Capítulo 8

Samuel

A mansão pode mudar os móveis, as flores, as cortinas. O que não muda é a forma como as portas se fecham atrás de alguém.

Caminhei ao lado de Anny e do segurança pelo corredor do andar de hóspedes, aquele que minha mãe sempre usou para receber políticos importantes e parentes distantes demais para dividir o mesmo teto. Agora, uma das suítes tinha sido preparada às pressas para “proteger” a possível mãe do meu filho.

Porta dupla, madeira trabalhada, cheiro de lençol novo. Cela de luxo.

O segurança abriu a porta e deu um passo para o lado, esperando instruções. Anny entrou primeiro, com a mochila apertada contra o corpo. Olhou em volta devagar, cama enorme, varanda com vista para o jardim, banheiro de mármore. O tipo de quarto com o qual tanta gente sonharia.

Ela não sorriu.

— Pode deixar a chave comigo. — falei para o segurança.

Ele hesitou.

— Senhor, sua mãe pediu que…

— Eu sei o que ela pediu. — cortei. — Eu pedi outra coisa. Vai.

Ele assentiu, entregou a chave e se retirou, fechando a porta atrás de si. Ficamos só nós dois e um silêncio que pesava mais do que qualquer lustre da casa.

Anny largou a mochila sobre a poltrona, sem delicadeza. Andou até a janela, afastou um pouco a cortina, como quem testa a resistência da prisão.

— Gostou do quarto? — perguntei, sabendo que era uma pergunta idiota.

Ela riu, um som curto, sem humor.

— Depende. Estou hospedada ou em observação?

Cheguei mais perto, mas mantive distância suficiente para não parecer ameaça.

— Eu não quero que você vá embora. — disse, devagar. — Preciso de você aqui perto. Não para controlar, mas para proteger.

Ela se virou na hora, os olhos brilhando de raiva.

— Proteção que começou com você me usando drogado. — retrucou. — Que lindo.

Senti o golpe como se fosse físico.

— Eu não acordei naquele dia pensando “vou até o quarto da Anny”. — respondi. — Você sabe. Eu podia ter ido para qualquer lugar. Podia ter caído na cama de qualquer uma.

— Mas não caiu. — ela devolveu. — Caiu na minha. O que não muda o fato de que você chegou lá intoxicado.

Passei a mão no rosto, tentando encontrar palavras que não soassem como desculpa fraca.

— Eu desejo você há muito tempo. — admiti, enfim. — Desde antes de entender direito por quê. Desde o dia em que vi você rindo com as outras empregadas na cozinha e percebi que já fazia meses que eu não ria daquele jeito com ninguém.

Ela arregalou os olhos, surpresa, mas não falou.

— Eu sempre roubei beijos de você, Anny. — continuei. — Nunca fingi que era certo. Eu sabia que não era. Você é minha funcionária, eu sou casado, a diferença de mundo entre a gente é obscena. Eu sabia de cada erro. Por isso mesmo nunca… fui além.

Olhei para ela, sentindo a garganta apertar.

— Mas ontem…

— Ontem você não estava só errado. — ela interrompeu, firme. — Você estava intoxicado. E eu estava apaixonada o suficiente para achar que podia cuidar de você.

A palavra “apaixonada” ficou ecoando no quarto. Ela mesma pareceu se assustar com o que tinha dito, mas não voltou atrás. Continuou:

— Eu não fiz o que fiz porque você é presidente, ou porque tem dinheiro. Fiz porque, por mais idiota que pareça, eu queria você. Queria que, pelo menos uma vez, o que eu sentia não ficasse só nos corredores escuros.

Aquilo doeu mais que qualquer acusação.

— Eu não mereço isso. — sussurrei. — Nem o que você sente, nem a confiança de achar que podia cuidar de mim.

Ela desviou o olhar.

— Também não mereço virar barriga de negociação. — respondeu. — Então, por favor, quando falar em me “proteger”, tenta lembrar de tudo isso.

Assenti, sem conseguir argumentar. Em vez de tentar resolver ali, falei do que era inevitável.

— O exame de sangue está marcado para daqui a quinze dias. — informei. — Um médico de fora. Confio nele.

— Que bom que você confia em alguém. — ela disse. — Porque eu não confio em ninguém aqui.

Não discuti. Ela tinha todo direito.

Fiquei mais alguns segundos parado, procurando algo útil para dizer, mas qualquer frase soava pequena diante do que estava acontecendo. No fim, só consegui:

— Se precisar de qualquer coisa, fala com a governanta ou comigo. Vou tentar… facilitar o que der.

Ela assentiu, sem agradecer, o que era justo.

Saí do quarto com a sensação de ter deixado metade de mim do lado de dentro. Tranquei por fora, ordem da minha mãe, mas guardei a chave comigo. Era um gesto pequeno de controle sobre uma situação que eu já tinha deixado escapar.

O resto do dia foi um desfile de reuniões, telefonemas e e-mails sobre “gestão de crise”. Nenhum deles usava as palavras verdadeiras.

“Boatos”, “possível escândalo”, “minimizar danos”. Ninguém dizia “uma mulher pode estar grávida de você e vocês drogaram o próprio presidente da empresa”.

Durante uma reunião sobre fusão com a joalheria da família de Sarah, perdi o fio de uma apresentação inteira porque lembrei do jeito como Anny segurava a alça da mochila. Enquanto um diretor mostrava gráficos de crescimento, me peguei pensando em enjoos matinais, em remédios, em exames.

Quando a reunião acabou, encontrei Sarah me esperando no corredor privado, braços cruzados, maquiagem impecável.

— Precisamos conversar. — ela disse, sem rodeios.

Entramos numa sala menor, onde costumávamos receber jornalistas selecionados. Ironia.

— Se essa garota estiver grávida — ela começou, indo direto ao ponto — vamos resolver. Dinheiro compra silêncio.

A frase me deu náusea.

— Anny não é vendável. — respondi, seco.

Sarah arqueou a sobrancelha.

— Todos são, Samuel. Só muda o preço. Você devia saber disso melhor do que ninguém.

— Ela não. — repeti. — E, ainda que fosse, não é assim que eu quero lidar com isso.

Ela se aproximou, os olhos faiscando.

— E como pretende lidar? Vai assumir o romance com a empregada? Divorciar de mim, colocar ela na capa de revista, explicar para o país que o presidente quebrou o próprio contrato de casamento?

— Não sei ainda. — admiti. — O que eu sei é que não vou transformar a vida dela em cheque.

Ela riu, sarcástica.

— Ah, por favor. Você sempre foi muito bom em fingir que é melhor do que o resto de nós. Mas, no fim, fez exatamente o que qualquer homem do nosso círculo faria… usou uma garota de serviço para aliviar o que não resolve em casa.

Aquilo acertou. Não porque fosse verdade do jeito que ela pintava, mas porque tinha pedaços de verdade misturados na maldade.

— Você me drogou, Sarah. — lembrei, tentando manter a calma. — Não esquece desse detalhe.

— Faria de novo. — ela devolveu. — Pelo menos assim você olhou na minha direção.

Engoli o nojo.

— Não é sobre você agora. — disse. — É sobre o que vamos fazer com… tudo isso.

O olhar dela ficou mais frio.

— Se você não topar resolver com dinheiro, eu resolvo com barulho. — ameaçou. — Posso pedir separação pública, posso contar história pela metade, posso te pintar como monstro. E sabe o que é pior? As pessoas vão acreditar. Sempre acreditam quando a esposa rica chora na frente das câmeras.

Senti um cansaço tão profundo que, por alguns segundos, tive vontade de sentar no chão.

— Faz tempo que o nosso casamento acabou, Sarah. — falei, enfim. — A diferença é que agora você não controla mais as cartas sozinha.

Ela estreitou os olhos.

— Veremos.

Saiu da sala sem olhar para trás.

À noite, os corredores da mansão ficaram mais quietos do que de costume. Passei o jantar empurrando comida no prato, enquanto minha mãe falava de agenda e meu pai fingia que nada estava acontecendo.

Depois, subi. Não para o meu quarto. Parei diante da porta que agora era o limite entre Anny e o resto da casa. A chave pesava no bolso.

Levantei a mão para bater, mas ouvi passos atrás de mim.

— Samuel.

Virei. Minha mãe vinha pelo corredor, o robe de seda arrastando um pouco no chão.

— Não. — ela disse, antes que eu abrisse a boca.

— Não o quê?

— Você prometeu que não vai tocá-la até sabermos o que fazer. — lembrou. — E eu vou cobrar essa promessa.

Cruzei os braços.

— Eu ia só conversar.

— Conversas também engravidam, ultimamente. — Sarah ironizou ao aparecer atrás da minha mãe, mas o olhar estava sério. — Se essa empregada estiver grávida, terei que fingir estar também, para poder explicar o herdeiro ao mundo. Fantástico, não acha? Seu pai finalmente terá o neto que tanto quer, eu vou ganhar mais alguns anos de aparência de esposa perfeita, e você conseguiu tudo isso sem precisar estragar meu corpo.

As palavras bateram como tapa.

— Você está ouvindo a si mesma? — perguntei, incrédulo.

Ela suspirou.

— Estou ouvindo o peso de um sobrenome. — respondeu. — Você nasceu com ele, mas parece que ainda não entendeu o preço.

— O preço não pode ser a dignidade de todo mundo ao redor. — retruquei.

Ela deu de ombros.

— Já chega vocês dois. — minha mãe olha para mim. — Bem-vindo ao mundo real, filho. Agora, vá dormir. Amanhã temos que lidar com advogados.

Fiquei parado no corredor por alguns segundos depois que ela se afastou e Sarah foi junto. A porta do quarto de Anny a poucos centímetros, a voz da minha mãe ecoando, a chantagem velada de Sarah ainda martelando na cabeça.

Tirei a mão da maçaneta.

— Maldita. Desgraçada. — o xingamento escapou, baixo, não sei se para minha mãe, para Sarah, para mim mesmo ou para todo o sistema que nos trouxe até ali.

Afastei-me da porta, com raiva demais para pensar direito. Desci as escadas devagar, sentindo cada degrau como uma escolha.

Uma coisa, pelo menos, estava clara.

Eu podia ter sido covarde até ali, empurrando decisões para contratos, para a família, para a imagem pública. Mas agora havia uma mulher presa num quarto, talvez carregando um filho meu, cercada por gente que via nela apenas risco e oportunidade.

E eu jurei, ali, sozinho no meio do corredor vazio, que não ia deixar Anny passar por isso sozinha. Nem que, para isso, eu tivesse que ir contra os Zaskc.

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