Mundo ficciónIniciar sesiónQuando a vida de Olívia desmorona, ela decide recomeçar — discretamente, passo a passo. O novo trabalho ao lado da família de Guilherme, um empresário viúvo que carrega culpas que não confessa a ninguém, parecia apenas uma chance de estabilidade. Mas as rotinas simples abrem espaço para algo maior: as crianças voltam a sorrir, o silêncio da casa muda… e o passado começa a pedir respostas. Enquanto Olívia descobre uma força que nunca imaginou ter, Guilherme precisa escolher entre proteger-se para sempre ou arriscar o coração novamente. Pressões externas, decisões judiciais e segredos guardados há anos colocam tudo em risco — inclusive o futuro que eles mal tiveram tempo de sonhar. Uma história sobre cura, confiança e o poder das segundas chances — onde o amor não chega com alarde, mas transforma tudo quando finalmente é aceito.
Leer másEu cresci aprendendo que a gente só descansa quando já não tem outra opção. Trabalhei cedo, cuidei de primo, de vizinho, de filho emprestado. Escola, só até onde deu. O resto veio do improviso — e da necessidade. E, naquela manhã, necessidade era o que mais tinha.
Meu celular vibrou na cama, e eu quase deixei cair de tanto nervosismo. — Olivia? — Catarina falou, apressada, como sempre. — Falei com ele. Marcou entrevista pra hoje. Três da tarde. Não chega atrasada nem por milagre. Meu estômago apertou. — Ele… ele pareceu simpático? Ela riu. — Simpático não é a palavra. Mas é justo. E — fez uma pausa — é rico. Muito. Só não fala nada sobre a ex-cunhada dele. Nem por brincadeira. — Por quê? — Longa história. Depois te conto. Só vai. Eu respirei fundo. Dei um jeito no cabelo, escolhi a blusa menos surrada que eu tinha e passei um batom que estava velho, mas ainda me lembrava que eu existo. O portão era alto. A casa, maior do que a rua inteira em que cresci. Jardim desenhado, cada planta no lugar exato — nada ali parecia ter sido colocado por acaso. Um senhor de passos calmos veio abrir. — Você é a Olivia — disse, com um sorriso que parecia casa arrumada. — Sou o Sebastião. Entra, minha filha. Caminhei ao lado dele, tentando não mostrar que minhas mãos suavam. — Fica tranquila — ele disse, como se lesse pensamentos. — Aqui é grande, mas o coração da casa é simples. Eu sorri, sem tanta certeza disso. A porta se abriu. E ele apareceu. Guilherme. Terno impecável, relógio caro, olhar firme e desconfiado. Não era o tipo de homem que se curva — era o tipo de homem que o mundo se curva para ele. E, no entanto, havia um cansaço escondido ali, bem no fundo. — Olivia? — perguntou, direto. — Sim. Ele abriu espaço para eu entrar, sem sorrir. A sala era bonita e… estranha. Poltronas perfeitas, janelas enormes, mas algo faltava. Como se a casa respirasse pela metade. — Catarina confia em você — disse ele. — E isso pesa a favor. Mas vou ser claro: não quero confusão, não quero dramas, e não aceito interferências externas. Assenti. — Eu só quero trabalhar. Ele estreitou os olhos, avaliando. — Ótimo. — Fez um gesto para que eu o seguisse até a biblioteca. — Sente-se. Eu me sentei na ponta da cadeira, tentando parecer segura. — Minha ex-cunhada anda… — ele respirou, controlando a irritação — questionando minhas decisões. Especialmente sobre as crianças. E eu não vou permitir que alguém seja colocado aqui para me vigiar. Então, vou perguntar diretamente: alguém te pediu para me “observar”? A pergunta veio como um golpe. — Não — respondi, firme. — Eu nem conheço sua família. Eu só preciso do emprego. Ele sustentou meu olhar. Por alguns segundos, o silêncio pareceu uma prova. — Certo — disse, enfim. — Prefiro assim. Nesse momento, passos pequenos ecoaram no corredor. — Papai! — A menina de laço torto apareceu na porta. Olhos grandes, atentos. — O Sebastião disse que chegou gente. — Sofia, esse é a Olivia — ele falou. — Pode ser que ela trabalhe com a gente. O menino surgiu logo depois, correndo com um carrinho. — Você sabe fazer bolo de chocolate? — perguntou, como quem define o destino. — Aprendi com a melhor — respondi. — Mas só nos fins de semana. Ele sorriu. Sofia, porém, ficou séria. Observando. Guardando. Dona Mirtes chegou em seguida, cheirando a comida boa e afeto antigo. — Seja bem-vinda, querida. — Ela tocou meu braço com carinho. — Vai ver que a casa é grande, mas o dia passa voando. Ela e Guilherme trocaram um olhar curto, quase cúmplice. Ela parecia ter criado aquele homem a t***s de carinho — e oração. Voltamos à conversa. Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa. — As crianças estão em fase difícil. Eu trabalho muito. — Pausa. — Eu não erro com meu negócio. Mas… com eles, às vezes eu falho. Houve honestidade ali — dura, mas real. — Criança não precisa de perfeição — falei, sem pensar demais. — Precisa de presença. E de limite. Um canto da boca dele quase ameaçou um sorriso — mas morreu no meio do caminho. — O salário é esse. — Empurrou o papel. Não era extraordinário para aquele padrão. Para o meu, era sobrevivência. — Aceito. Ele assentiu. — Começa amanhã. E uma última coisa: se a Ana — encarou-me, sério — tocar no assunto “crianças”, você me procura. Não responde. Não discute. Me procura. Guardei aquela informação como quem guarda fósforo perto de gasolina. Na saída, Seu Sebastião molhava as rosas. — Deu certo? — perguntou. — Deu. Ele suspirou aliviado. — Então, seja firme. Tem muita gente querendo mandar aqui. E essas crianças… precisam de alguém que veja além. Olhei para a casa e senti — havia segredos. E vigias invisíveis. Voltei cedo no dia seguinte. Sofia estava na mesa, desenhando com atenção extrema. Pedro brincava de avião. — Bom dia — falei. — Bom dia — ela respondeu, sem largar o lápis. — A gente vai montar um quadro de horários. — Mostrei o caderno. — Com desenhos. Quem quer ajudar? Pedro levantou a mão na mesma hora. — Eu desenho o banho! — Negócio fechado. Enquanto planejávamos o dia, ouvi passos firmes. Guilherme surgiu, já de terno, mas com olheiras. Não havia cheiro de álcool — havia excesso de trabalho. — Sofia, mochila. Pedro, tênis — disse, automático. — A gente tava fazendo o quadro — Pedro explicou. — Depois — ele respondeu, curto. Eu me aproximei. — Dois minutos e ajuda mais tarde — sugeri. — Eles colaboram melhor quando participam. Ele me lançou um olhar de “não tenho tempo”, mas hesitou. Respirou. — Dois minutos. Sofia me encarou com surpresa. Um acordo silencioso nasceu ali. Quando ele se virou para pegar as chaves, ouvi seu celular vibrar. Ele viu o nome na tela — Ana — e o maxilar travou. Desligou sem atender. Sofia percebeu. As crianças percebem tudo. — Tchau, pai — ela disse, baixinho. Ele se inclinou e beijou a testa dela. Rápido, quase tímido. — Tchau, filha. A porta fechou. O eco ficou. Sentei ao lado de Sofia. — Tudo bem? — A tia Ana não gosta daqui — murmurou. — Diz que o papai não sabe ser pai. Me deu um aperto no peito. — Às vezes os adultos falam com medo — respondi. — Nem sempre estão certos. Ela me olhou — desconfiada, mas curiosa. — Você vai ficar? Sorri. — Vou tentar. E, enquanto eu ficar, a gente vai fazer o quadro funcionar. Ela desenhou um sol. Pequeno, mas firme. Enquanto ajudava Dona Mirtes na cozinha, ouvi vozes baixas do lado de fora. Era Seu Sebastião. — Ele tá espinhento por causa da Ana — disse ele. — E quem não ficaria? — respondeu Dona Mirtes. — Depois do que aconteceu com a Vitória, todo mundo acha que entende a dor dele. Eu fingi que não escutava — mas senti a sombra dessa tal “história”. Voltei para as crianças. Fizemos dever, lanche, brincadeira. Pedro me contou que gosta de dinossauros “porque eles eram grandes, mas desapareceram”. Sofia disse que não gosta de barulho. Eu entendi os dois. No fim da tarde, enquanto recolhia os brinquedos, pensei: essa casa parece um castelo. Bonito. Protegido. E cheio de portas trancadas. E eu tinha acabado de receber a chave… Mas não fazia ideia do que, um dia, iria encontrar atrás delas.Já era noite.Olivia despertou com dificuldade, como se o corpo estivesse sendo puxado de um lugar pesado e sem forma. A primeira sensação foi a dor, uma dor surda e pulsante que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo. O rosto queimava, o maxilar latejava, a cabeça martelava em ondas violentas.Ela tentou se mover.O metal frio nos pulsos respondeu antes do cérebro.Algemas.O coração disparou.A memória veio em fragmentos bruscos, imagens desconexas que se encaixavam à força.A cafeteria.Antônio.A mão apertando seu braço.A calçada.As pessoas olhando.— Parece briga de casal…— Esses jovens de hoje…Depois o carro.A luta.Os xingamentos.— Você não vai me impedir, Olivia. Eu vou acabar com ele. Você escutou? Eu vou destruir aquele homem.Então o golpe.O punho.Seu rosto.A dor explodindo.E o mundo apagando.Olivia abriu os olhos de vez.O quarto era escuro.Sem janelas.Apenas paredes ásperas, sujas, e um pequeno buraco próximo ao teto, por onde entrava um fio miserável d
Olivia encarava o celular como se ele pesasse quilos.O nome ainda estava salvo ali.Antônio.Ela respirou fundo uma vez. Depois outra. O coração batia alto demais para alguém sentado sozinha numa pequena pousada.— O que você vai fazer, Olivia? — murmurou para si mesma.Os pensamentos vinham em ondas desordenadas.Guilherme.As crianças.A carta.A dor.E, agora, a decisão que parecia loucura.Ela apertou o botão de chamada antes que a coragem desaparecesse.Chamou.Um toque.Dois.Três.— Olivia? — a voz dele surgiu do outro lado, carregada de surpresa quase teatral. — Que coincidência agradável.Ela fechou os olhos por um instante.— Antônio… precisamos conversar.Houve uma pausa curta.— Conversar? — ele repetiu, curioso. — Claro. Sempre que você quiser.— Hoje.Ele riu baixo.— Você parece séria. Isso é preocupante… ou interessante?Olivia ignorou.— Onde podemos nos encontrar?— Um café — ele respondeu prontamente. — Lugar neutro. Tranquilo.Tem uma cafeteria perto do centro. Vo
Guilherme atravessou a sala como um homem em queda.Passou por Dona Mirtes rápido demais, o ombro quase a atingindo, como se o corpo tivesse decidido ir antes da cabeça.— Menino! — ela chamou, assustada.Ele não respondeu.Desceu os degraus do jardim de dois em dois, o envelope amassado na mão, o peito queimando como se tivesse engolido fogo.Seu Sebastião, que aparava umas folhas perto da roseira, ergueu o rosto ao vê-lo daquele jeito.— Guilherme… tenha calma, meu filho — disse, largando a tesoura. — O que está acontecendo?Guilherme parou de repente, como se só agora tivesse lembrado que o mundo existia fora da dor.— O senhor… — a voz falhou — o senhor viu a Olivia?Seu Sebastião franziu a testa.— Hoje cedo? Não, não vi.Guilherme girou sobre o próprio eixo, o olhar varrendo o jardim, o portão, a lateral da casa.— Ela estava aqui… ela estava aqui — repetia, mais para si do que para qualquer um.Dona Mirtes apareceu na varanda, enxugando as mãos no avental, o rosto confuso.— Gu
Guilherme passou o dia inteiro tentando trabalhar.Abriu contratos, respondeu e-mails, participou de duas reuniões que mal lembraria depois. A cabeça estava em outro lugar, rodando em círculos que não levavam a conclusão nenhuma.A imagem de Olivia insistia em voltar.Depois vinha Vitória.Depois Paulo.Bárbara.Ana, com aquela certeza fria de que ele não dava conta de criar os próprios filhos.E agora Antônio.O nome parecia colar na mente como algo viscoso.Ele se levantou da mesa pela terceira vez, foi até o bar discreto no canto do escritório e serviu um copo. Depois outro. Depois mais um, dizendo a si mesmo que era só para aquietar os pensamentos, só para conseguir respirar.Não conseguiu.A bebida não trouxe silêncio. Trouxe memória.Trouxe culpa.Trouxe a pergunta que mais o atormentava naquele dia: e se Olivia também for uma mentira?Quando percebeu, já estava tarde.Saiu da empresa sem avisar ninguém.O caminho até em casa pareceu mais longo do que de costume. O corpo pesado,
Guilherme levantou antes de Olivia.O quarto ainda estava escuro, a casa silenciosa, como se todo mundo dormisse protegido por uma trégua breve. Ele se moveu com cuidado, vestiu a calça, pegou a camisa e saiu sem acender luz.No corredor, parou por um instante.Olhou a porta do quarto das crianças.Depois olhou para trás — para o quarto onde Olivia dormia.Não voltou.Desceu as escadas e atravessou a sala como se estivesse fugindo de um pensamento. Pegou as chaves, abriu a porta e saiu antes que a casa acordasse de verdade.No escritório, Guilherme entrou sem falar com ninguém.Foi direto para a janela.Ficou parado alguns segundos olhando a cidade, os prédios, as ruas, o movimento que começava cedo. Tudo funcionava como sempre. Só ele parecia fora do lugar.Sentou-se na cadeira, abriu o notebook, mas não leu nada.O rosto de Olivia apareceu na mente. O jeito como ela o olhou na noite anterior. O beijo. A urgência. O calor.Ele fechou os olhos.Aquilo tinha sido bom.Mas tinha sido… f
Eduardo entrou no escritório sem bater.Ele já conhecia Guilherme o suficiente para não precisar perguntar se estava tudo bem. Bastava olhar.Guilherme estava em pé, de costas para a mesa, encarando a janela como se o mundo lá fora tivesse a resposta que ele não conseguia achar.Eduardo fechou a porta com calma.— E então? — perguntou. — Como foi a conversa?Guilherme demorou um segundo a responder. A voz saiu baixa.— Ela disse que conheceu o homem há poucos dias… em frente a uma papelaria.Eduardo arqueou a sobrancelha.— Papelaria.Guilherme soltou um riso curto, sem humor.— É. Ela disse isso e… eu juro, Eduardo… quando ouvi “papelaria” eu não ouvi o resto direito.Ficou ecoando na minha cabeça.Eduardo se aproximou, devagar.— E você acredita?Guilherme apertou a nuca com a mão.— Eu não sei o que eu acredito. Eu só sei o que eu senti.Um clique. Uma lembrança. Um mal-estar.Eduardo cruzou os braços.— Você não perguntou direto: “de onde você conhece Antônio?”— Não.— Por quê?G










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