Mundo de ficçãoIniciar sessãoElysa vive isolada em uma imensa biblioteca decadente, tentando fugir do legado sombrio de seu pai — um lorde do crime cruel e implacável. Seu refúgio silencioso desmorona quando encontra um homem ferido à beira da morte. Durante um mês, enquanto ele permanece em coma, Elysa despeja nele seus segredos, sem saber que estava plantando a semente de algo perigoso. Quando seu pai aparece de surpresa, ela mente: diz que o estranho é seu namorado. Ele acorda. Sem memórias. E acredita. O que começou como proteção vira obsessão — e a biblioteca que antes a protegia se transforma numa nova prisão.
Ler maisA sala era de um cinza triste assim como a luz de um branco palido. E atrás dela, sentado como se o mundo ainda fizesse sentido, estava Ryan "Leo" Carter. O homem de muitos nomes e um único propósito obsessivo fixo em mim. Minhas algemas de ferro rangeram levemente contra o ferro da argola na mesa quando ajustei as mãos. A sensação era familiar, quase reconfortante. — Seu nome completo é Elysa Arsène Rossi? — Sua voz era controlada, profissional, mas uma veia pulsava em sua têmpora. — Sim — minha resposta foi um sopro seco. Ele anotou algo no bloco, um gesto inútil. Todos os nossos nomes já estavam escritos nas paredes desta sala, em sangue e mentiras. — Até um mês atrás, os registros mostram que você trabalhava como enfermeira no Hospital Municipal da cidade. — Ele ergueu os olhos, e neles eu vi a pergunta que o consumia, não como agente, mas como homem. Meu homem. — Pode me responder como você se tornou, da noite para o dia, a chefe da família Alighielli? Deixei o silênc
A invasão ao Armazém 7 foi um exercício de violência perfeita e silenciosa. Nenhum tiro. Apenas o estouro abafado das fechaduras com cargas de fractura, o ruído de botas de borracha no cimento úmido e o sussurro de comandos via rádio. Nós éramos sombras com forma de homem, nascidas da névoa noturna do cais. Kate liderava, um espectro de precisão. Eu era a sombra dela, meu coração batendo um ritmo tribal de antecipação. Cada passo dentro da escuridão do armazém era um passo mais perto dela. O cheiro nos atingiu primeiro: salmoura, ferrugem e, por baixo, o dulçor pesado do sangue recente. Seguimos o rastro como tubarões. Os guardas na entrada foram neutralizados com agulhas e pressão em pontos específicos do pescoço – técnica de Kate. Eles desabaram como bonecos com os fios cortados. A segunda leva, dentro do escritório improvisado, mal teve tempo de erguer as armas antes de se verem cercados, luzes táticas cegando-os, vozes gritando “FBI! No chão!”. E então, entramos no salão prin
A sala de interrogatório era um cubículo frio, iluminado por uma luz fluorescente que zumbia como um inseto preso. O capanga de Dante — um homem baixo e musculoso chamado Marco, com o rosto marcado por uma cicatriz que lhe cortava o lábio — estava acorrentado à mesa. Seus olhos, pretos e redondos como azeitonas, saltavam entre mim e Kate, que entrara com uma serenidade perturbadora.Sem uma palavra, Kate foi até o canto da sala, onde uma pequena câmera com uma luz vermelha piscava. Esticou o braço, seus dedos longos encontraram um botão quase invisível na parede, e pressionou-o. A luz vermelha morreu.— Agora podemos conversar — disse Kate, sua voz tão suave quanto o deslizar de uma faca na bainha. Ele puxou uma cadeira e sentou-se de frente para Marco, mas de lado para mim, um observador privilegiado. — O senhor Dante não está aqui para protegê-lo, Marco. O Éden caiu. Você é um elo solto.— Não falo nada — rosnou Marco, cuspindo as palavras. — S
O quarto cheirava a flores murchas e a algo mais doce, mais pesado, que ficava no fundo da garganta. A luz do fim de tarde entrava em ângulo pelo vitral, iluminando o pó que dançava sobre a cama de dossel. Sobre ela, Dante repousava.Eu havia arranjado flores frescas no criado-mudo. Gardênias, suas favoritas. Sentei-me na poltrona de veludo ao lado da cama, dobrando as pernas sob o corpo.— Eles estão inquietos, pai — disse, minha voz soando anormalmente clara no ambiente opressivo. — O Shoji tenta ser forte, mas ele é apenas um menino. Os outros também. Você deveria vê-los.Virei-me para ele. O perfil dele estava virado para mim. A pele, outrora pálida e poderosa, agora tinha uma tonalidade acinzentada e cerosa nas maçãs do rosto. No pescoço, justamente onde a gravata de seda que eu cuidadosamente arranjara encontrava a linha do maxilar, a pele havia cedido. Um movimento sutil, quase gracioso, acontecia lá. Minúsculas e pálidas, as larvas se contorciam em seu banquete silencioso, mer
(semanas antes) A cova era um corte escuro e úmido na terra fresca da colina. Um ferimento aberto na face do mundo. De pé à sua borda, eu segurava a pá com uma mão que não tremia, mas que parecia feita de chumbo. O caixão de carvalho, simples e digno, repousava no fundo. Dentro dele, Lorenzo. Dentro de mim, um deserto. Shoji estava ao meu lado, seu perfil uma linha dura contra o céu acinzentado. Ravish, Rei e Jasper estavam atrás de nós, um semicírculo silencioso de jovens com idades demais para seus anos. A ausência de Lorenzo era uma presença física, um peso que nos mantinha enraizados naquele solo sagrado e amaldiçoado. Minha avó, Lyra, entoou uma cantiga em uma língua que não entendia. As palavras soavam antigas, eram uma colagem de sons suaves e guturais que se entrelaçavam com o sussurro do vento nas árvores. Era um som de despedida, de bênção, de retorno à terra. Um som que deveria desatar lágrimas. Mas as minhas não vieram. Eu as sentia, um mar salgado e pesado preso atrá
O som do departamento era um zumbido constante, um ruído branco que mal penetrava a névoa da minha concentração. Eu estava diante de uma tela, analisando os esquemas de segurança do prédio na Rua das Acácias, mas minha mente estava em outro lugar. No vazio que a operação no Éden deixara. Foi muito limpo. Muito fácil. O cheiro chegou primeiro. Um aroma sutil de sabonete hospitalar e algo levemente adocicado. Um cheiro que não pertencia a esse lugar de suor, café e tensão. Um cheiro que fez algo na base do meu crânio se contrair, o cheiro da Elysa... Levantei os olhos. Kate estava de volta à sua mesa, adjacente à minha. Ele se sentou com uma graça fluida, seus movimentos econômicos e precisos. Seus cabelos castanhos, presos naquela trança impecável, brilharam sob a luz artificial. Ele não olhou para mim, focando em sua própria tela, mas a presença dele agora parecia diferente. Mais... consciente. Meus olhos se fixaram nele. Aquele rosto andrógino, aqueles olhos âmbar. Onde eu o
Último capítulo