Mundo de ficçãoIniciar sessão
Dizem que o vermelho é a cor da paixão. Para alguns, é a cor do pecado. Mas, enquanto eu encarava meu reflexo no espelho de moldura dourada naquela noite, o vermelho tinha um significado bem mais prático: era a cor do sangue que eu estava disposta a derramar para honrar o nome da minha família.
Eu não era apenas uma mulher vestindo uma peça de alta costura italiana. Eu era Cassandra, a herdeira do império que comandava o porto de Palermo, as rotas de exportação e os segredos que mantinham a Sicília em um equilíbrio perigoso. Aquela seda vermelha abraçava meu corpo como uma armadura. Se você quer que os homens se curvem diante de você em um mundo de lobos, você precisa parecer que já devorou alguns deles antes do café da manhã.
A porta do meu quarto rangeu levemente. Pelo reflexo, vi a figura imponente do meu pai. Riccardo não era apenas o Capo; ele era o meu chão.
— Bellissima — ele disse, com a voz rouca, aquele sotaque italiano carregado que sempre me trazia uma sensação de segurança. — Se sua mãe estivesse aqui, ela estaria chorando. Mas não de tristeza, e sim de inveja pela sua postura.
Eu sorri, virando-me para ele. Falar de Giulia era sempre pisar em território sagrado. Ela se foi quando eu era pequena, mas sua sombra era o que moldava cada corredor daquela mansão.
— Você acha mesmo que ela aprovaria, papai? Uma mulher no comando de tudo?
Riccardo se aproximou, colocando as mãos pesadas e calejadas sobre os meus ombros. Seus olhos brilhavam com algo que eu raramente via naquele meio: amor puro.
— Giulia era a minha maior estratégia, Cassandra. As pessoas viam a beleza dela, mas eu via o cérebro que planejava cada movimento meu por trás dos panos. Ela não apenas aprovaria; ela teria desenhado esse vestido para que você parecesse uma rainha. Nunca subestime o poder de uma mulher que sabe onde quer chegar. O mundo da máfia é feito de força, mas é governado pela inteligência.
Ele parou por um momento, a expressão ficando subitamente séria. Era o conselho final, a lição que eu deveria levar para o baile onde ele anunciaria minha ascensão.
— Escute bem, minha filha: o poder é como o vinho. Um pouco te faz sentir invencível, mas o excesso te deixa cega. Não confie em quem sorri demais, nem tema quem grita muito. O perigo real é silencioso. Seja o silêncio, Cassandra.
Eu respirei fundo, absorvendo cada palavra. O peso do legado dele era monumental, mas eu estava pronta. Ou, pelo menos, eu precisava fingir que estava.
Descemos a escadaria de mármore de Carrara em direção à sala principal. O som dos nossos sapatos ecoava como uma contagem regressiva. Lá embaixo, as luzes dos lustres de cristal iluminavam o comitê de recepção que nos levaria ao evento.
Donato estava lá.
O melhor amigo do meu pai, o homem que cresceu dividindo o pão e o sangue com Riccardo. Ele usava um terno impecável e ostentava aquele sorriso de quem conhece todos os seus segredos. Ao lado dele, os seguranças formavam uma parede de ternos escuros e rostos sem alma.
— Riccardo! — Donato abriu os braços, em um gesto teatral de fraternidade. — O homem da noite. E veja só essa visão... Cassandra, você está deslumbrante. Palermo vai cair aos seus pés antes mesmo da primeira valsa.
— Donato, meu velho amigo — meu pai respondeu, apertando a mão dele com firmeza. — Obrigado por estar aqui. Significa muito para nós.
Donato olhou para mim, e por um milésimo de segundo, senti um arrepio na nuca. Não era admiração; era algo frio, um cálculo que eu não soube traduzir na hora.
— Eu não perderia isso por nada no mundo — Donato disse, e o tom da sua voz era quase doce demais. — É o início de uma nova era, não é?
— Com certeza — eu respondi, mantendo o queixo erguido e a expressão de gelo que meu pai tanto elogiava.
Saímos para a noite quente da Sicília. O cheiro de jasmim e maresia pairava no ar. Entramos no carro blindado, o motor ronronando como um predador à espera do sinal. Enquanto o portão da mansão se abria, eu olhei para trás uma última vez.
Eu não sabia que estava me despedindo da minha vida. Eu não sabia que o "amigo" do meu pai já tinha encomendado o caixão dele e a minha cela.
O carro acelerou rumo ao baile. O vermelho do meu vestido brilhava sob as luzes da rua. Mal sabia eu que, antes do amanhecer, aquela cor não seria mais sobre poder. Seria apenas o lembrete de que o traidor mais perigoso é sempre aquele que você convida para jantar.







