Capítulo 5

Se a fome fosse apenas uma sensação no estômago, eu daria um jeito. Mas a fome no cativeiro é psicológica; ela sussurra que você é fraca, que você é dependente e que o seu captor é o seu deus. E eu me recusava a rezar no altar de Nicolas.

A porta se abriu com aquele rangido que já estava se tornando a trilha sonora do meu ódio. Nicolas entrou carregando uma bandeja de metal com uma mistura que parecia uma papa cinzenta, tão sem vida quanto as paredes desta torre.

— Hora da ração, Cassandra. Coma. Você precisa de forças se quiser continuar com seus discursos de vingança — ele disse, largando a bandeja no chão, perto o suficiente para eu alcançar, mas longe o suficiente para me obrigar a rastejar devido à corrente.

Eu o encarei. Meus olhos deviam estar injetados. Eu não era mais a herdeira de vestido vermelho; eu era uma loba acuada em um vestido de trapo cinza, mas meus dentes ainda estavam lá.

— Eu não como lixo, Nicolas. E certamente não como nada vindo das suas mãos manchadas de sangue — respondi, minha voz saindo mais rouca do que eu pretendia.

Com um movimento rápido e carregado de desprezo, chutei a bandeja. O som do metal batendo na pedra ecoou como um tiro. A comida se espalhou pelo chão, sujando as botas impecáveis dele.

Nicolas nem piscou. Ele apenas olhou para a sujeira e depois para mim, com uma frieza que me fez querer matá-lo ainda mais.

— Engraçado — ele começou, dando um passo à frente, ignorando o resto de comida nos seus pés. — Você acha que está sendo forte. Acha que esse orgulho vai te salvar. Mas aqui, Cassandra, o seu orgulho é só um cronômetro. Em dois dias, você vai estar lambendo esse chão por uma gota de água. Você não é uma rainha aqui. Você é um trunfo. E trunfos não precisam gostar do cardápio, só precisam estar respirando.

— Você adoraria me ver rastejar, não é? — provoquei, sentindo as lágrimas de raiva queimarem, mas me recusando a deixá-las cair. — Porque é assim que você vive. Rastejando para o Donato. Você projeta em mim a sua própria existência de capacho.

Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu. Senti o cheiro de hortelã novamente, uma ironia cruel em um lugar que cheirava a morte.

— A diferença, princesa, é que eu sobrevivo. Você? Você é uma flor de estufa que acabou de ser jogada no meio do inverno. Aproveite a fome. Ela é a única coisa que você vai ter de graça por aqui.

Ele deu as costas e saiu. No momento em que a porta bateu, meu pé esbarrou em algo. Quando chutei a bandeja, um pedaço de metal — uma lasca afiada que parecia ter se soltado da borda mal soldada — rolou para debaixo da minha cama de ferro.

Meu coração disparou.

Esperei o som dos passos dele sumirem escada abaixo. Me joguei no chão, a corrente esticando até o limite, e tateei o escuro sob a cama. Meus dedos encontraram o metal. Era pequeno, frio e pontiagudo. Não era uma chave, mas era uma ferramenta. Era uma arma. Escondi-o dentro do forro do meu colchão fino, sentindo uma pequena chama de esperança aquecer meu peito gelado.

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