Pus o pé na porta do quarto improvisado e o coração se apertou. Ele estava lá, imóvel sob o cobertor, como uma escultura de gesso. O soro gotejava no cateter, um som pequeno e constante que parecia a contagem regressiva da minha sanidade. O monitor cardíaco piscava, uma luz vermelha fria, o único sinal de que aquele corpo silencioso abrigava vida. Meu santuário. Meu labirinto de livros, agora profanado por um estranho que trazia o cheiro do perigo e o peso de um segredo sangrento vindo da estrada. O mês que se seguiu foi uma dança entre o silêncio e as palavras. Minha casa, antes um refúgio solitário, agora tinha duas respirações: a minha, sempre ansiosa, e a dele, tão serena e profunda. As manhãs começavam com o ritual sagrado de cuidar: verificar seus sinais vitais, trocar o soro, alimentá-lo pela sonda. Depois, sentava ao seu lado, na beira da cama estreita, e abria um livro. — Os amantes se perderam no tapete, diante da lareira fria, sob as estrelas pintadas no teto... El
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