Mundo de ficçãoIniciar sessãoHá dores que não cabem em palavras. Há traições que arrancam a pele, que transformam até o ar em inimigo. Cecília Duarte aprendeu cedo que amor pode ser moeda rara e, quando existe, vem sempre acompanhado de condições. Implorar foi seu verbo mais constante. Perdoar, sua forma de sobreviver. E quando a vida se encarrega de arrancar tudo de uma vez o noivo, a família, a ilusão de pertencimento sobra apenas o ferro em brasa dentro do peito. Em Veridiana, cidade de contrastes, onde arranha-céus se completam com as nuvens e segredos escorrem pelas vielas, um nome ecoa acima de todos: Dante Bellucci. O magnata que ergueu um império com disciplina implacável. O homem que não tolera escândalos, mas que guarda em si uma solidão tão profunda quanto a dela. A Ferro e Fogo é a história de dois mundos que colidem: a menina marcada pela rejeição e o homem marcado pelo poder. Ela, que jura nunca mais implorar por amor. Ele, que jura nunca mais perder o controle. Quando seus caminhos se cruzarem, Veridiana descobrirá que não existe poder maior que o de sentir ainda que isso custe cicatrizes em carne viva.
Ler mais(Ceci)Segunda-feira, 7h45. Eu estava de pé no 45º andar da Torre, com meu crachá temporário, minha pasta organizada e três cópias da minuta do comitê do dia anterior. A Sarah ainda não havia chegado, mas eu já sabia o que fazer: revisar a agenda do dia, imprimir a pauta das 9h e revisar a documentação de apoio dos dois primeiros itens.Era estranho como, em poucas semanas, aquele andar silencioso e formal havia se tornado parte do meu cotidiano. As portas de vidro, os carpetes escuros, a cafeteira programada para desligar sozinha em 10 minutos. Tudo tinha uma ordem. Tudo tinha um ritmo. E eu estava aprendendo a me mover dentro dele.O som da porta automática anunciou Sarah, pontual, pastas em mão.— Os documentos da reunião das 11h chegaram? — perguntou, sem tirar os óculos escuros.— Já estão separados na sua mesa, junto com as minutas aprovadas de sexta.Ela assentiu.— Traga cópias para mim e para o diretor de operações. E prepare o resumo do ponto três. Reduza para dois parágrafo
(Ceci)A manhã de terça amanheceu opaca. O céu de Veridiana, geralmente cortado pelo azul denso e firme, estava agora coberto por nuvens grossas, um cinza de chumbo que parecia antecipar chuva ou algo pior. No caminho para a Torre Arcturus, meu estômago revirava com uma sensação que não era fome nem ansiedade: era pressão. Silenciosa, firme, e constante.A Torre, como sempre, permanecia imponente. Um espelho de vidro apontado para o céu, como se desafiasse as nuvens. Entrei, o crachá temporário piscando verde. Tudo seguiu como nas outras manhãs: segurança atento, recepcionista profissional, elevador que sussurra.No 45º andar, minha estação estava exatamente como deixei. Mesa limpa, computador ligado, papel de rascunho no canto. Mas havia um envelope branco repousando ali. Sem remetente. Sem nome. Meu coração disparou por um segundo.Abri.Duas palavras apenas: "Cuidado, observação."Letra idêntica à dos bilhetes anteriores. Neutra. Precisa. Fria.Apertei os lábios, dobrei o papel e g
(Lívia)O briefing da Torre tinha terminado no fim da tarde, mas eu ainda sentia a tensão grudada nos ombros. Dante era um homem que não deixava margem para erro, e ver a Ceci naquela sala me deixou orgulhosa e preocupada ao mesmo tempo.Quando saí do prédio, minha cabeça estava acelerada. Não queria ir direto para casa. Precisava desligar. Uma colega me chamou para um bar no centro, e aceitei. O lugar tinha música alta, luz baixa, mesas lotadas de gente que queria esquecer o expediente. Pedi um gin logo na chegada.Desci pra pista, o DJ trocou o set, o grave subiu, o lugar inteiro tomou fôlego junto. Deixei a luz deslizar no meu rosto, deixei o corpo seguir a batida. Ombros, cintura, quadris calibrados no ritmo. Um cara tentou se aproximar, eu neguei com o olhar. Outro encostou demais, virei de costas sem culpa. Eu não queria companhia. Eu queria a sensação de não dever nada a ninguém. Às onze da noite, eu já tinha perdido a noção de quantos copos. Estava rindo alto, cabelo solto, bl
(Ceci)Cheguei à Torre às 8h05, na segunda-feira, com meu novo crachá temporário de acesso executivo, que Sarah havia solicitado na sexta-feira.Entrei com ela, ela estava elegante com sempre, com um cabelo em um coque perfeitamente alinhado, entramos no elevador ela apertou o bodão até o 39º andar, o breve trajeto foi silencioso, ocupado por poucas pessoas.— Hoje você vai se concentrar nas minutas — Sarah disse enquanto caminhávamos pelo corredor. — Duas reuniões seguidas: às 8h30 e às 10h. Cada uma com pauta clara, você vai registrar a decisão, o prazo, o responsável e o risco. O resto é detalhe.Assenti.Entramos na sala de reuniões. A mesa já estava preparada, documentos alinhados, telão ligado. Eu me posicionei discretamente, atrás de sara, caderno na mão para anotações rápidas.Primeira reunião: 8h30Assunto: contratos internacionais.Dante já estava na cabeceira.— Status das assinaturas? — perguntou.— Dois contratos prontos, faltando validação do compliance — disse o diretor
(Ceci)Cheguei à Torre Arcturus às 8h20. Usei o crachá provisório, conferi meu nome na recepção e segui para o elevador do 39º andar. Sarah havia sido objetiva no dia anterior: “Você vai para ouvir, anotar e aprender. Só isso.”O andar executivo é silencioso. Piso em mármore cinza, paredes claras, circulação limpa. As pessoas passam com foco. Nada de conversa desnecessária.Sarah me aguardava na antessala, com o tablet na mão.— Pontual — disse. — Traga seu caderno. Você fica atrás de mim.Entramos. Sala grande, mesa de madeira escura para vinte pessoas, parede de vidro com vista para a cidade. Diretores já sentados, materiais organizados. Sentei atrás de Sarah, à esquerda da cabeceira.Às 8h30, Dante entrou. Terno preto, gravata estreita. Sentou-se à cabeceira, colocou o celular na mesa e falou:— Vamos começar.O diretor de Operações projetou o primeiro slide. A pauta estava na ordem: contratos externos, câmbio, logística, auditorias, comunicação executiva, jurídico. Sem rodeios. Eu
Ceci O bilhete ficou onde eu o encontrei: no centro da minha mesa, letra sem floreio, seco como recado de síndico. “Cuidado com quem sorri.”Eu o fotografei, dei zoom, nada de pista. Guardei no envelope de “ocorrências” que comecei a montar por sugestão da Lívia. Virei a página do caderno e deixei o papel lá dentro. Eu não ia carregar nenhum recado anônimo no bolso como se fosse ameaça ativa. Eu iria trabalhar, porque precisava daquele estágio.Abri o e-mail e encontrei a agenda do dia: às 9h15, alinhamento de vocabulário com Sarah; às 11h, revisão de cronograma com o time técnico do hospital; às 14h, comitê de acompanhamento (o famoso C.A.), reunião onde eu, como estagiária, era figurante — mas Sarah pedira que eu operasse os slides. No rodapé da mensagem dela, um “Obrigada pela precisão ontem. S.”A palavra “precisão” me acalmou. Comecei pelo boletim. Ajustei a chamada “Quarto 12, Um Começo” para algo mais enxuto na manchete e mantive a história no primeiro parágrafo: nome trocado,
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