Elysa vive isolada em uma imensa biblioteca decadente, tentando fugir do legado sombrio de seu pai — um lorde do crime cruel e implacável. Seu refúgio silencioso desmorona quando encontra um homem ferido à beira da morte. Durante um mês, enquanto ele permanece em coma, Elysa despeja nele seus segredos, sem saber que estava plantando a semente de algo perigoso. Quando seu pai aparece de surpresa, ela mente: diz que o estranho é seu namorado. Ele acorda. Sem memórias. E acredita. O que começou como proteção vira obsessão — e a biblioteca que antes a protegia se transforma numa nova prisão.
Leer másE lá estava ela. Elysa. Seu rosto, tão amado, era uma máscara pálida de angústia sob a luz vermelha e pulsante. Seus lábios, outrora tão firmes em sua determinação feroz, tremiam de forma incontrolável. E seus olhos… Oh, seus olhos. Não eram mais os olhos violeta acolhedores que eu conhecia. Eram duas poças de cor ameixa, de um tom sobrenatural que parecia sugar toda a luz ao redor, profundos como abismos e transbordando de uma dor tão absoluta, tão devastadora, que me fez fraquejar. Duas linhas prateadas de lágrimas cortavam a poeira e a frieza de seu rosto, escorrendo em um rio silencioso de desespero. Ela não era a caçadora. Naquele momento, diante de mim, ela era a própria caça, encurralada pela própria natureza. Era o monstro magnificente e a vítima trêmula, uma entidade única dilacerada por dentro. A fera que Dante e o sangue Lupin haviam forjado com martelos de crueldade, e a mulher que lutava com unhas e dentes para não se perder completamente n
Meus pulmões queimavam, cada arranque de ar era uma facada no peito. O som dos meus passos era um tambor frenético ecoando na câmara circular, mas era abafado por outro som – o suave arrastar de seda pesada e o click metálico e casual do metal do machado contra o chão de pedra. Ela não corria. Ela flutuava, uma aparição negra e inexorável, cortando o caminho através dos cânions de arquivos, sempre à minha frente, sempre mais perto. A realidade daquela visão – Elysa, o vestido, a máscara, o machado – era um choque tão profundo que quase me paralisou. Quase. O instinto de sobrevivência, mais forte que o amor, mais forte que a razão, mantinha minhas pernas se movendo. Eu me joguei para a esquerda, dobrando uma esquina formada por uma pilha de caixas podres, esperando me esconder. E lá estava ela. Não do outro lado do labirinto. Não à minha frente. Ela estava simplesmente lá, parada, como se sempre tivesse estado naquele exato ponto, bloquean
A passagem atrás do relógio não levava a um túnel, mas a um descenso vertiginoso por uma escada em caracol de ferro enferrujado, que gemia sob meus pés. O ar era frio e pesado, cheirava a papel velho, tinta desbotada e mofo. Quando finalmente alcancei o fundo, me vi em uma câmara circular, e meu fôlego ficou preso. Era uma sala de arquivos saída diretamente de um pesadelo. Prateleiras de metal enferrujado subiam até se perderem na escuridão do alto teto abobadado, abarrotadas de rolos de plantas de construção amareladas e encadernações de couro ressecado. Pilhas de caixas de arquivo mofadas se amontoavam no chão de pedra, formando cânions labirínticos. A única iluminação vinha de algumas luzes de emergência avermelhadas, embutidas na base das paredes, que lançavam sombras longas e distorcidas, fazendo os rolos de planta parecerem ossos desenterrados. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo meu coração batendo contra as costelas e pelo drip-drip distante de uma
O quarto cheirava a naftalina e flores murchas. Um santuário preservado em âmbar e poeira. E no centro, pendurado na frente do espelho empoeirado da minha mãe, estava um vestido. O vestido era de um preto tão profundo que engolia a luz, mas que, ao menor movimento, cintilava em rubi e violeta das jóias escondidas na trama do tecido. O corpete era justo, costurado em cetim, cravejado com minúsculas contas de ônix que formavam a silhueta de raposas em fuga da cintura até o busto. As mangas eram longas e translúcidas, feitas de uma renda estampada com um padrão de galhos de espinheiro, que se apertavam nos pulsos como garras. Mas a peça central era a saia. Uma explosão de tule e seda que caía em cascata, pesada e implacável. Entre as camadas de tecido, fios de prata finíssimos foram bordados, lembrando teias de aranha sob a lua. Era um vestido para matar. Literalmente. A última criação da minha mãe antes de Dante a trancar neste mesmo quarto e apagar sua l
A madeira do relógio de pêndulo era escura e imponente, uma sentinela silenciosa encostada na parede mais sombria da biblioteca do avô. Não era um relógio qualquer; era uma peça de museu, intrincada, com gravuras de lobos e raposas correndo em uma floresta estilizada ao redor do mostrador de números romanos. O pêndulo, um disco de latão pesado e polido, estava imóvel. Parado no tempo. Como eu. O manual aberto no chão ao meu lado era um emaranhado de linhas e instruções que pareciam mais uma fórmula alquímica do que uma orientação para consertar um mecanismo. Eu já havia limpado as engrenagens, verificado a mola mestra, ajustado o escapamento. Tudo funcionava perfeitamente. O tic-tac, quando eu o colocava em movimento, era metronômico, hipnótico. Mas era só isso. Um som vazio. O segredo não estava no movimento. Estava no som. O manual, na sua página final, era vago e poético, escrito por uma mente que via beleza na obscurid
Abri os olhos devagar, deixando a visão se ajustar à penumbra do amanhecer. Elysa dormia enrolada contra mim, uma das mãos enfiada sob a minha camisa, abertamente possessiva mesmo no inconsciente. Um fio de cabelo escuro escapara do seu rabo de cavalo desfeito e caíra sobre seu rosto. Tive que conter um impulso quase incontrolável de estender a mão e afastá-lo. Não queria perturbar aquele raro momento de perfeita quietude. Ela parecia mais jovem assim, menos a herdeira de um império de sangue e mais a garota do diário, a que ainda acreditava em histórias de lobinhos ladrões.E foi esse pensamento que cortou a serenidade como uma lâmina.O diário. As palavras da pequena Elysa ecoaram na minha mente, nítidas e venenosas. "Eu encontrei o caminho relógio antes dela..."O caminho relógio.A frase martelou dentro do meu crânio, insistente, tirando todo o conforto do momento. Não era apenas uma memória dolorosa; era uma pista. A única pista concreta que
Último capítulo