Morando na casa, passei a perceber coisas que, antes, escapavam como sombra.Cada pessoa ali tinha um lugar invisível — e, quando alguém saía do eixo, o resto se mexia para compensar.Foi Renata quem me ensinou isso.Ela chegou numa sexta-feira, cantando alto no portão, e entrou direto na cozinha como quem volta para o próprio quarto.— Mirtes! — ela abraçou a cozinheira com força. — Se eu ficar sem o teu feijão, eu morro.— Morre nada — Dona Mirtes respondeu, rindo — você é dura na queda.Guilherme apareceu no vão da porta, e, no mesmo instante, o semblante dele amoleceu.— Você devia ligar antes.— E perder esse olhar de irmão preocupado? Nem pensar. — Ela abraçou o pescoço dele. — Você está pálido.Ele revirou os olhos.— Você sempre diz isso.— Porque é sempre verdade.Eles sentaram à mesa, e eu vi algo raro: Guilherme escutando. Renata falava de coisas simples — trabalho, um gato que apareceu no prédio, um problema com vizinhos — e, entre uma frase e outra, enfiava conselhos esco
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