Capítulo 6

Nicolas

Eu sempre soube que Cassandra Valenti era um problema. Mas eu não esperava que ela fosse um furacão.

Caminhei pelo corredor frio da torre, sentindo o peso da chave no meu bolso e o peso da minha própria existência nos ombros. Meu pai queria que eu a "adestrasse". Ele usava essa palavra como se ela fosse um cavalo de raça que precisava de chicote para entender quem manda. O que Donato não entende é que algumas almas nascem com fogo nas veias, e se você tenta apagá-lo, acaba se queimando.

Quando abri a porta, o silêncio me atingiu primeiro.

Ela estava caída no chão, ao lado da cama. O vestido cinza parecia um pano de chão descartado. Cassandra não se mexia. A respiração, que antes era um rosnado constante, parecia ter parado.

— Cassandra? — chamei, minha voz saindo mais tensa do que eu gostaria de admitir.

Nada.

O pânico, um sentimento que eu tinha enterrado sob camadas de cinismo, subiu pela minha garganta. Se ela morresse, o plano de Donato ruía. E se o plano ruía, o castigo caía sobre a única coisa que me mantinha vivo.

Aproximei-me rápido, ajoelhando-me ao lado dela. O orgulho dela deveria estar quebrado pela fome, pensei. Estendi a mão para tocar seu pescoço, buscando um pulso, qualquer sinal de que aquela garota insolente ainda estava ali.

— Cassandra, acorda! — ordenei, segurando seu ombro.

Foi o meu erro. O único erro que um cão treinado como eu jamais deveria cometer: baixar a guarda para a presa.

Em um borrão de movimento, o "corpo inerte" ganhou vida. Cassandra se impulsionou para cima com a força de quem guardou cada caloria de ódio para aquele momento. Senti um ardor agudo e repentino atravessar minha bochecha. O metal rasgou minha pele, subindo do queixo até a maçã do rosto.

— SEU MERDA! — ela gritou, a voz saindo como um rugido.

O sangue quente começou a escorrer pelo meu pescoço. Antes que eu pudesse reagir, ela avançou de novo. Ela não estava lutando como uma dama; estava lutando como alguém que não tem nada a perder. A lasca de metal que ela escondeu — Deus sabe onde — desceu como uma adaga improvisada.

Senti a primeira estocada no meu ombro. A segunda, na lateral das minhas costelas. A dor era aguda, mas a adrenalina é uma droga poderosa.

— Eu vou... te mandar... pro inferno! — ela sibilava entre os dentes, tentando alcançar meu pescoço.

Nós rolamos pelo chão frio. Cassandra era pequena, mas a fúria a tornava pesada. Ela me furou de novo, e por um segundo, o pensamento passou pela minha mente: Deixe. Deixe que ela termine. Deixe que esse pedaço de lata rasgue minha carótida e acabe com essa palhaçada de uma vez. Seria um alívio. Um final poético ser morto pela mulher que eu deveria vigiar.

Mas o rosto de uma menina de dez anos, com laços no cabelo e olhos cheios de esperança, brilhou na minha mente. Bianca.

Se eu morresse ali, Bianca seria o próximo prato no banquete de crueldade do meu pai.

A raiva tomou o lugar do cansaço. Segurei os pulsos de Cassandra e a joguei contra a parede de pedra. O impacto produziu um som seco que me fez estremecer, mas ela não soltou o metal. Ela tentou me chutar, tentou me morder. Eu segurei sua mão contra a parede e bati com o meu punho sobre o dela, uma, duas vezes, até que os dedos dela fraquejassem e a lasca de metal caísse no chão, ecoando como uma sentença de morte.

Eu a segurei lá, prensada contra a pedra, meu rosto sangrando sobre o dela, nossas respirações se misturando em um ritmo caótico de ódio.

— Você quase conseguiu — eu sussurrei, a voz tremendo de exaustão e algo que eu não queria identificar. — Você realmente quase me libertou, Cassandra.

Eu a soltei bruscamente. Ela escorregou pela parede, ofegante, os olhos ainda brilhando com a promessa de me matar. Saí da cela sem dizer mais nada, trancando a porta com mãos trêmulas.

No corredor, encostei-me na parede e deixei meu corpo deslizar até o chão. Limpei o sangue do rosto com a manga da camisa. Eu precisava cuidar dos ferimentos, mas minha mente estava em outro lugar.

Lembrei-me da última conversa com Donato, antes de virmos para a Toscana. Ele tinha me segurado pelo pescoço, com aquele sorriso que nunca chegava aos olhos, e dito: "Nicolas, meu filho querido... se você falhar com essa garota, se ela fugir ou se você não a mantiver sob controle, eu não vou bater em você. Eu vou vender a Bianca para a rede de tráfico mais suja que cruzar a fronteira. E vou garantir que você assista a cada minuto do vídeo."

Eu odiava Cassandra Valenti. Eu a invejava pelo pai que ela teve, pelo amor que ela conheceu, pela força que ela ainda tinha. Mas, naquele momento, olhando para o sangue no chão, eu percebi que éramos dois lados da mesma moeda podre.

Ela estava presa por correntes de ferro. Eu estava preso por correntes feitas de carne, sangue e o medo de perder a única luz que restava na minha vida.

Levantei-me, ignorando a dor nos cortes. Eu não podia matá-la. E, pior de tudo, eu não podia deixá-la me matar.

— Desculpe, Cassandra — murmurei para o silêncio do corredor. — Mas hoje ninguém vai ser livre.

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