Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcordar pela segunda vez em um lugar desconhecido já estava se tornando um hábito irritante. Mas, dessa vez, o despertar veio acompanhado de um som metálico. Um clack seco.
Tentei mexer a perna e o puxão no meu tornozelo me fez soltar um suspiro de dor. Olhei para baixo. Uma corrente grossa, fria e impiedosa prendia meu pé ao pé de uma cama de ferro que rangia só de eu respirar. O cenário era o oposto do luxo de Palermo: paredes de pedra nua, o cheiro de mofo misturado com frio úmido e uma privada que parecia ter sido instalada ali antes da invenção da dignidade humana.
A torre. O meu "reino".
— Acordou a tempo do café da manhã, princesa? — A voz dele veio da penumbra da porta.
Nicolas estava encostado no batente, os braços cruzados, observando minha desgraça com aquela expressão de quem está assistindo a um documentário sobre insetos.
— Onde eu estou, Nicolas? E se você disser "no inferno", eu juro que guardo um lugar para você na primeira fila — cuspi as palavras, tentando me sentar na cama sem perder a pose, apesar do vestido vermelho estar agora reduzido a um trapo sujo de terra e sangue.
Ele soltou uma risada curta, sem humor nenhum.
— Você está onde precisa estar. Enquanto o mundo lá fora chora pelo grande Riccardo Valenti, o "heróico" Donato está movendo céus e terra para encontrar a filha sequestrada do seu melhor amigo.
O ar sumiu dos meus pulmões. O golpe foi mais mestre do que eu imaginei.
— Ninguém sabe? — perguntei, a voz falhando por um segundo. — Ninguém sabe que foi o seu pai quem apertou o gatilho?
— Por que saberiam? Donato é o luto em pessoa. Ele vai "caçar" os assassinos, vai se mostrar o único capaz de manter a ordem na ausência do seu pai e, quando o tempo for certo, ele vai assumir o trono que você achou que era seu.
— E por que eu ainda estou viva? — desafiei, puxando a corrente, o metal cortando minha pele. — Se ele quer o poder, por que não me matou junto com ele?
Nicolas deu um passo para dentro da cela. O frio parecia emanar dele.
— Porque na máfia, Cassandra, o seguro morreu de velho. Você é o plano B. Se algo der errado, se algum conselho desconfiar ou se os negócios fraquejarem, Donato aparece com você, a herdeira "resgatada", e usa você como um fantoche para validar o governo dele. Você não é mais uma pessoa. É um título de propriedade.
— Você é um nojo — eu disse, cada sílaba carregada de veneno. — Como consegue olhar no espelho sabendo que é o cão de guarda de um traidor? Seu pai te trata como lixo, Nicolas. Eu via como ele falava com você nas reuniões. Você não passa de um capacho com licença para matar.
Vi o maxilar dele travar. Um músculo saltou em seu pescoço. Toquei na ferida e, por um momento, senti um prazer doentio. A inveja dele brilhava nos olhos: ele odiava o fato de que, mesmo acorrentada e suja, eu tinha tido um pai que me amava, enquanto ele só conhecia o peso da mão do Donato.
— O show acabou, Cassandra — ele disse, a voz subitamente baixa e perigosa. — Tire o vestido.
Eu paralisei. O sarcasmo sumiu, substituído por um alerta de pânico que fez meu coração martelar contra as costelas.
— O quê?
— Você me ouviu. Tire a roupa. Agora.
— Ficou maluco? Eu não vou tirar nada! Se você quer me tocar, vai ter que terminar o serviço e me matar primeiro.
Nicolas deu mais dois passos, invadindo meu espaço pessoal. Ele era alto demais, forte demais, e o cheiro dele — uma mistura de pólvora e hortelã — estava por toda parte.
— Escute bem, porque eu só vou dizer uma vez: eu não tenho o menor interesse no que você tem por baixo desse pano. Para mim, você é um problema que eu preferia ter eliminado no aeroporto. Mas meu pai não quer rastreadores. Preciso garantir que você não tem nenhum localizador costurado nessa seda ou uma arma escondida.
— Eu não tenho nada!
— Tire sozinha — ele rosnou, a paciência se esgotando — ou eu vou tirar para você. E eu garanto: você não vai gostar da minha falta de delicadeza.
O olhar dele era puro gelo. Não havia desejo ali, o que era quase mais insultuoso. Havia apenas ordens e uma frieza mecânica.
Lentamente, com as mãos tremendo de ódio, levei os dedos ao zíper lateral. Cada centímetro de pele exposta ao ar gélido da torre parecia uma derrota. Eu me despi sob o olhar dele, mantendo o queixo erguido, tentando transformar minha nudez em uma armadura de desdém. Eu queria que ele visse que, mesmo sem nada, eu ainda era uma Valenti, e ele ainda era um servo.
Ele fez uma inspeção rápida, os olhos percorrendo meu corpo com a mesma indiferença de quem examina uma carga de mercadoria. Quando terminou, ele jogou um monte de tecido cinza e áspero no chão, aos meus pés.
— Vista isso. É o que as prisioneiras usam no meu "castelo".
Olhei para o trapo cinza. Era humilhante.
— Para você continuar se sentindo uma princesa — ele ironizou, já se virando para sair.
— Nicolas! — chamei, minha voz ecoando nas paredes de pedra.
Ele parou, mas não se voltou.
— Isso não vai durar para sempre. E quando eu sair daqui, a primeira coisa que vou fazer é garantir que seu pai te bata tanto que você vai implorar pela morte.
— Você ainda não entendeu, Cassandra — ele disse, finalmente olhando por cima do ombro, com um sorriso amargo que não chegou aos olhos. — Eu já imploro por ela todos os dias.
A porta de ferro bateu, e o som do ferrolho correndo foi o ponto final da minha antiga vida. Eu estava nua, com frio e acorrentada. Mas, enquanto eu vestia aquele trapo cinza, eu jurei: eles podem ter tirado meu vestido vermelho, mas o sangue que vai manchar esse chão ainda vai ser o deles.







