Mundo de ficçãoIniciar sessãoElysa vive isolada em uma imensa biblioteca decadente, tentando fugir do legado sombrio de seu pai — um lorde do crime cruel e implacável. Seu refúgio silencioso desmorona quando encontra um homem ferido à beira da morte. Durante um mês, enquanto ele permanece em coma, Elysa despeja nele seus segredos, sem saber que estava plantando a semente de algo perigoso. Quando seu pai aparece de surpresa, ela mente: diz que o estranho é seu namorado. Ele acorda. Sem memórias. E acredita. O que começou como proteção vira obsessão — e a biblioteca que antes a protegia se transforma numa nova prisão.
Ler maisO mundo se reduziu ao contato frio do metal contra meus pulsos, à pressão humilhante das minhas próprias algemas mordendo minha pele, e ao calor do corpo dela pairando sobre mim. Seu sussurro no meu ouvido era um veneno doce, e por um segundo, a fúria foi engolfada por uma onda de puro desejo. — Elysa! — gemi, tentando forçar meus braços, sentindo as juntas protestarem. A mesa não cedia. — Você não vai sair daqui. Essa sala tem câmeras. Tem gente atrás daquele vidro. Elysa recuou o suficiente para que eu visse seu rosto. E ela… riu. Um som baixo, genuíno, que fez seus olhos escuros brilharem com uma luz perversa. — Câmeras? — ela repetiu, como se a palavra fosse deliciosamente absurda. Lentamente, ela apontou com o queixo para o canto superior da sala, onde a pequena lente preta estava encastelada. — Aquela ali, você quer dizer? A que você mesmo desligou, Ryan? Lembra? Para ter uma ‘conversinha’ mais persuasiva com o pobre Marco? O sangue congelou nas minhas veias. A memória volt
A sala era de um cinza triste assim como a luz de um branco palido. E atrás dela, sentado como se o mundo ainda fizesse sentido, estava Ryan "Leo" Carter. O homem de muitos nomes e um único propósito obsessivo fixo em mim. Minhas algemas de ferro rangeram levemente contra o ferro da argola na mesa quando ajustei as mãos. A sensação era familiar, quase reconfortante. — Seu nome completo é Elysa Arsène Rossi? — Sua voz era controlada, profissional, mas uma veia pulsava em sua têmpora. — Sim — minha resposta foi um sopro seco. Ele anotou algo no bloco, um gesto inútil. Todos os nossos nomes já estavam escritos nas paredes desta sala, em sangue e mentiras. — Até um mês atrás, os registros mostram que você trabalhava como enfermeira no Hospital Municipal da cidade. — Ele ergueu os olhos, e neles eu vi a pergunta que o consumia, não como agente, mas como homem. Meu homem. — Pode me responder como você se tornou, da noite para o dia, a chefe da família Alighielli? Deixei o silênc
A invasão ao Armazém 7 foi um exercício de violência perfeita e silenciosa. Nenhum tiro. Apenas o estouro abafado das fechaduras com cargas de fractura, o ruído de botas de borracha no cimento úmido e o sussurro de comandos via rádio. Nós éramos sombras com forma de homem, nascidas da névoa noturna do cais. Kate liderava, um espectro de precisão. Eu era a sombra dela, meu coração batendo um ritmo tribal de antecipação. Cada passo dentro da escuridão do armazém era um passo mais perto dela. O cheiro nos atingiu primeiro: salmoura, ferrugem e, por baixo, o dulçor pesado do sangue recente. Seguimos o rastro como tubarões. Os guardas na entrada foram neutralizados com agulhas e pressão em pontos específicos do pescoço – técnica de Kate. Eles desabaram como bonecos com os fios cortados. A segunda leva, dentro do escritório improvisado, mal teve tempo de erguer as armas antes de se verem cercados, luzes táticas cegando-os, vozes gritando “FBI! No chão!”. E então, entramos no salão prin
A sala de interrogatório era um cubículo frio, iluminado por uma luz fluorescente que zumbia como um inseto preso. O capanga de Dante — um homem baixo e musculoso chamado Marco, com o rosto marcado por uma cicatriz que lhe cortava o lábio — estava acorrentado à mesa. Seus olhos, pretos e redondos como azeitonas, saltavam entre mim e Kate, que entrara com uma serenidade perturbadora.Sem uma palavra, Kate foi até o canto da sala, onde uma pequena câmera com uma luz vermelha piscava. Esticou o braço, seus dedos longos encontraram um botão quase invisível na parede, e pressionou-o. A luz vermelha morreu.— Agora podemos conversar — disse Kate, sua voz tão suave quanto o deslizar de uma faca na bainha. Ele puxou uma cadeira e sentou-se de frente para Marco, mas de lado para mim, um observador privilegiado. — O senhor Dante não está aqui para protegê-lo, Marco. O Éden caiu. Você é um elo solto.— Não falo nada — rosnou Marco, cuspindo as palavras. — S
O quarto cheirava a flores murchas e a algo mais doce, mais pesado, que ficava no fundo da garganta. A luz do fim de tarde entrava em ângulo pelo vitral, iluminando o pó que dançava sobre a cama de dossel. Sobre ela, Dante repousava.Eu havia arranjado flores frescas no criado-mudo. Gardênias, suas favoritas. Sentei-me na poltrona de veludo ao lado da cama, dobrando as pernas sob o corpo.— Eles estão inquietos, pai — disse, minha voz soando anormalmente clara no ambiente opressivo. — O Shoji tenta ser forte, mas ele é apenas um menino. Os outros também. Você deveria vê-los.Virei-me para ele. O perfil dele estava virado para mim. A pele, outrora pálida e poderosa, agora tinha uma tonalidade acinzentada e cerosa nas maçãs do rosto. No pescoço, justamente onde a gravata de seda que eu cuidadosamente arranjara encontrava a linha do maxilar, a pele havia cedido. Um movimento sutil, quase gracioso, acontecia lá. Minúsculas e pálidas, as larvas se contorciam em seu banquete silencioso, mer
(semanas antes) A cova era um corte escuro e úmido na terra fresca da colina. Um ferimento aberto na face do mundo. De pé à sua borda, eu segurava a pá com uma mão que não tremia, mas que parecia feita de chumbo. O caixão de carvalho, simples e digno, repousava no fundo. Dentro dele, Lorenzo. Dentro de mim, um deserto. Shoji estava ao meu lado, seu perfil uma linha dura contra o céu acinzentado. Ravish, Rei e Jasper estavam atrás de nós, um semicírculo silencioso de jovens com idades demais para seus anos. A ausência de Lorenzo era uma presença física, um peso que nos mantinha enraizados naquele solo sagrado e amaldiçoado. Minha avó, Lyra, entoou uma cantiga em uma língua que não entendia. As palavras soavam antigas, eram uma colagem de sons suaves e guturais que se entrelaçavam com o sussurro do vento nas árvores. Era um som de despedida, de bênção, de retorno à terra. Um som que deveria desatar lágrimas. Mas as minhas não vieram. Eu as sentia, um mar salgado e pesado preso atrá
Último capítulo