Mundo de ficçãoIniciar sessãoA dignidade é uma coisa curiosa. No Palácio em Palermo, ela era feita de seda, perfumes de grife e o respeito de homens temíveis. Aqui, na torre, ela estava sendo reduzida a um balde de plástico e uma esponja áspera.
O inverno da Toscana não perdoa as paredes de pedra. O frio se infiltrava nos meus ossos, transformando cada movimento meu em uma luta contra o tremor. Eu sentia o cheiro da minha própria pele — o cheiro do cativeiro, do suor seco e do medo que eu me recusava a admitir.
A porta se abriu e Nicolas entrou carregando um balde de metal e uma pilha de roupas dobradas. Ele não olhou para mim. Seus olhos estavam fixos na parede oposta, como se eu fosse uma mancha que ele tentava ignorar.
— Banho — ele disse, a voz monótona. — E roupas limpas. Você está começando a cheirar como esta cela, e meu pai odeia mercadoria suja.
Ele colocou o balde no chão. Um vapor quase inexistente saía da água, mas eu sabia, só pelo brilho do líquido, que aquilo estava longe de ser confortável.
— Nicolas — chamei, minha voz tremendo levemente por causa do frio. — Está congelando aqui dentro. Me traga água quente. Eu não vou sobreviver a um choque térmico nesse estado.
Ele soltou um suspiro curto e finalmente me encarou. O corte que eu fiz em seu rosto estava em fase de cicatrização, uma linha vermelha e feia que dividia sua beleza brutal.
— Água quente é um luxo, Cassandra. E luxos são para pessoas que não tentam matar seus carcereiros. Você tem sorte de eu ter trazido água, ponto final. Depois do que você fez com o meu rosto, o plano original era deixar você apodrecer no próprio sangue. Considere isso o meu máximo de generosidade.
— Generosidade? — ironizei, abraçando meus próprios ombros sob o trapo cinza. — Você me sequestra, ajuda a matar meu pai, me acorreia como um bicho e quer que eu agradeça por um balde de água gelada? Você é ainda mais patético do que eu pensava.
— Menos conversa, mais ação — ele retrucou, virando-se de costas para mim, os braços cruzados sobre o peito. — Vou ficar de costas. Se apresse.
Eu encarei as costas dele. Ele era uma muralha de músculos e cicatrizes invisíveis. Eu odiava o fato de depender dele para algo tão básico. Lentamente, com os dedos dormentes, comecei a tirar o vestido cinza. O ar gélido atingiu minha pele como mil agulhas.
Mergulhei a esponja na água. Soltei um arquejo abafado. Estava gelada. Era como lavar a alma com estilhaços de vidro.
— Você gosta disso, não é? — perguntei, minha voz saindo entre dentes cerrados enquanto passava a esponja pelos braços. — Gosta de sentir que tem controle sobre a herdeira Valenti. Gosta de saber que eu estou aqui, nua e tremendo, enquanto você finge ser o cavaleiro de honra que fica de costas.
— Eu não sinto nada, Cassandra — ele respondeu, sem se mover um milímetro. — Para mim, você é apenas uma tarefa. Uma tarefa barulhenta e irritante.
— Mentira — sibilei, lavando as pernas com pressa, sentindo a corrente raspar no tornozelo molhado. — Você sente inveja. Sente inveja porque, mesmo neste estado, eu ainda sou Cassandra Valenti. E você? Você continua sendo o nada. O filho do traidor que não tem coragem de olhar para a própria sombra.
Ouvi o som do maxilar dele travando. Era o meu pequeno triunfo.
— Continue falando — ele disse, a voz baixa e perigosa. — Talvez a sua língua te mantenha aquecida, já que a água não vai.
— Sabe o que eu acho? — continuei, ignorando o tremor que sacudia meu corpo. — Acho que você fica de costas porque tem medo. Medo de olhar para mim e lembrar que eu sou humana. É mais fácil ser um monstro quando você não encara o rosto da sua vítima.
Houve um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som da água pingando no balde.
— Eu já vi rostos piores que o seu, Cassandra — ele disse, finalmente, com uma amargura que me pegou de surpresa. — E já vi monstros que fariam o seu pai parecer um santo. Você não é uma vítima para mim. Você é um lembrete do que acontece quando a gente nasce no lado errado da mesa.
Terminei o banho o mais rápido que pude, minha pele estava vermelha de frio. Peguei as roupas limpas — outro conjunto de trapos sem cor — e me vesti com movimentos desengonçados.
— Pode virar — eu disse, sentando-me na cama e tentando esconder os pés gelados sob o cobertor ralo.
Nicolas virou-se. Ele pegou o balde e as roupas sujas. Por um breve segundo, nossos olhares se cruzaram. Não havia apenas ódio ali. Havia uma exaustão mútua, um reconhecimento silencioso de que estávamos ambos presos naquela torre, cada um à sua maneira.
— O próximo banho será em três dias — ele informou, recuperando a máscara de frieza. — Tente não arrumar mais nenhuma arma improvisada até lá. Ou o balde será a menor das suas preocupações.
— Eu não preciso de armas, Nicolas — respondi, o queixo erguido apesar do lábio trêmulo. — Eu sou a arma. E você sabe disso.
Ele não respondeu. Saiu e trancou a porta, deixando-me sozinha com o frio e o cheiro de sabão barato. Eu estava limpa, mas me sentia mais suja do que nunca por estar à mercê dele. Mas, enquanto o calor voltava lentamente ao meu corpo, eu percebi uma coisa: ele não tinha me olhado. Nem uma vez.
Nicolas não tinha medo de que eu o matasse. Ele tinha medo de que eu o fizesse sentir algo. E, no jogo da máfia, sentir é o primeiro passo para a execução.







