Mundo de ficçãoIniciar sessãoMorando na casa, passei a perceber coisas que, antes, escapavam como sombra.
Cada pessoa ali tinha um lugar invisível — e, quando alguém saía do eixo, o resto se mexia para compensar. Foi Renata quem me ensinou isso. Ela chegou numa sexta-feira, cantando alto no portão, e entrou direto na cozinha como quem volta para o próprio quarto. — Mirtes! — ela abraçou a cozinheira com força. — Se eu ficar sem o teu feijão, eu morro. — Morre nada — Dona Mirtes respondeu, rindo — você é dura na queda. Guilherme apareceu no vão da porta, e, no mesmo instante, o semblante dele amoleceu. — Você devia ligar antes. — E perder esse olhar de irmão preocupado? Nem pensar. — Ela abraçou o pescoço dele. — Você está pálido. Ele revirou os olhos. — Você sempre diz isso. — Porque é sempre verdade. Eles sentaram à mesa, e eu vi algo raro: Guilherme escutando. Renata falava de coisas simples — trabalho, um gato que apareceu no prédio, um problema com vizinhos — e, entre uma frase e outra, enfiava conselhos escondidos. — Você não precisa ser pai perfeito — disse. — Só precisa ser presente. Ele ficou quieto, mexendo no copo. — Eu estou tentando. — Eu sei. — Ela pressionou a mão dele. — E fico. Era o tipo de conversa que não resolve na hora, mas planta raiz. Eduardo chegou um pouco depois, com pastas debaixo do braço. Seu Sebastião estava passando pelo corredor e abriu um sorriso: — Boa tarde, doutor. Eduardo riu. — Sebastião, pela milésima vez: me chama de Eduardo. — Eu respeito o diploma — respondeu o jardineiro, sério demais para ser piada. — E eu respeito quem me deu banana amassada quando eu era pirralho — rebateu Eduardo. — Doutor é lá fora. Aqui, eu sou o Eduardo. Dona Mirtes ouviu de longe: — O doutor sempre foi educado. Ele suspirou, rendido. — Desisto. Guilherme apareceu, estendendo a mão. — Entra. A gente precisa conversar. Ali, eles não pareciam só advogado e cliente. Pareciam irmãos que escolheram ser. Fiquei em segundo plano, arrumando a sala, mas prestando atenção sem querer — porque aquela amizade sustentava a casa de um jeito discreto. — Você não pode comprar briga com o mundo inteiro — disse Eduardo. — Se eu não me defender, quem vai? — Guilherme rebateu. — Nós — Eduardo respondeu, simples. — Eu, a Renata, a Mirtes, o Sebastião… essa gente toda que te viu crescer. Você esquece isso. Guilherme respirou fundo. — Eu tenho medo de perder. — Todo mundo tem — Eduardo disse. — A diferença é que você luta cansado. Silêncio. Um silêncio que dizia muito. À noite, depois de as crianças dormirem, Renata ficou na varanda com Dona Mirtes, tomando chá. — Eu lembro quando ele caiu da bicicleta — Renata contou — e jurou que nunca mais ia chorar. — Ele chorou escondido na dispensa — disse Dona Mirtes, sem esforço. — Eu fingi que não vi. Eu sorri, invisível. A casa guardava memórias como quem guarda louça antiga. Seu Sebastião encostou a mangueira e sentou perto. — O pai dele era duro — disse. — Achava que homem nasce sabendo tudo. — E agora ele acha que tem que provar o tempo todo — completou Renata. Olhei para o corredor. Guilherme estava ali, parado, ouvindo. Não entrou. Só ouviu. Talvez fosse o máximo que ele conseguia fazer naquele momento. No dia seguinte, o sábado amanheceu leve, quase raro. As crianças correram pelo quintal, e eu organizei uma caça ao tesouro improvisada. Pedro vibrava a cada pista. Sofia sorria tímido, mas sorria. Eduardo chegou mais tarde, sem terno, de camiseta. Um choque. — Eu sou humano, viu — ele disse, quando Pedro arregalou os olhos. — Não durmo de gravata. Seu Sebastião não resistiu: — Mas continua sendo doutor. — Sebastião! Rimos todos. Guilherme observava de longe, sentado no degrau, com um olhar que eu ainda não sabia decifrar — mistura de orgulho, culpa e alívio. Renata sentou ao lado dele. — Se você pudesse voltar no tempo, mudaria o quê? Ele demorou. — Eu teria ficado mais tempo em casa. Ela apoiou a cabeça no ombro dele. — Então comece agora. Ele olhou para mim, para as crianças, para Eduardo brincando com Pedro como se tivesse dez anos. E ficou. Ficou ali. Sem celular. Sem pressa. Só… presente. Foi uma tarde pequena, mas vitoriosa. Depois do jantar, enquanto eu lavava as louças, Dona Mirtes falou baixo: — Você trouxe ar novo pra essa casa. Eu sorri. — Eu só faço o que sei. — É. — Ela sorriu de volta. — Mas nem todo mundo sabe cuidar sem invadir. Seu Sebastião completou: — E nem todo mundo entende que o Guilherme é duro com quem ama porque tem medo de perder de novo. Eu pensei na Vitória, na traição, no acidente. Pensei no peso de acordar todo dia com o fantasma do “se”. — Ele não está sozinho — eu disse. — Não — respondeu Dona Mirtes. — Não está. E quando ele esquece, a gente lembra. Senti algo quente no peito. Talvez família fosse exatamente isso: gente que insiste na gente. Mais tarde, no corredor, cruzei com Guilherme. — Obrigado por hoje — ele disse, simples. — Foi só uma caça ao tesouro. — Não — ele corrigiu. — Foi um respiro. Ficamos em silêncio por um segundo. Foi estranho — e confortável. — Boa noite, Olivia. — Boa noite. Entrei no meu quarto e sentei na cama, olhando para a janela aberta. A casa tinha seus ruídos: risada distante de Renata, murmúrio de Eduardo discutindo algo ao telefone, passos leves de Dona Mirtes, o chiado da mangueira de Seu Sebastião. Era um coro. E eu fazia parte dele. Mas, bem no fundo, eu sabia: quando uma casa começa a se curar, o mundo tenta testar essa cura. E logo viria o primeiro teste grande. Eu só não imaginava o tamanho do estrago que ele tentaria causar.






