Capítulo 5

Samuel

Acordei com a luz fraca entrando pela fresta da cortina e um silêncio diferente da casa. Por alguns segundos, não soube onde estava. O teto era simples demais para ser o do meu quarto, o cheiro era outro. Lençol comum, não de algodão egípcio. Um perfume leve de sabonete barato, misturado com o meu.

Então vi o travesseiro ao lado. Vazio. E tudo voltou de uma vez.

A porta batendo. O corredor. O quarto pequeno. Anny. A forma como ela dizia meu nome como se estivesse com medo de quebrar alguma coisa dentro dela e dentro de mim.

Levei a mão à testa. Uma dor surda latejava bem no fundo. O corpo ainda estava quente, como se o afrodisíaco não tivesse ido embora de todo, mas a cabeça… a cabeça agora funcionava. Lenta, pesada, mas funcionava.

Sentei na cama, respirando fundo. O lençol amassado ainda guardava o desenho do corpo dela, como uma marca quase invisível. Passei a mão devagar pelo tecido, tentando organizar as lembranças em ordem.

Eu tinha ido até ali. Bati na porta. Lembro do rosto assustado dela quando abriu. Lembro de ter caído quase dentro do quarto. Lembro do medo em seus olhos quando tentei tocá-la. Lembro nítido dela dizendo “não”, mais de uma vez.

Depois, só flashes.

A mão dela segurando a minha, me guiando até a cama. A voz sussurrando para eu respirar, para eu me acalmar. O toque leve dela na minha testa, como se medisse febre. Em algum momento, o calor do corpo dela muito perto. O gosto da boca dela. O som do meu nome nos lábios dela como se fosse algum tipo de reza.

E então nada. Um buraco escuro até o momento em que acordei.

Olhei ao redor. O quarto estava absurdamente arrumado. Não havia roupas jogadas, nem copos, nada fora do lugar. Se alguém entrasse ali agora, diria que ninguém dormiu na cama. Só eu sabia que o travesseiro ao meu lado ainda cheirava ao cabelo dela.

— Anny? — chamei, a voz ainda rouca.

Levantei devagar. Minha camisa estava jogada sobre a cadeira, vesti, sentindo um arrepio percorrer a espinha. Abri a porta com cuidado. O corredor do anexo estava vazio, uma lâmpada fraca acesa lá no final. Bati na porta da frente do quarto, como se ela ainda pudesse estar no banheiro.

Nada.

Voltei para dentro, procurando algum sinal. Um bilhete. Uma peça de roupa. Qualquer coisa. Na mesa de cabeceira, só havia a velha bíblia dela e um copo de água pela metade. Nenhuma carta. Nenhuma explicação.

Algo em mim se revoltou.

Saí do quarto quase em disparada. Abri as outras portas do anexo, uma por uma. Quartos de outros funcionários, alguns ainda dormindo. Ninguém tinha visto nada. Subi as escadas, entrei pela porta de serviço da mansão. A cozinha fervilhava com o movimento do café da manhã. Panelas, cheiro de pão, vozes baixas.

— Onde está Anny? — perguntei, direto, encarando a governanta.

Ela quase deixou cair a travessa das mãos.

— Bom dia, senhor. Eu… não sei. Quando cheguei agora pouco, o quarto dela já estava vazio. A cama feita, as roupas… não tinha nada lá.

A resposta me atingiu com mais força do que eu esperava.

— Como assim, vazio?

— Ela deve ter ido embora de madrugada. — respondeu, sem coragem de me encarar.

Senti uma mistura de raiva e medo subir ao mesmo tempo. Raiva dela por ter simplesmente sumido. Medo do motivo que a fez ir embora.

— “Você nunca vai saber o que fez comigo.”

A frase surgiu do nada na minha cabeça, como se tivesse sido dita bem ao meu lado. Eu não lembrava de tê-la ouvido, mas podia imaginar a voz, o tom. E, pela primeira vez em muito tempo, me perguntei não o que alguém podia fazer comigo, mas o que eu fiz com alguém.

Virei as costas antes que alguém ousasse fazer mais comentários. Atravessei o corredor principal até a sala de café da manhã. A família já estava reunida. Minha mãe na ponta da mesa, postura impecável. Meu pai, com o jornal aberto, fingindo ler. Sarah, vestida de branco, tomando café como se fosse um domingo comum.

Eles pararam quando me viram entrar.

— Você acordou tarde hoje. — minha mãe comentou, tentando soar neutra. — Sente-se, o café ainda está quente.

Ignorei a cadeira. Fiquei de pé, do outro lado da mesa.

— Onde está Anny?

O silêncio que se seguiu foi quase físico. Meu pai dobrou o jornal devagar. Sarah levou a xícara à boca, disfarçando um tremor nas mãos. Minha mãe inclinou a cabeça.

— Samuel, empregadas vêm e vão. — ela disse, fria. — Você sempre soube disso. A moça deve ter encontrado algo melhor, algum emprego menos exigente. Não vamos dramatizar…

Soltei uma risada seca. O som saiu estranho até para mim.

— Anny não foi embora porque quis. — respondi. — Ela saiu fugida. Isso é bem diferente.

O olhar de Sarah cruzou o meu por um segundo. Tinha medo ali. E culpa. E o tipo de cálculo que ela faz quando uma manchete ruim ameaça o sobrenome.

— Você está exagerando. — ela começou. — Anny sempre foi… emotiva. Talvez tenha achado melhor sair sem…

— Você me drogou ontem à noite, Sarah. — interrompi, sem tirar os olhos dela. — O que colocou no meu vinho?

Dessa vez, o silêncio não foi apenas pesado. Foi explosivo. A xícara dela tremeu tanto que um pouco de café caiu no pires. Minha mãe endireitou a postura, o olhar afiado como faca. Meu pai pigarreou, claramente desconfortável.

— Samuel, que tipo de acusação é essa? — ele tentou, em tom diplomático. — Não é assunto para…

— Eu quero uma resposta. — repeti, ainda olhando para Sarah.

Ela abriu a boca, fechou. Por um segundo, achei que fosse negar com veemência, fazer a cena perfeita de esposa ultrajada. Mas o que veio foi diferente.

— Você está dizendo que… que não lembra da noite de ontem? — ela perguntou, a voz um pouco alta demais. — Que está… confuso?

— Eu lembro o suficiente. — respondi. — Lembro de um jantar em que tudo parecia ensaiado demais. Lembro do gosto estranho do vinho. Lembro de você tentando me arrastar para o quarto mesmo vendo que tinha alguma coisa errada. Lembro de fugir dali para não fazer algo que eu não queria com você.

O rosto dela empalideceu.

— Isso é um absurdo. — minha mãe interveio, tensa. — Samuel, você teve um dia difícil, está cansado. Não vamos transformar um mal-estar em escândalo doméstico. Pense na imprensa, pense…

— Eu estou pensando em quem colocou alguma coisa no meu corpo sem minha autorização. — falei, mais duro. — E em quem teve que lidar comigo desse jeito.

Minha mãe me encarou, tentando medir o dano. Ela sempre foi boa em prever estragos. Dessa vez, parecia não ter um roteiro pronto.

— Não sei do que está falando. — Sarah respondeu, finalmente encontrando a negação. — Se alguém fez algo, certamente não fui eu.

Mas o olhar dela tremia, e isso dizia mais que as palavras. Eu poderia ter ido até ela, exigido confissão, ameaçado com advogados. Em vez disso, senti outra urgência crescer dentro de mim.

Encontrei os olhos de um dos seguranças que estavam discretamente próximos à porta. Um homem grande, acostumado a cumprir ordens sem perguntar muito.

— Quero que encontrem Anny. — falei, alto o suficiente para que todos ouvissem. — Agora.

Ele arregalou os olhos, surpreso.

— Senhor?

— Anny. — repeti. — Ela saiu da mansão de madrugada, provavelmente pelos fundos, com pouca coisa. Deve ter ido para alguma das linhas de ônibus aqui perto. Procurem em todas as estações, rodoviárias, pensões baratas. Falem com quem for preciso.

Minha mãe se levantou.

— Samuel, isso é ridículo. Uma empregada decide ir embora e você mobiliza segurança? Vai acabar saindo na imprensa, vão dizer que você está… obcecado.

— Talvez eu esteja. — respondi, sem desviar o olhar. — E vão dizer pior se descobrirem que uma funcionária saiu correndo no meio da noite depois de eu aparecer no quarto dela completamente alterado por algo que eu não escolhi tomar.

O silêncio se fechou de novo. Meu pai fez menção de falar, mas desistiu. Sarah apertou o guardanapo entre os dedos até amassá-lo.

— Encontrem Anny. — repeti para o segurança, em tom que não deixava espaço para dúvidas. — Tragam-na aqui. Inteira e ilesa.

Ele assentiu, engolindo em seco.

— Sim, senhor.

Virei de costas antes que alguém tentasse negociar. Saí da sala com o coração batendo rápido demais. No corredor, o perfume da casa pareceu mais forte, quase sufocante. Levei a mão ao peito, onde a camisa ainda guardava um restinho do cheiro dela.

Anny.

Se as lembranças que eu tinha daquela noite fossem reais, os lábios dela, o corpo colado ao meu, o modo como ela dizia meu nome, então eu não tinha destruído só a vida de uma funcionária. Eu podia ter mudado tudo.

Podia já ter colocado um herdeiro nela.

A ideia caiu sobre mim como um veredito silencioso. Um herdeiro fora de contrato. Fora de capa de revista. Fora do controle de qualquer um, inclusive meu.

Olhei pela janela do corredor no exato momento em que os carros pretos cruzavam o portão da mansão, ganhando a rua como se fossem caçadores atrás de uma presa.

Mas eu não queria que encontrassem uma presa.

Queria que encontrassem a única pessoa daquela casa que tinha me visto vulnerável e, mesmo assim, decidiu ficar.

Agora, o problema era simples e impossível ao mesmo tempo… eu precisava de Anny de volta. Para entender o que realmente aconteceu naquela noite.

Para pedir desculpas pelo que quer que eu tenha feito. E, talvez, para assumir que, pela primeira vez na vida, algo importante aconteceu comigo sem estar previsto em nenhum contrato.

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