Mundo de ficçãoIniciar sessãoEla entrou na vida dele por uma noite. Voltou como a única coisa que ele não consegue controlar. Após uma traição devastadora, Ana decide recomeçar longe de tudo o que a quebrou. Sem família, sem apoio e determinada a seguir em frente, ela se muda para São Francisco e aceita um emprego como babá residente, um trabalho que representa estabilidade, moradia e um futuro possível. O que Ana não esperava era reencontrar Natan Roman. CEO bilionário, frio e obsessivamente controlador, Natan nunca esqueceu a noite em que Ana cruzou seu caminho e desapareceu antes do amanhecer. Agora, ela está em sua casa. Sob seu teto. Cuidando de sua filha. Ele sabe que não pode tocá-la. Ela é sua funcionária. Ela é proibida. Mesmo assim, quanto mais Natan tenta manter distância, mais Ana ocupa seus pensamentos. O desejo cresce em silêncio, transformando-se em algo intenso, possessivo e difícil de conter. O controle, sua maior arma, começa a falhar, e a ideia de perdê-la se torna intolerável. Entre regras rígidas, tensão constante e sentimentos que ultrapassam limites perigosos, Ana e Natan se veem presos em um jogo onde desejo e poder caminham lado a lado. Uma história intensa sobre obsessão, atração proibida e o risco de se perder quando se tenta controlar demais.
Ler maisA casa tinha ficado grande demais desde que a mãe de Ana morreu.
Não era uma casa grande de verdade, mas o silêncio fazia parecer que os cômodos haviam se multiplicado durante a noite. O sofá continuava no mesmo lugar, a mesa da cozinha tinha as mesmas marcas antigas, o relógio na parede ainda marcava as horas com a mesma insistência irritante. Ainda assim, tudo parecia fora de proporção. Como se a ausência tivesse se espalhado, ocupando cada espaço que antes era preenchido por uma presença simples e constante. Ana estava sentada na beirada da cama quando o despertador tocou. Não tinha dormido direito. Ultimamente, dormir era mais um intervalo curto do que descanso. Ela fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo e deixou que o alarme tocasse até o último segundo possível, como se desligá-lo fosse um compromisso que ela ainda não estivesse pronta para assumir. Desde a morte da mãe, tudo parecia funcionar assim. Adiar pequenos gestos. Adiar sentimentos. Adiar a dor. Ela se levantou devagar, sentindo o corpo pesado, como se tivesse envelhecido anos em poucos meses. Caminhou até o banheiro, lavou o rosto com água fria e encarou o próprio reflexo no espelho. Os olhos ainda eram os mesmos, grandes e expressivos, mas agora carregavam algo novo. Um cansaço que não tinha relação com noites mal dormidas. Era um cansaço mais fundo, mais silencioso. Um desgaste que não se resolvia com descanso. Tinha vinte anos, mas às vezes se sentia muito mais velha. Outras vezes, pequena demais para lidar com tudo aquilo. A toalha de banho da mãe ainda estava pendurada atrás da porta. Ana sabia que poderia tirá-la, guardá-la no armário ou simplesmente jogá-la fora. Mas não fazia. Era uma daquelas coisas que ela evitava tocar, como se aquele pedaço de tecido fosse frágil demais para suportar uma decisão. Enquanto estivesse ali, algo da mãe ainda ocupava espaço na casa. Vestiu uma calça jeans simples, uma camiseta clara e prendeu o cabelo em um coque desajeitado. Não se preocupou com maquiagem. Nunca foi alguém que se produzia muito, e, honestamente, ninguém parecia notar. Desde a morte da mãe, Ana tinha aprendido a passar despercebida. Era mais fácil assim. Na cozinha, preparou café apenas para uma pessoa. Esse detalhe ainda doía mais do que gostaria de admitir. Antes, sempre fazia duas xícaras automaticamente. Agora, precisava se lembrar de que não havia mais ninguém para reclamar que estava fraco demais ou doce demais. Tomou o café em silêncio, apoiada na bancada, olhando pela janela. O mundo seguia normal demais para o gosto dela. Pessoas indo trabalhar, vizinhos conversando, carros passando. Tudo funcionando como se nada tivesse acontecido. Como se a vida não tivesse parado de maneira brutal dentro dela. Se manteve firme por causa de um plano. Era isso que repetia para si mesma sempre que sentia vontade de desistir. Ela tinha um plano. Continuar a faculdade. Trabalhar quando desse. Não perder o ritmo. Não se perder de vez. O quinto semestre de Direito tinha começado poucas semanas depois do funeral. Ana quase trancou a matrícula. Passou noites encarando o formulário online, o cursor piscando na tela, esperando uma decisão que nunca vinha. No fim, não trancou. Não por força, mas por medo. Medo de parar e nunca mais conseguir voltar. A faculdade tinha se tornado uma espécie de âncora. Não porque ela amasse o curso, embora gostasse da ideia de justiça, de regras claras em um mundo que parecia injusto demais, mas porque era algo concreto. Algo que ainda pertencia ao futuro. Tomás tinha sido importante nesse período. Muito mais do que ela esperava. Eles já estavam juntos quando sua mãe adoeceu, mas o relacionamento ganhou outra dimensão depois da morte. Ele aparecia sem avisar, trazia comida, insistia para que ela comesse. Ficava em silêncio quando Ana não tinha vontade de falar. Segurava sua mão nos dias em que ela simplesmente não conseguia levantar da cama. Era fácil confundir cuidado com amor naquele momento. Ana sabia que não estava inteira. Sabia que ainda estava em luto. Por isso, impôs limites que Tomás dizia entender. Eles se beijavam, trocavam carícias tímidas, dormiam juntos algumas vezes, sempre vestidos, sempre respeitando o espaço que ela ainda precisava. O sexo ficava como uma linha que ela não conseguia atravessar. Não por falta de desejo, mas por falta de segurança. Algo dentro dela ainda não estava pronto para se entregar daquele jeito. Tomás dizia que esperava. Que não havia pressa. Que a amava. Ela acreditava. Naquele dia, Ana saiu da faculdade mais cedo. As últimas aulas tinham sido canceladas, e, pela primeira vez em semanas, ela sentiu uma pontada de animação. Pensou em surpreendê-lo. Não tinha avisado que sairia mais cedo. Pegaria um ônibus até o apartamento dele e apareceria de repente, como antes, quando tudo ainda parecia simples. Talvez pudessem passar a tarde juntos. Talvez pudessem jantar. Talvez conversar sobre coisas pequenas, sem peso, sem morte, sem luto. Era disso que ela precisava. Um momento normal. O caminho até o apartamento de Tomás parecia mais curto do que o habitual. O prédio era antigo, mas luxuoso, sempre teve cheiro de café, um cheiro que, estranhamente, se tornara familiar para Ana. Subiu as escadas de dois em dois degraus, sentindo o coração acelerar não por nervosismo, mas por uma expectativa ingênua que ela não sentia há tempos. A chave estava no fundo da bolsa. Ele tinha dado meses antes, dizendo que ela podia entrar quando quisesse. Era um gesto simples, mas, para Ana, significava confiança. Abriu a porta devagar, esperando encontrar o apartamento silencioso. Não encontrou. No início, foi apenas um som confuso. Algo abafado. Uma respiração diferente. Ela parou no meio da sala, franzindo o cenho, tentando identificar de onde vinha. Pensou que talvez Tomás estivesse assistindo televisão ou falando ao telefone. Então ouviu um gemido. O coração de Ana bateu tão forte que pareceu fazer barulho dentro dos ouvidos. Ficou parada por alguns segundos, o corpo inteiro entrando em estado de alerta, como se ainda houvesse tempo de não entender o que estava acontecendo. Mas havia. Ela caminhou pelo corredor estreito, cada passo mais pesado que o outro. A porta do quarto estava entreaberta. A cena que se formava ali dentro não precisava de explicações. Era clara demais. Nítida demais. Cruel demais. Karen. Sua amiga de anos. O corpo de Ana reagiu antes da mente. O ar desapareceu dos pulmões. As pernas ficaram fracas. O chão pareceu inclinar. Os sons continuaram, impiedosos, quebrando cada pedaço que ainda estava inteiro dentro dela. Por um momento, ninguém percebeu sua presença. E talvez aquele instante tenha sido o pior de todos. O momento em que ela viu demais. Ouviu demais. Entendeu demais. Quando tentou se virar para sair, o movimento fez um barulho mínimo. Um roçar de tênis no chão. Nada significativo. Mas foi o suficiente. O rosto de Tomás se virou na direção dela. Os olhos deles se encontraram. E tudo acabou ali. Ana não gritou. Não discutiu. Não pediu explicações. Apenas sentiu algo se romper dentro de si, algo que jamais voltaria a ser como antes.O hospital parecia excessivamente iluminado para aquele horário. As paredes brancas refletiam uma frieza clínica que não combinava com o que se passava ali dentro. Natan atravessou a recepção da emergência sem olhar para os lados; o passo era mais rápido do que o habitual, a respiração controlada apenas na aparência. Havia tensão suficiente no modo como segurava o telefone para denunciar que o domínio não estava completo. Nada, porém, o preparou para ver Dora sentada na cadeira metálica do corredor, as mãos entrelaçadas sobre a bolsa, os ombros rígidos, o olhar fixo na porta dupla que dava acesso à ala de trauma. Ela se levantou imediatamente ao reconhecê-lo. — Senhor Roman. Ele não respondeu ao cumprimento. Não era desrespeito; era foco absoluto. — Onde ela está? — Está na emergência. Estão fazendo exames, mas não disseram muito ainda — Dora respondeu, com esforço evidente para manter a voz estável. — Disseram que estão avaliando… pode ser que precisem operar. Operar. A palavr
O telefone tocou às 00h10. Dora despertou no segundo toque. O quarto ainda estava escuro, silencioso, imóvel como apenas as madrugadas sabem ser. O número no visor era desconhecido, e ligações desconhecidas naquele horário nunca carregavam trivialidades. Ela se sentou na cama antes mesmo de atender. — Alô? Do outro lado, a voz era profissional, neutra, mas não casual. — Senhora Dora? Estamos ligando do Saint Matthew Medical Center. A senhora é o contato de emergência de Ana Martins? O nome atingiu antes da explicação. — Bem… sim, sou — respondeu, já totalmente desperta. Dora lembrava perfeitamente do formulário preenchido meses antes. Ana havia acabado de ser admitida na faculdade e não tinha ninguém na cidade. Sem parentes próximos. Sem família por perto. Na época, quase constrangida, havia pedido que colocasse seu nome como contato de emergência. Ela não hesitou. Agora, naquele horário, entendia o peso daquela escolha. — A senhorita Martins deu entrada após um
A aula terminou às 22h30. O prédio já estava quase vazio quando Ana saiu pelo corredor lateral em direção às escadas externas. O eco dos próprios passos parecia ampliado pelo silêncio da noite. O ar frio entrava pelas portas de vidro semiabertas, trazendo aquela sensação incômoda de que o campus mudava depois de determinado horário. Ela não o viu primeiro. Sentiu. A presença atrás dela veio antes da imagem. Quando virou à esquerda para acessar a escada de serviço, o caminho mais rápido até o estacionamento, ele surgiu da sombra atrás de uma coluna estrutural. Marcelo. Mais perto do que jamais estivera. Antes que conseguisse reagir, ele segurou o braço dela com força e a puxou bruscamente para trás. — Vem aqui. — Me solta! A outra mão veio rápida, cobrindo a boca dela e abafando o grito. O pânico foi imediato, físico, quase elétrico. Ele a arrastou para o corredor técnico ao lado das escadas, um trecho parcialmente escondido por paredes de concreto, mal iluminado, usado apen
Uma semana havia passado desde o encontro no café. Tempo suficiente para que o impacto imediato deixasse de ser choque e se transformasse em algo mais persistente. Não doía mais como uma ruptura recente. Doía como uma ausência instalada. Ana tentou transformar o que sentia em disciplina. Acordava cedo, organizava o dia com precisão e preenchia cada hora com tarefas objetivas, como se produtividade pudesse substituir falta. Chorou mais do que gostaria de admitir, mas sempre sozinha. À noite. Em silêncio. Não era desespero. Não era drama. Era a constatação de que alguém havia ocupado um espaço que ela jurava saber manter vazio. A falta dele se manifestava nos detalhes mais banais: o impulso automático de olhar o telefone antes de dormir, como se houvesse algo a responder; a vontade quase inconsciente de dividir pequenas conquistas do dia; a lembrança do cheiro dele surgindo sem aviso quando caminhava sozinha pela rua. Memória tem essa crueldade, aparece quando não é chamada. A
Ana só percebeu que estava tremendo quando entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si. No café, manteve a postura. Voz firme. Olhar estável. Frases medidas. Era isso que ele sempre valorizou nela, controle. Mas quando ficou sozinha, a máscara não servia para nada. Encostou as costas na porta e deixou o ar sair devagar. Não era raiva o que sentia. Também não era arrependimento. Era algo mais confuso, uma mistura de alívio e perda que brigava dentro do peito como se quisesse ocupar o mesmo espaço. Ele tinha ido atrás dela. Depois de semanas. Depois de silêncio. Depois de tudo. Isso deveria ter facilitado as coisas. Mas só tornou mais difícil. Ela caminhou até a pequena sala do apartamento, deixou a bolsa sobre a mesa e ficou alguns segundos parada, olhando nada. A imagem dele sentado à frente dela insistia em voltar, a pergunta que ele fez, a maneira como ele a olhou. “Você realmente quer que eu me afaste?” Ela fechou os olhos. Não era isso que ela qu
Cinco semanas foram suficientes para que a cidade retomasse o ritmo habitual. As manchetes perderam relevância, novas crises ocuparam espaço nos portais e o mercado voltou ao seu equilíbrio previsível. A governança foi ajustada com precisão, o conselho seguiu adiante e os relatórios voltaram a apresentar estabilidade técnica. Para fora, tudo havia sido absorvido. O episódio entrava, discretamente, para o histórico de ruídos superados. Mas dentro dele nada havia retornado ao eixo. Natan soube que Ana estava novamente em São Francisco da maneira como sempre soube de qualquer coisa: sem alarde, apenas informação precisa. Ele não solicitou relatórios detalhados nem autorizou monitoramentos invasivos. Apenas ouviu que ela retomara a rotina, que alugara um apartamento próximo à universidade e que costumava frequentar, nas tardes de quarta-feira, um pequeno café onde estudava. Foi o suficiente. Ele esperou dois dias antes de ir. Não foi impulso. Tampouco foi coincidência. Estaciono










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