Capítulo 3

Eu sempre achei que o fundo do poço tinha uma iluminação melhor. Mas a verdade é que o fundo do poço é escuro, cheira a mofo e, no meu caso, é feito de um tecido de estopa grosso que arranhava minha pele.

Acordei com o som rítmico de turbinas. Minha cabeça latejava, uma sinfonia de dor que acompanhava cada batida do meu coração. Demorei alguns segundos para entender que eu não estava em um pesadelo; o pesadelo é que era a minha nova realidade. Eu estava amarrada, jogada como uma mercadoria qualquer no chão de um avião.

Perto dali, vozes masculinas e abafadas riam. Eles falavam sobre o "serviço bem feito" e sobre como "o velho Valenti caiu como um saco de batatas".

Senti um gosto amargo de bile na garganta. Papai.

A imagem dele caindo no escuro do salão voltou como uma facada. A dor ameaçou me quebrar, mas eu a engoli. Eu não tinha o luxo de desmoronar. Não agora. Ali, naquele cubículo voador, eu fiz um pacto com o meu próprio sangue: cada gota que meu pai derramou naquele mármore seria paga com juros. Eu não ia apenas assumir a máfia; eu ia me tornar o pesadelo de quem ousou tocar nele.

Mantenha a calma, Cassandra. Não adianta lutar contra o tecido agora. Se eu gastasse energia ali, não teria nada para quando as portas se abrissem.

Horas se passaram. O tempo é uma tortura quando você está presa aos seus próprios pensamentos de vingança. Senti o solavanco do pouso. O avião parou e o silêncio que se seguiu foi quase pior que o barulho dos motores.

Senti mãos brutas agarrando o saco e me arrastando. Minha cabeça bateu no metal, mas eu não soltei um gemido sequer. Fui jogada no chão — chão de verdade, terra e cascalho. O ar que entrava pelas tramas do tecido era diferente; não era o mar de Palermo. Era ar de montanha, frio e seco.

— Ela ainda está apagada? — Uma voz perguntou. Uma voz que eu conhecia. Uma voz que fazia meus pelos do braço se arrepiarem por todos os motivos errados.

— Como uma pedra, senhor. O químico foi forte.

Ouvi o som de um zíper ou de cordas sendo cortadas. A luz cegante da manhã invadiu meu espaço. Fechei os olhos com força, mantendo a respiração pesada e rítmica. Eu precisava que eles achassem que eu ainda era apenas um corpo inerte.

Fui içada do chão. Alguém me jogou por cima do ombro como se eu fosse um fardo de feno. O cheiro de tabaco e algo metálico... Nicolas.

Nicolas. O filho do traidor. O garoto que eu desprezava desde que éramos crianças, o "cão treinado" que meu pai sempre dizia para eu manter distância porque não havia alma naqueles olhos claros.

— Você é pesada para alguém tão pequena, Valenti — ele resmungou, a voz fria como um necrotério.

Foi o suficiente. A menção ao meu nome na boca dele foi o fósforo na gasolina.

Eu explodi.

Não houve planejamento, apenas fúria pura. Enterrei meus cotovelos nas costas dele com toda a força que o ódio podia me dar. Ele soltou um rosnado de surpresa e me soltou. Eu caí no chão de terra, mas me levantei antes mesmo de sentir a dor.

— SEU DESGRAÇADO! — gritei, minha voz saindo rasgada.

Eu não corri para longe de imediato; eu fui para cima. Acertei um soco no seu rosto — um golpe que meu pai me ensinou a dar para quebrar narizes. Senti o impacto nos meus nós dos dedos e foi a melhor sensação da minha vida. Nicolas cambaleou para trás, limpando o sangue que já começava a brotar do lábio.

— Você devia ter ficado dormindo, Cassandra — ele disse, e o olhar que ele me lançou não era de raiva, era de um tédio cruel.

— Eu vou matar você. Vou matar seu pai. Vou queimar tudo o que vocês têm! — Eu girava, procurando uma saída, mas estávamos no meio do nada. Uma torre de pedra se erguia atrás dele, cercada por quilômetros de vegetação densa.

Tentei correr. Corri como se minha vida dependesse disso — e dependia. Mas o vestido vermelho, agora rasgado e sujo, era um peso morto. Nicolas me alcançou em três passadas. Ele me agarrou pelo cabelo, puxando minha cabeça para trás.

— Me solta! Me mata logo, seu covarde! — eu cuspia as palavras, tentando atingi-lo com as unhas.

— Você não tem ideia do quanto eu adoraria fazer isso — ele rosnou no meu ouvido, seu hálito quente contra minha pele fria. — Mas meu pai tem planos para você. E eu tenho ordens.

Eu me virei, conseguindo liberar um braço, e acertei um golpe desesperado na lateral da cabeça dele. Por um segundo, vi uma faísca de dor real nos seus olhos. Mas Nicolas era um animal treinado para suportar o que eu nem podia imaginar.

Antes que eu pudesse tentar o próximo golpe, o mundo girou. Ele me atingiu com uma precisão cirúrgica. Um golpe seco, técnico, feito para apagar as luzes sem matar o alvo.

Minhas pernas falharam. A última coisa que ouvi foi o som da sua voz, carregada de uma inveja que eu ainda não entendia:

— Aproveite o descanso, princesa. O seu castelo agora é de pedra.

E a escuridão, minha única amiga fiel nas últimas horas, me abraçou novamente.

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