Mundo de ficçãoIniciar sessãoCaterina Genovese deveria ter herdado um império. Em vez disso, herdou silêncio, humilhação e um quarto nos fundos da própria casa. Filha do antigo patriarca de uma das famílias mais poderosas da máfia italiana, ela foi apagada após a morte do pai, reduzida a empregada pela madrasta e mantida fora de tudo que, por direito, era seu. Mas Caterina nunca foi fraca. Apenas… paciente. Tudo muda na noite de um baile de máscaras. Entre mentiras, alianças e sangue disfarçado de elegância, ela cruza o caminho de Diego Ferrari — um Don jovem, implacável e perigosamente inteligente. Ele não se interessa por beleza, nem por submissão. Ele se interessa por poder. E reconhece isso nela antes de qualquer outro. Um acordo nasce. Um casamento acontece. E uma guerra começa. Agora, dentro de um mundo onde confiança é moeda rara e traição é regra, Caterina precisa provar que não é uma peça no jogo — ela é o próprio tabuleiro. Enquanto isso, Diego descobre que protegê-la não é apenas estratégia… é obsessão. Mas amar, naquele universo, não é um refúgio. É uma sentença. Quando a cúpula se volta contra ela, quando inimigos se escondem nas sombras e quando o sangue começa a marcar cada passo, Diego faz o impensável: mata em nome dela, diante de todos, sem hesitação. E naquele instante, o recado é claro: Quem tocar em Caterina Genovese… não enfrenta um homem. Enfrenta um incêndio. Entre desejo e destruição, poder e entrega, os dois precisarão decidir até onde estão dispostos a ir. Porque nesse jogo, não existe final feliz. Só sobreviventes.
Ler maisMeu pai morreu numa terça-feira.
Não houve aviso, presságio nem última conversa significativa. Houve apenas o telefone tocando cedo demais e o silêncio estranho depois que desliguei. Silêncio pesado, do tipo que não pede companhia. Ele se espalha pela casa como fumaça e entra nos pulmões sem pedir licença. Desde então, eu moro aqui. Ou melhor: continuo aqui, mas deixei de ser filha. A casa Genovese sempre foi grande demais para tão pouca verdade. Mármore frio, corredores longos, quadros caros de homens mortos e mulheres que fingiam não saber o que seus maridos faziam à noite. Cresci aprendendo a andar em silêncio, a não tocar no que não era meu e a reconhecer perigo pelo tom de voz, não pelas palavras. Depois da morte dele, aprendi outra coisa: invisibilidade também é uma forma de sobrevivência. — Caterina. A voz da minha madrasta corta o ar como faca cega. Não grita. Nunca gritou. Ela não precisa. Grita quem perde o controle. Francesca Genovese sempre teve controle demais. — Sim, senhora. Respondo antes mesmo de terminar de esfregar o chão da cozinha. O cheiro de desinfetante arde no nariz. Gosto disso. Ardor distrai. Ardor lembra que ainda estou aqui. — O café está frio. Ela está sentada à mesa, impecável como sempre. Cabelo preso, maquiagem mínima, roupa clara que nunca mancha. Ao lado dela, minhas duas irmãs postiças, Isabella e Chiara, mastigam com tédio elegante. Elas nunca me chamam pelo nome. Nunca precisam. — Refaz — diz Francesca. Só isso. Não olho para ela. Aprendi rápido que olhar nos olhos é convite para humilhação extra. Levanto, descarto o café, preparo outro. Mãos firmes. Sem pressa. Pressa denuncia medo. Isabella revira os olhos. — Você demora de propósito, Caterina? Não respondo. Continuo trabalhando. Chiara ri, uma risada curta, treinada. — Papai deixava ela sentar com a gente — diz Chiara, mexendo no celular. — Que bizarro pensar nisso agora. Papai. Elas nunca o chamaram assim antes da morte dele. Agora usam a palavra como quem testa uma arma nova. Francesca sorri de leve. Um sorriso que não chega aos olhos. — As coisas mudam — ela diz. — Cada um no seu lugar. Lugar. A palavra ecoa dentro de mim enquanto coloco o café novo sobre a mesa. Nenhuma delas agradece. Nunca agradecem. Agradecimento cria humanidade. Humanidade cria culpa. Francesca não cultiva nenhuma das duas. Volto ao chão. O pano está escuro. Cinza misturado com algo mais antigo. Sangue seco, talvez. Nesta casa, nunca dá para ter certeza. Meu pai morreu “repentinamente”. Foi assim que disseram. Ataque fulminante. Coração fraco. Engraçado como o coração dele aguentou anos de noites sem dormir, reuniões trancadas, homens armados entrando e saindo da casa como fantasmas. Aguentou tudo isso. Mas não aguentou uma terça-feira. Não perguntei nada. Perguntar é perigoso. Perguntar demais faz as pessoas sumirem. Depois do enterro, Francesca me chamou para o escritório. Sentei na cadeira em frente à mesa onde meu pai costumava assinar papéis que eu nunca lia, mas sabia o peso. — Você pode ficar — ela disse. — Ainda é uma Genovese. No papel. No papel. Tudo que importa sempre esteve no papel. — Mas vai contribuir — completou. — Não posso sustentar peso morto. Peso morto. A palavra bateu, mas não quebrou nada. Eu já estava rachada. Desde então, eu limpo. Cozinha, corredores, quartos que não uso, roupas que não são minhas. Limpo depois das reuniões. Limpo depois das visitas noturnas. Limpo o que ninguém quer lembrar. É curioso como ninguém se importa com quem limpa. Pessoas falam coisas importantes perto de quem limpa. Confissões, ameaças, acordos. Acham que a sujeira também entra pelos ouvidos e apaga a memória. Não apaga. — Caterina. De novo. — O chão do corredor ainda está manchado — diz Francesca, levantando-se. — Quero isso impecável antes do almoço. — Sim, senhora. Ela passa por mim sem me tocar. Perfume caro, notas florais que tentam esconder algo metálico por baixo. Medo, talvez. Ou culpa. Nunca consegui distinguir bem os dois. Subo as escadas com o balde pesado. O corredor do andar superior é longo, iluminado por janelas altas. O sol entra bonito demais para uma casa que já viu tanta coisa feia. A mancha está ali, perto do escritório. Escura. Antiga. Ninguém nunca disse o que foi. Não preciso perguntar. Esfrego. Forte. Até os dedos doerem. Até a água ficar quase preta. Enquanto esfrego, penso na última vez que vi meu pai vivo. Ele estava sentado exatamente ali, no escritório. Camisa aberta no colarinho, olhar cansado. — Você escuta demais, Caterina — ele disse, sem me olhar. — Alguém precisa escutar — respondi. Ele riu. Um riso curto. — Isso vai te manter viva — disse. — Mas também vai te custar caro. Ele sempre falou como se soubesse que não ficaria muito tempo. Termino o corredor. Troco a água. Desço de novo. O relógio marca quase meio-dia quando o primeiro carro chega. Reconheço o som antes de ver. Motor pesado. Gente importante. Francesca aparece imediatamente, postura mudando como mágica. Isabella e Chiara surgem atrás dela, belas, vazias, prontas para sorrir. — Caterina — Francesca diz baixo, passando por mim. — Depois da reunião, o escritório precisa estar limpo. Muito limpo. Depois da reunião. É quando as coisas acontecem. Assinto. Sempre assinto. A reunião dura horas. Fico na cozinha, preparando café, servindo bandejas, entrando e saindo sem ser notada. Os homens falam alto. Discutem números, territórios, nomes que eu reconheço e finjo não reconhecer. Um deles menciona meu pai. Outro manda calar a boca. Guardo tudo. Quando finalmente vão embora, a casa fica estranhamente silenciosa. Francesca sobe com as filhas. Eu espero. Sempre espero. A pressa denuncia curiosidade. Depois de vinte minutos, entro no escritório. O cheiro vem primeiro. Ferro. Pólvora. Algo quebrado. Há uma cadeira caída. Um copo estilhaçado. Uma gota vermelha no tapete caro. Fecho a porta. Respiro fundo. Pego os materiais. Começo. Enquanto limpo, penso que ninguém nunca perguntou se eu queria isso. Se eu queria ficar. Se eu queria ser filha, empregada, sombra. Mas também sei que ninguém nunca pergunta nada a quem não tem poder. Ainda. Termino quando já está escuro lá fora. Minhas mãos estão ásperas, unhas curtas, pele marcada. Olho meu reflexo no vidro da estante. Olhos atentos demais para alguém da minha idade. Boca que desaprendeu a sorrir. Sou Caterina Genovese. Filha de um homem morto. Empregada numa casa que um dia foi minha. E, mesmo assim, sei mais segredos do que qualquer um que dorme sob este teto. Cinzas grudam na pele. Mas também escondem fogo. E eu ainda estou queimando.A cúpula sempre foi um teatro mal iluminado.Homens velhos fingindo estabilidade, fingindo respeito, fingindo que o mundo ainda obedecia às regras que eles escreveram quando tinham dentes melhores e menos inimigos. A sala no topo do prédio estava cheia daquele silêncio falso, onde ninguém fala demais porque todos estão calculando quem morre primeiro se algo der errado.Eu me sentei na cabeceira.Caterina à minha direita.Não como ornamento.Como aviso.Ela estava calma demais. Costas eretas. Olhar atento. O tipo de calma que só quem já sobreviveu a coisa pior consegue sustentar. Alguns desviavam os olhos. Outros a encaravam como se estivessem avaliando um problema que ainda não sabiam resolver.Foi Vittorio Mancini quem abriu a boca.Claro que foi.Antigo. Rico. Criado numa época em que mulheres eram heranças ou moedas. Aquele tipo que confunde tempo de vida com autoridade.— Antes de discutirmos rotas e represálias — disse ele, limpando a garganta — precisamos falar sobre a instabili
O aviso chegou atrasado por três minutos.Três minutos são uma eternidade quando alguém decide testar seus limites comigo.Eu estava no escritório quando o rádio chiou. Voz tensa. Mal treinada para más notícias.— Movimento estranho no perímetro leste. A senhora Ferrari estava saindo do clube.Levantei antes que a frase terminasse.O resto foi automático. Corredores. Portas. Ordens curtas. O mundo estreitou até virar um único ponto: onde ela estava.Quando cheguei, o ataque já tinha falhado.Um carro errado. Uma aproximação mal calculada. Um homem no chão, imobilizado, sangrando do supercílio. Nenhuma arma disparada. Nenhum tiro. Covardia suficiente para tentar. Incompetência suficiente para falhar.Caterina estava de pé, encostada na parede, mãos firmes demais para quem tinha acabado de escapar de algo.Ela não chorava.Isso me atingiu mais forte do que sangue teria.— Você está ferida? — perguntei.Ela balançou a cabeça.— Não.A voz saiu estável. O corpo não acompanhava.Aproximei-
Aprendi cedo que salas de reunião são campos de batalha onde ninguém sangra, mas todos morrem um pouco.A da cúpula cheirava a madeira antiga, couro caro e egos que nunca tinham sido contrariados. As cadeiras eram grandes demais, feitas para homens que precisavam ocupar espaço para lembrar a si mesmos que ainda importavam. Sentei-me ereta, mãos cruzadas sobre a mesa, o corpo quieto, a mente em movimento.Diego estava ao meu lado.Não encostava em mim. Não precisava. A presença dele era um muro invisível. Eu sentia. Todos sentiam.Foi Raffaele Conti quem começou.Sempre são os mesmos tipos. Antigos demais para aceitar mudanças, jovens demais para serem lendas. O meio-termo mais perigoso.— Antes de avançarmos — disse ele, batendo levemente os dedos na mesa — gostaria de entender por que decisões estratégicas estão sendo… compartilhadas.Olhares se moveram. Alguns curiosos. Outros satisfeitos.— Seja claro — Diego respondeu, sem emoção.Conti sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos
Eu não planejei mudar minha rotina por causa dela.Homens como eu não mudam rotinas. Nós as impomos. Horários são armas. Repetição é controle. Tudo o que foge disso vira risco. E risco se elimina.Ainda assim, quando percebi, meus dias estavam girando em torno de um detalhe específico: onde Caterina estaria.Não foi consciente. Foi como perceber tarde demais que uma casa pegou fogo enquanto você discutia a cor das cortinas.Depois da primeira aula de tiro, ela passou a ir com frequência. Duas vezes por semana. Depois três. Emília dizia que era disciplina. Eu sabia que era outra coisa. Caterina aprendia rápido demais. Olhar atento. Pulso firme. Não havia vaidade no gesto, só necessidade.Eu aparecia “por acaso”.Encostava no carro a uma distância calculada. Ficava fora do campo de visão dela. Observava.Não por desconfiança. Por instinto.O instrutor corrigia a postura dela, falava baixo demais, próximo demais. Eu anotava mentalmente cada aproximação como quem cataloga inimigos. Não po
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