tão baixo que quase não saiu som. — Última vez que você encosta em mim. Fechei os olhos. Amanhã eu iria embora. Amanhã eu desapareceria da vida dele. E levaria comigo a única noite em que fomos inteiros.






