Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla o desprezava. Ele a destruiu. Agora, eles são tudo o que restou. Cassandra nunca suportou a presença de Nicolas. Para ela, ele era apenas mais um cão de guarda de Donato Moretti, um homem cujos olhos refletiam uma frieza que ela fazia questão de enfrentar com desdém. O ódio entre os dois era claro, alimentado por anos de silêncio e repulsa mútua. Mas o desprezo se torna um pesadelo vivo quando Nicolas recebe a missão de arrancá-la de sua vida e trancá-la em uma torre isolada. Sob as ordens implacáveis de Donato, Nicolas se torna o instrumento de uma dor que Cassandra jamais imaginou suportar. Ele não é o herói que chega para salvá-la; ele é o traidor que a entrega ao abismo e comete o imperdoável contra ela. Ele a quebra, rouba sua dignidade e se torna o rosto de cada um de seus traumas. No entanto, quando o monstro descobre que também é uma peça descartável no jogo de Donato, a lealdade se rompe. Em uma fuga desesperada, o carrasco e a vítima são forçados a uma união manchada de sangue e rancor. Cassandra quer vê-lo morto. Nicolas sabe que merece o inferno. Mas, nas sombras da Toscana, eles descobrirão que a linha entre o ódio visceral e a obsessão é mais tênue do que imaginavam.
Ler maisDizem que o vermelho é a cor da paixão. Para alguns, é a cor do pecado. Mas, enquanto eu encarava meu reflexo no espelho de moldura dourada naquela noite, o vermelho tinha um significado bem mais prático: era a cor do sangue que eu estava disposta a derramar para honrar o nome da minha família.
Eu não era apenas uma mulher vestindo uma peça de alta costura italiana. Eu era Cassandra, a herdeira do império que comandava o porto de Palermo, as rotas de exportação e os segredos que mantinham a Sicília em um equilíbrio perigoso. Aquela seda vermelha abraçava meu corpo como uma armadura. Se você quer que os homens se curvem diante de você em um mundo de lobos, você precisa parecer que já devorou alguns deles antes do café da manhã.
A porta do meu quarto rangeu levemente. Pelo reflexo, vi a figura imponente do meu pai. Riccardo não era apenas o Capo; ele era o meu chão.
— Bellissima — ele disse, com a voz rouca, aquele sotaque italiano carregado que sempre me trazia uma sensação de segurança. — Se sua mãe estivesse aqui, ela estaria chorando. Mas não de tristeza, e sim de inveja pela sua postura.
Eu sorri, virando-me para ele. Falar de Giulia era sempre pisar em território sagrado. Ela se foi quando eu era pequena, mas sua sombra era o que moldava cada corredor daquela mansão.
— Você acha mesmo que ela aprovaria, papai? Uma mulher no comando de tudo?
Riccardo se aproximou, colocando as mãos pesadas e calejadas sobre os meus ombros. Seus olhos brilhavam com algo que eu raramente via naquele meio: amor puro.
— Giulia era a minha maior estratégia, Cassandra. As pessoas viam a beleza dela, mas eu via o cérebro que planejava cada movimento meu por trás dos panos. Ela não apenas aprovaria; ela teria desenhado esse vestido para que você parecesse uma rainha. Nunca subestime o poder de uma mulher que sabe onde quer chegar. O mundo da máfia é feito de força, mas é governado pela inteligência.
Ele parou por um momento, a expressão ficando subitamente séria. Era o conselho final, a lição que eu deveria levar para o baile onde ele anunciaria minha ascensão.
— Escute bem, minha filha: o poder é como o vinho. Um pouco te faz sentir invencível, mas o excesso te deixa cega. Não confie em quem sorri demais, nem tema quem grita muito. O perigo real é silencioso. Seja o silêncio, Cassandra.
Eu respirei fundo, absorvendo cada palavra. O peso do legado dele era monumental, mas eu estava pronta. Ou, pelo menos, eu precisava fingir que estava.
Descemos a escadaria de mármore de Carrara em direção à sala principal. O som dos nossos sapatos ecoava como uma contagem regressiva. Lá embaixo, as luzes dos lustres de cristal iluminavam o comitê de recepção que nos levaria ao evento.
Donato estava lá.
O melhor amigo do meu pai, o homem que cresceu dividindo o pão e o sangue com Riccardo. Ele usava um terno impecável e ostentava aquele sorriso de quem conhece todos os seus segredos. Ao lado dele, os seguranças formavam uma parede de ternos escuros e rostos sem alma.
— Riccardo! — Donato abriu os braços, em um gesto teatral de fraternidade. — O homem da noite. E veja só essa visão... Cassandra, você está deslumbrante. Palermo vai cair aos seus pés antes mesmo da primeira valsa.
— Donato, meu velho amigo — meu pai respondeu, apertando a mão dele com firmeza. — Obrigado por estar aqui. Significa muito para nós.
Donato olhou para mim, e por um milésimo de segundo, senti um arrepio na nuca. Não era admiração; era algo frio, um cálculo que eu não soube traduzir na hora.
— Eu não perderia isso por nada no mundo — Donato disse, e o tom da sua voz era quase doce demais. — É o início de uma nova era, não é?
— Com certeza — eu respondi, mantendo o queixo erguido e a expressão de gelo que meu pai tanto elogiava.
Saímos para a noite quente da Sicília. O cheiro de jasmim e maresia pairava no ar. Entramos no carro blindado, o motor ronronando como um predador à espera do sinal. Enquanto o portão da mansão se abria, eu olhei para trás uma última vez.
Eu não sabia que estava me despedindo da minha vida. Eu não sabia que o "amigo" do meu pai já tinha encomendado o caixão dele e a minha cela.
O carro acelerou rumo ao baile. O vermelho do meu vestido brilhava sob as luzes da rua. Mal sabia eu que, antes do amanhecer, aquela cor não seria mais sobre poder. Seria apenas o lembrete de que o traidor mais perigoso é sempre aquele que você convida para jantar.
Nicolas Eu sempre soube que a alma era algo fácil de vender, mas nunca imaginei que o preço para mantê-la fosse tão alto.Saí da torre cambaleando. Meus pés batiam no cascalho, mas eu não sentia o chão. Minhas mãos tremiam, e não era o tremor de um homem que acabara de cometer um crime; era o tremor de alguém que acabara de perceber que não restava mais nada de humano dentro da própria pele.Afastei-me da construção de pedra o máximo que pude, embrenhando-me na vegetação escura. O ar frio da madrugada deveria ter me refrescado, mas ele parecia entrar nos meus pulmões como fumaça ácida.Parei diante de uma oliveira retorcida e o meu estômago finalmente cedeu.Dobrei o corpo e vomitei. Foi uma reação
A noite na Toscana costumava ser sinônimo de beleza, mas naquela cela, a escuridão era um animal à espreita. Eu não conseguia parar de tremer. Cada ruído no corredor parecia o estalo de um chicote. Eu sabia que ele voltaria. Donato tinha lançado o ultimato, e o mundo da máfia não aceita blefes.Quando a porta finalmente se abriu, eu não precisei olhar para saber que era ele. O cheiro de metal e angústia entrou primeiro. Nicolas estava parado sob o luar pálido que entrava pela fresta da janela, uma silhueta de dor e pecado.— Nicolas... por favor — comecei, minha voz saindo como um sussurro quebrado. Eu estava em pé, encostada na parede fria, sentindo o peso da corrente como nunca antes. — Você não precisa fazer isso. Você não é ele. Você salvou minha vida daquela febre... existe alguém bom aí dentro.Ele deu um passo à f
O ar na cela estava tão denso que eu sentia dificuldade de inspirar. Donato exalava um cheiro de triunfo barato e loção pós-barba cara, uma combinação que me revirava o estômago. Mas o que realmente me deu um nó na garganta foi ver Nicolas parado à porta.Ele estava destruído. O lábio inferior estava aberto, o sangue já seco formando uma crosta escura, e o olho esquerdo estava tão inchado e roxo que ele mal conseguia abri-lo. O "cão de guarda" tinha apanhado do dono, e a humilhação nos olhos dele era quase física.— Sabe, Cassandra — Donato começou, caminhando pela cela como se estivesse escolhendo um móvel novo — eu sempre tive vontade de apagar esse brilho de petulância dos seus olhos. Riccardo te criou para ser uma rainha, mas ele esquec
CassandraTrinta dias. Setecentas e vinte horas.Eu estava começando a perder a noção de quem eu era fora daquelas quatro paredes de pedra. O tempo na torre não passava; ele se arrastava, deixando marcas na alma como a corrente deixava no meu tornozelo. Eu tinha recuperado minhas forças, mas o isolamento era uma doença silenciosa. Minha única conexão com o mundo era o homem que me mantinha presa — e nossa relação era um campo minado de ofensas e silêncios pesados.Mas hoje, o silêncio da torre foi estraçalhado pelo som de pneus rangendo no cascalho lá embaixo. Não era o carro de suprimentos. O ronco do motor era pesado, autoritário. Rico.Meu coração disparou. Eu sabia quem era antes mesmo de ouvir a voz.Lá embaixo, na entrada da torre, a tensão subiu como fumaça. Dona
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