Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu descobri rápido que trabalhar naquela casa era como caminhar sobre um chão de vidro: brilhava, mas qualquer passo errado podia quebrar tudo.
Na segunda semana, eu já conhecia as manias da casa. Dona Mirtes acordava antes do sol. Seu Sebastião conversava com as plantas como quem conversa com velhos amigos. As crianças tinham ritmos diferentes — Sofia vivia nas entrelinhas e Pedro explodia em energia como se tivesse um foguete no peito. E Guilherme… bem, Guilherme vivia em outra gravidade. Saía cedo, chegava tarde, sempre com o celular colado à mão. Reuniões, contratos, investidores, viagens. No noticiário do tablet da cozinha, às vezes aparecia o nome dele: “Empresário expande filial”, “Aquisição milionária”. Eu olhava aquilo e pensava: quem vê manchete não imagina quantas coisas ficam sem dono dentro de uma casa. Naquela manhã, era dia de prova na escola. Sofia revisava as contas com cuidado demais, como se um erro fosse um crime. Pedro, por sua vez, tentava transformar o lápis em espada. — Pedro, foco — falei, rindo. — A espada luta depois do dever. — Mas a batalha é agora — ele rebateu. Sofia levantou os olhos. — Se eu errar, a professora vai ligar pro papai. O coração dela estava sempre em alerta. Eu me inclinei. — Se errar, a gente aprende. Não é um tribunal, é escola. Ela mordeu o lábio, pensativa. Foi quando Guilherme apareceu. Terno impecável, expressão fechada — o rei na manhã de guerra. — Mochilas. — Olhou para o relógio. — Não podemos atrasar. — Papai — Sofia levantou o caderno — você pode ver se está certo? Ele apenas folheou, sem olhar de verdade. — Está. Vamos. Aquilo me ferveu por dentro. — Só dois minutos — pedi. — Ela se sente mais segura quando alguém confere. Ele suspirou — o tipo de suspiro que quer encerrar o assunto. — Olivia, a vida não dá dois minutos. Eles precisam aprender isso. Eu respirei fundo, escolhendo palavras como quem caminha em corda bamba. — A vida não dá dois minutos para adulto. Criança ainda precisa deles. Silêncio. O ar ficou pesado. Sofia agarrou o caderno com as duas mãos. Guilherme me encarou. — Eu pago para você seguir minhas orientações. — Eu sigo — respondi, calma. — Mas parte do meu trabalho é dizer quando algo pode machucar. Ele apertou a mandíbula, virou-se para Sofia e, finalmente, olhou as contas. — Está bom. — Sua voz saiu mais suave. — E se errar, a gente corrige. Sofia respirou. Um mundo saiu dos ombros dela. No carro, antes de sair, ele me lançou um olhar que dizia: “conversaremos”. E conversamos. Quando voltou, o relógio marcava quase meio-dia. Ele entrou direto no escritório e me chamou. — Fecha a porta. Sentei-me. — Você precisa entender — começou — que meus filhos já viveram instabilidade demais. A mãe deles morreu de forma… inesperada. Eu não posso permitir que eles cresçam frágeis. — Dar apoio não é fazer alguém frágil — respondi. — É dar chão. — O mundo não dá chão — ele rebateu. — Então a casa precisa dar. Houve um segundo de silêncio que pareceu um duelo. — A Ana vive dizendo que eu erro — ele confessou, enfim. — Que devo fazer terapia, que não sei conversar, que vou criar adultos quebrados. E eu não vou permitir que ecoem as opiniões dela dentro da minha casa. Eu entendi a ferida escondida ali. — Eu não sou a Ana — disse com firmeza. — Se eu achar que algo é importante, eu falo. Mas falo por eles. Não por ela. Ele se recostou, passando a mão pelo rosto — como quem admitia cansaço pela primeira vez. — Está bem — disse, por fim. — Vamos tentar do seu jeito… algumas vezes. Sorri de leve. — Algumas vezes já é um começo. As tardes foram melhorando. Fizemos o famoso quadro de horários ganhar vida: dever, leitura, brincadeira, descanso. Cada conquista virava desenho. Pedro colava estrelas como se fosse capitão de nave. Sofia, pouco a pouco, parava de pedir desculpas por existir. Mas, às noites, o vidro voltava a ranger. Uma quinta-feira, ele chegou tarde. Tarde e tenso. Jogou as chaves na mesa, tirou o paletó e foi direto para o barzinho da sala. O som do gelo caindo no copo me fez gelar junto. Eu não estava ali para julgar — mas conhecia bem a trilha daquela música. As crianças estavam na sala de TV. — Hoje é dia de filme — Pedro anunciou, animado. — Em volume baixo — Sofia completou, já prevendo tudo. Eu fui até Guilherme, baixinho: — Quer jantar primeiro? — Não tenho fome. O cheiro de bebida virou presença. — Eles percebem — eu disse, suave. Ele me lançou um olhar cansado. — Hoje não, Olivia. Olhei para o corredor. Sofia abraçava a almofada. Pedro fingia não ver. — Então me deixa ajudar — pedi. — Só… fica no escritório. Eu cubro as crianças. Ele hesitou, depois assentiu — talvez envergonhado. — Obrigado. Levei o filme adiante, inventei histórias, fiz pipoca. As crianças riram, relaxaram. Quando o filme terminou, guiei os dois para o quarto. — O papai tá bravo? — Pedro perguntou. — O papai está cansado — respondi. — E às vezes adultos cansados fazem escolhas ruins. Mas amanhã é outro dia. Ele aceitou. Crianças são generosas demais. Quando voltei ao escritório, Guilherme estava sentado, copo vazio, olhar perdido. — Eu não quero que eles me vejam assim — disse, quase num sussurro. — Então lute para não estar assim — falei, sem dureza, mas sem rodeio. — Você é bom no que faz lá fora. Eles precisam que você seja bom aqui dentro. Ele riu de si mesmo, curto. — Você fala como se fosse fácil. — Não é. Mas é simples: começar. Ficamos em silêncio. Havia um pacto tímido ali. No sábado, a tempestade veio de fora. A campainha tocou e Dona Mirtes apareceu com a expressão contrariada. — É a Ana. Meu coração desceu. A mulher entrou como quem fiscaliza. — Vim ver meus sobrinhos — disse, sorriso que não sorria. — Eles estão no quintal — respondi. Ela me mediu de cima a baixo. — Você é a babá. — Não foi pergunta. — Há quanto tempo está aqui? — Duas semanas. — Hum. E já acha que entende as crianças? — Eu tento entendê-las — disse, serena. Ela riu, seca. — Criança precisa de pulso. Principalmente com um pai… distraído. Antes que eu respondesse, Guilherme surgiu. — Ana. — A voz dele era aço. — Só vim visitar. — Visitas combinadas — ele rebateu. — E você sabe. Ela cruzou os braços. — Um dia esses meninos vão me agradecer. — Eles vão me agradecer por proteger a casa de interferências — ele devolveu. Eu senti o clima esquentar. Me adiantei: — Quer um café, Ana? — Não. — Olhou para mim como se eu fosse móvel. — Só não estrague o que ainda dá para salvar. Ela se foi, deixando um rastro de julgamento. Guilherme fechou os olhos um instante, exausto. — Obrigado — disse, olhando para mim. — Pelo café que ela não tomou? — brinquei. — Por segurar o ambiente. Ele respirou fundo. — Eu ainda acho que você fala demais. — E eu ainda acho que você sente demais e finge que não — respondi. Dessa vez, ele riu de verdade — rápido, inesperado. Naquela noite, enquanto arrumava os brinquedos, percebi que algo em mim tinha mudado. Não era só um emprego. Eu estava aprendendo as rachaduras daquela casa — e, sem perceber, ocupando algumas delas. E, mesmo sem dizer em voz alta, eu sabia: Se alguém tentasse atravessar aquelas crianças, eu atravessaria de volta.






