Início / Romance / Apaixonada por um viúvo traído / Capítulo 5 — Quem é de casa fica, mesmo quando sai
Capítulo 5 — Quem é de casa fica, mesmo quando sai

Morando na casa, passei a perceber coisas que, antes, escapavam como sombra.

Cada pessoa ali tinha um lugar invisível — e, quando alguém saía do eixo, o resto se mexia para compensar.

Foi Renata quem me ensinou isso.

Ela chegou numa sexta-feira, cantando alto no portão, e entrou direto na cozinha como quem volta para o próprio quarto.

— Mirtes! — ela abraçou a cozinheira com força. — Se eu ficar sem o teu feijão, eu morro.

— Morre nada — Dona Mirtes respondeu, rindo — você é dura na queda.

Guilherme apareceu no vão da porta, e, no mesmo instante, o semblante dele amoleceu.

— Você devia ligar antes.

— E perder esse olhar de irmão preocupado? Nem pensar. — Ela abraçou o pescoço dele. — Você está pálido.

Ele revirou os olhos.

— Você sempre diz isso.

— Porque é sempre verdade.

Eles sentaram à mesa, e eu vi algo raro: Guilherme escutando. Renata falava de coisas simples — trabalho, um gato que apareceu no prédio, um problema com vizinhos — e, entre uma frase e outra, enfiava conselhos escondidos.

— Você não precisa ser pai perfeito — disse. — Só precisa ser presente.

Ele ficou quieto, mexendo no copo.

— Eu estou tentando.

— Eu sei. — Ela pressionou a mão dele. — E fico.

Era o tipo de conversa que não resolve na hora, mas planta raiz.

Eduardo chegou um pouco depois, com pastas debaixo do braço. Seu Sebastião estava passando pelo corredor e abriu um sorriso:

— Boa tarde, doutor.

Eduardo riu.

— Sebastião, pela milésima vez: me chama de Eduardo.

— Eu respeito o diploma — respondeu o jardineiro, sério demais para ser piada.

— E eu respeito quem me deu banana amassada quando eu era pirralho — rebateu Eduardo. — Doutor é lá fora. Aqui, eu sou o Eduardo.

Dona Mirtes ouviu de longe:

— O doutor sempre foi educado.

Ele suspirou, rendido.

— Desisto.

Guilherme apareceu, estendendo a mão.

— Entra. A gente precisa conversar.

Ali, eles não pareciam só advogado e cliente. Pareciam irmãos que escolheram ser.

Fiquei em segundo plano, arrumando a sala, mas prestando atenção sem querer — porque aquela amizade sustentava a casa de um jeito discreto.

— Você não pode comprar briga com o mundo inteiro — disse Eduardo.

— Se eu não me defender, quem vai? — Guilherme rebateu.

— Nós — Eduardo respondeu, simples. — Eu, a Renata, a Mirtes, o Sebastião… essa gente toda que te viu crescer. Você esquece isso.

Guilherme respirou fundo.

— Eu tenho medo de perder.

— Todo mundo tem — Eduardo disse. — A diferença é que você luta cansado.

Silêncio. Um silêncio que dizia muito.

À noite, depois de as crianças dormirem, Renata ficou na varanda com Dona Mirtes, tomando chá.

— Eu lembro quando ele caiu da bicicleta — Renata contou — e jurou que nunca mais ia chorar.

— Ele chorou escondido na dispensa — disse Dona Mirtes, sem esforço. — Eu fingi que não vi.

Eu sorri, invisível. A casa guardava memórias como quem guarda louça antiga.

Seu Sebastião encostou a mangueira e sentou perto.

— O pai dele era duro — disse. — Achava que homem nasce sabendo tudo.

— E agora ele acha que tem que provar o tempo todo — completou Renata.

Olhei para o corredor. Guilherme estava ali, parado, ouvindo. Não entrou. Só ouviu.

Talvez fosse o máximo que ele conseguia fazer naquele momento.

No dia seguinte, o sábado amanheceu leve, quase raro.

As crianças correram pelo quintal, e eu organizei uma caça ao tesouro improvisada. Pedro vibrava a cada pista. Sofia sorria tímido, mas sorria.

Eduardo chegou mais tarde, sem terno, de camiseta. Um choque.

— Eu sou humano, viu — ele disse, quando Pedro arregalou os olhos. — Não durmo de gravata.

Seu Sebastião não resistiu:

— Mas continua sendo doutor.

— Sebastião!

Rimos todos.

Guilherme observava de longe, sentado no degrau, com um olhar que eu ainda não sabia decifrar — mistura de orgulho, culpa e alívio.

Renata sentou ao lado dele.

— Se você pudesse voltar no tempo, mudaria o quê?

Ele demorou.

— Eu teria ficado mais tempo em casa.

Ela apoiou a cabeça no ombro dele.

— Então comece agora.

Ele olhou para mim, para as crianças, para Eduardo brincando com Pedro como se tivesse dez anos.

E ficou.

Ficou ali. Sem celular. Sem pressa. Só… presente.

Foi uma tarde pequena, mas vitoriosa.

Depois do jantar, enquanto eu lavava as louças, Dona Mirtes falou baixo:

— Você trouxe ar novo pra essa casa.

Eu sorri.

— Eu só faço o que sei.

— É. — Ela sorriu de volta. — Mas nem todo mundo sabe cuidar sem invadir.

Seu Sebastião completou:

— E nem todo mundo entende que o Guilherme é duro com quem ama porque tem medo de perder de novo.

Eu pensei na Vitória, na traição, no acidente. Pensei no peso de acordar todo dia com o fantasma do “se”.

— Ele não está sozinho — eu disse.

— Não — respondeu Dona Mirtes. — Não está. E quando ele esquece, a gente lembra.

Senti algo quente no peito.

Talvez família fosse exatamente isso: gente que insiste na gente.

Mais tarde, no corredor, cruzei com Guilherme.

— Obrigado por hoje — ele disse, simples.

— Foi só uma caça ao tesouro.

— Não — ele corrigiu. — Foi um respiro.

Ficamos em silêncio por um segundo. Foi estranho — e confortável.

— Boa noite, Olivia.

— Boa noite.

Entrei no meu quarto e sentei na cama, olhando para a janela aberta. A casa tinha seus ruídos: risada distante de Renata, murmúrio de Eduardo discutindo algo ao telefone, passos leves de Dona Mirtes, o chiado da mangueira de Seu Sebastião.

Era um coro.

E eu fazia parte dele.

Mas, bem no fundo, eu sabia: quando uma casa começa a se curar, o mundo tenta testar essa cura.

E logo viria o primeiro teste grande.

Eu só não imaginava o tamanho do estrago que ele tentaria causar.

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