Capítulo 7

Anny

Eu nunca tinha ouvido meu nome soar tão alto e tão errado.

— “Se houver um herdeiro Zaskc nesse momento… ele está no corpo da Anny.”

Quando o Samuel disse isso, parecia que tinha arrancado meu coração do peito e colocado em cima da mesa, junto com as xícaras de café caro e os olhares horrorizados. Eu estava ali, inteira, com a mochila na mão, mas falavam de mim como se eu fosse um objeto. Ou pior, um problema de negócios.

Senti as mãos tremerem. Apertei a alça da mochila até os dedos doerem, tentando me lembrar de respirar.

Eu não sabia se estava grávida, foi só uma noite. Nem ele sabia. Mas, de repente, meu corpo tinha virado pauta de reunião de acionistas.

— Então é isso. — uma voz masculina, acho que de um dos tios, cortou o silêncio. — Um possível herdeiro nascendo na ala dos funcionários.

A expressão que ele fez deixou claro o que achava da ideia. Minha vontade era sair correndo porta afora. Mas as pernas estavam pesadas demais. E, no meio daquele turbilhão, uma coisa ficou muito clara, se eu recuasse agora, se ficasse calada, eles iam passar por cima de mim como um caminhão.

Respirei fundo.

— Eu não sou incubadora de ninguém. — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mesmo com os olhos ardendo. — Se eu estiver grávida, é meu filho também.

Alguns olhos se arregalaram, como se uma empregada não devesse falar assim em voz alta. Sarah me encarou como se eu tivesse cuspido no tapete persa. A mãe do Samuel, porém, não pareceu surpresa. Só… pensativa.

Ela recostou na poltrona, analisando cada pedaço da situação, como quem mexe peças de xadrez.

— Ninguém está dizendo que não é seu filho, Anny. — ela disse, num tom calmo demais. — Mas, se essa gravidez existir, não é um bebê qualquer. Estamos falando de um Zaskc. De sucessão. De imprensa. De contratos.

— “De dinheiro.” — eu pensei, mas ela não falou essa parte. — O que a senhora quer? — perguntei, engolindo seco.

Ela ajeitou o colar no pescoço, olhando primeiro para o marido, depois para os tios de Samuel, por fim para o Samuel.

— Para começo de conversa, precisamos de certeza. — disse. — Você vai fazer um exame em quinze dias. Discreto. E até termos um resultado, é melhor que fique sob a proteção da mansão.

A palavra “proteção” veio embrulhada num sorriso profissional. Eu entendi na mesma hora.

Proteção significava controle. Significava portas trancadas, olhares vigiando, segredos empurrados para debaixo do tapete.

— E se eu simplesmente for embora? — perguntei, porque precisava dizer em voz alta que essa opção ainda existia na minha cabeça.

Sarah riu, um som curto e venenoso.

— Nós sabemos onde você mora, Anny. — ela disse, cada sílaba pingando veneno. — Sabemos onde sua família mora. Sabemos o que acontece com quem tenta extorquir os Zaskc.

Meu estômago revirou.

Eu nem tinha pensado em extorsão. Só queria a minha vida de volta. Mas ouvir aquilo me fez lembrar, de forma cruel, da diferença de mundo entre nós. Eles tinham carros, advogados, seguranças. Eu tinha uma mochila velha e um quarto alugado em um bairro simples.

Samuel deu um passo à frente.

— Ninguém aqui vai encostar um dedo nela. — ele falou, finalmente, o tom mais duro do que eu já tinha ouvido.

Sarah virou o rosto para ele.

— Você não manda em tudo, Samuel. — sussurrou. — Nem sempre.

A mãe dele levantou a mão, pedindo silêncio.

— Chega. — disse. — Não vamos transformar isso num circo. Precisamos de um plano.

Ela falava “plano” como se estivesse discutindo campanha publicitária, não a possibilidade de um bebê.

— Que plano? — perguntei, mesmo morrendo de medo da resposta.

Ela respirou fundo, como quem organiza as ideias.

— Primeiro, você fica aqui, na mansão. — começou, contando nos dedos. — Em um quarto afastado, longe dos comentários. Nada de voltar para aquela pensão. É perigoso para você e para… — hesitou um segundo — o “possível bebê”.

Eu mordi o interior da bochecha. Não era por preocupação comigo. Era pelo sobrenome que podia estar crescendo dentro de mim.

— Segundo, daqui a quinze dias, você faz o exame. Não vamos nos precipitar. Até lá, rotina normal, mas sem sair sozinha.

“Rotina normal” sendo arrumar cama, servir café e fingir que não aconteceu nada? Não sabia.

— Terceiro, se a gravidez se confirmar, você terá acompanhamento médico completo. — continuou. — Mas sem aparecer em público. Não podemos alimentar fofocas antes de decidir como lidar com isso.

Eu já não sentia os pés.

— E quarto… — ela pausou, olhando rapidamente para Sarah e para o Samuel — depois que o bebê nascer, podemos formalizar sua permanência aqui de modo… adequado.

— “Adequado”? — repeti.

— Você será contratada oficialmente como babá da criança. — concluiu, como se tivesse acabado de resolver um grande problema. — Mora aqui, recebe salário, casa, comida, assistência. Muito mais do que qualquer outra menina na sua situação teria.

As palavras demoraram um pouco para fazer sentido.

Babá.

Eu, dentro da mesma casa, criando o meu próprio filho como se fosse “do patrão”, assistindo de longe, chamando de “senhor” o homem que é pai dele.

Senti o chão sumir por um segundo.

— Então vocês querem que eu esconda uma gravidez, entregue o bebê e finja ser só a babá? — perguntei, a voz falhando de incredulidade.

Ninguém negou.

Meu peito apertou tanto que achei que fosse desmaiar.

Sarah inclinou a cabeça, como se estivesse explicando algo óbvio.

— Você terá salário, casa, comida, estrutura. — repetiu. — Vai continuar vendo a criança todos os dias. Quantas meninas engravidam de homens poderosos e acabam sozinhas? Você, no fim, está em posição de sorte.

“Sortuda.” A palavra ecoou tão absurda que quase me deu vontade de rir.

Virei o rosto para o Samuel.

Eu precisava que, pelo menos uma vez, ele falasse por mim. Que dissesse “não” àquele plano como tinha dito “não” ao casamento de mentira com Sarah. Que lembrasse que eu não era uma peça no tabuleiro da família dele.

Nossos olhos se encontraram. Havia culpa, cansaço, algo parecido com carinho. E uma indecisão que doeu.

— Samuel? — chamei, baixinho.

Ele passou a mão pelos cabelos, como fazia quando estava diante de uma pergunta difícil em entrevista.

— Eu… — começou, com a voz baixa. — Vou fazer o que for preciso para você não se machucar, Anny.

Por um segundo, eu quis acreditar. Mas as palavras, do jeito que saíram, pareciam mais promessa ao sistema do que a mim. Soaram como “vou minimizar danos”, não como “vou te escolher”.

Dentro de mim, alguma coisa rachou.

— Entendi. — respondi.

Minha mãe não estava ali para me defender. Meu pai muito menos. Eu só tinha a mim mesma. E, talvez, a vida que podia estar começando dentro de mim.

Limpei uma lágrima teimosa com o dorso da mão.

— Eu aceito fazer o exame. — disse, olhando diretamente para a mãe dele, não mais para Sarah. — Não porque vocês mandam. Mas porque eu também quero saber se estou grávida.

Ela assentiu, satisfeita.

— Ótimo. Vamos providenciar tudo.

— Mas escutem bem uma coisa. — continuei, antes que alguém me mandasse sair.

Olhei para Sarah, depois para o pai, para os tios, por fim para o Samuel. Cada palavra saiu pesada, mas limpa.

— Se eu estiver grávida, Samuel, não é só dos Zaskc. — falei. — É meu. E eu não vou ser tratada como lixo na casa do pai dele.

O silêncio que veio depois era diferente do de antes. Não era só choque. Tinha respeito engolido ali, ainda que ninguém admitisse.

A mãe dele apertou os lábios, como quem não gosta do tom, mas entende a mensagem. Sarah revirou os olhos, ofendida. Alguns tios cochicharam entre si, como se já calculassem contratos de confidencialidade.

Samuel… Samuel só me olhava como se estivesse vendo, pela primeira vez, a mulher por trás do uniforme.

Um segurança se aproximou, mais delicado dessa vez.

— Vou levá-la até o quarto novo. — avisou.

Agarrei a mochila com mais força. Antes de sair, voltei a olhar para o centro da sala, para aquele palco onde meu corpo tinha sido discutido como se fosse investimento de bolsa.

Eu entrei ali como empregada.

Saía como algo que eles não sabiam muito bem onde encaixar, possível mãe de herdeiro, futura babá, problema vivo.

Mas, dentro de mim, eu sabia exatamente o que eu era. Eu era Anny. E, grávida ou não, não ia deixar que me transformassem só em útero com uniforme.

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