Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu aprendi cedo que casa grande não significa casa cheia. Às vezes, significa o contrário: muita gente passando — e quase ninguém ficando.
Na terceira semana, as rotinas começaram a respirar melhor. Sofia dormia sem abraçar o travesseiro como quem se agarra a um penhasco. Pedro já conseguia guardar brinquedos sem brigar com o universo. Eu, de algum modo, também encontrava espaço para caber. Foi quando a campainha tocou. — É o doutor Eduardo — avisou Seu Sebastião, olhando pela câmera com calma de quem já viu tempestade demais. Eduardo. Eu já tinha ouvido o nome — amigo de infância, advogado, quase da família. Quando abriu a porta, entendi o “quase”. Terno alinhado, sorriso fácil, olhos atentos. Um homem que parece gostar de colocar ordem no caos — mas sem levantar a voz. — E essa deve ser a famosa Olivia — ele disse, estendendo a mão. — Finalmente alguém que consegue domar o Pedro. — Domar não — respondi. — Eu negocio. Ele riu. — Justo. Guilherme desceu as escadas. — Você chegou cedo. — Reunião importante — Eduardo disse, baixando o tom. — É sobre a questão da guarda. A palavra “guarda” soou como uma sirene. Fingi que não escutei, mas por dentro acendi o alerta. Sofia, que estava colorindo na mesa, ergueu os olhos. Ela sempre capta o que não pode. Eduardo piscou para ela. — Ei, campeã. Como vão as contas? — Melhor — respondeu, tímida. Eles foram para o escritório. Eu levei as crianças para o quintal — mas o pensamento ficou preso na porta fechada. Depois de um tempo, Dona Mirtes apareceu na varandinha com uma bandeja. — Bolo de laranja — anunciou, orgulhosa. — Terapia oficial desta casa. Sentei com as crianças enquanto ela partia os pedaços. — Esse moço é amigo do papai — explicou. — Desde que eram moleques. Já aprontaram de tudo. — Então ele sabe segredos — Pedro concluiu. — Mais do que deveria — riu ela. Eu queria rir, mas a palavra “guarda” ainda ardia na cabeça. Foi quando Guilherme e Eduardo reapareceram. Eduardo estava calmo. Guilherme, não. — Ela entrou com novo pedido — disse Eduardo, firme. — Quer a avaliação psicológica sua e das crianças. Eu entendi: ela, no caso, era Ana. O maxilar de Guilherme endureceu. — Ela não quer ajudar. Quer provar um ponto. Eduardo respirou fundo. — E você precisa parar de agir como se estivesse em guerra. Coopera, mostra rotina, mostra estabilidade. — Olhou para mim, breve. — A babá ajuda. Por um segundo, tive a sensação de ser peça num tabuleiro que eu não conhecia. Guilherme seguiu o olhar de Eduardo — e algo se suavizou. — Ela ajuda — admitiu, meio a contragosto. Sofia fingia desenhar, mas seus dedos tremiam. Sentei ao lado. — Quer me mostrar? Ela empurrou o caderno. Era uma casa. Com janelas. E, ao lado, um coração enorme — rachado no meio. Engoli seco. — A gente pode colar o coração — falei. — Não dá para fingir que ele não quebrou. Mas dá para montar outra vez. Ela me olhou, séria. — E se alguém vier arrancar? — Aí a gente segura juntos. Não era promessa vazia. Era juramento. Mais tarde, Renata chegou. Chegou entrando, abraçando todo mundo, rindo alto — o oposto da casa. — Mamãe Mirtes! — ela gritou, abraçando a cozinheira como criança. — Eu preciso daquele arroz que cura tristeza! — Esse prato não está no cardápio — Dona Mirtes respondeu, mas com os olhos cheios de carinho. Renata tinha a leveza de quem já caiu — e escolheu levantar dançando. Logo depois, Eduardo apareceu atrás dela, com expressão de “não faz estrago, por favor”. — Renata — Guilherme avisou — hoje não estamos num dia simples. — Querido — ela pousou a mão no ombro dele — nenhum dia seu é simples. E é por isso que eu venho. Olhou para mim. — Você é a Olivia. Eu sou a irmã mais sensata. — Ele disse que você é a mais dramática — respondi. Eduardo tossiu para segurar o riso. Guilherme balançou a cabeça. — Eu disse as duas coisas — completou. Renata me puxou para a cozinha, como se já fôssemos amigas. — Ele precisa de alguém que fale “não” — sussurrou. — Obrigada por isso. — Às vezes ele não gosta. — Nem sempre gostar é o que cura — ela rebateu. Senti que havia histórias ali. Muitas. À noite, depois do jantar, Guilherme e Eduardo ficaram conversando na varanda. As vozes chegavam quebradas pelo vento. — Você precisa mostrar que as crianças têm rotina, conexão, apoio — dizia Eduardo. — A avaliação vai ver isso. — E se perguntarem sobre a Vitória? — Guilherme murmurou. — Vai ter que encarar. — Pausa. — A traição, o acidente, tudo. Meu peito apertou. Dona Mirtes lavava a louça, silenciosa. Seu Sebastião regava as plantas com paciência de quem entende a dor dos outros e não invade. Eu pensei no que Catarina tinha me dito, lá atrás: “Não fala da ex-cunhada”. Agora, tudo fazia sentido. A casa respirava sob suspeita. Foi Catarina quem apareceu no dia seguinte, sorrindo como sempre. — Vim ver se você sobreviveu — brincou, me abraçando. — Ainda tô aqui. Ela me observou de perto. — E tá diferente. Esses olhos… já viram muito para pouco tempo. Contamos histórias rápidas entre uma tarefa e outra. Ela me confidenciou que, no escritório, as pessoas sussurravam sobre Guilherme, sobre como ele tinha virado pedra depois da morte de Vitória. — Pedra não sente — respondi. — Essa sente — ela disse. — Ela só não admite. Antes de sair, Catarina brincou com Pedro e elogiou o desenho de Sofia. E, discretamente, me disse: — Se precisar de ajuda com a Ana… me liga. Guardamos o número como quem guarda álibi. No fim daquela semana, conheci alguém por telefone — e desejei que tivesse permanecido assim. O celular de Guilherme tocou enquanto ele estava no banho. Ele gritou: — Olivia, atende e diz que retorno. Eu peguei o aparelho. — Alô? Silêncio. Depois, uma voz feminina, fria e doce ao mesmo tempo: — Quem é você? — Olivia. Babá. — Ah. — Um sorrisinho invisível. — Aqui é a Bárbara. Eu e o Guilherme… somos próximos. Só diga que liguei. “Próximos.” Uma palavra que vinha com perfume caro e um aviso: eu retorno. Quando ele desceu, dei o recado. Um músculo saltou em sua têmpora. — Não precisa atender quando for ela — disse, seco. — Algum problema? — Vários. E antigos. Eu não perguntei. Mas senti, como quem sente vento antes da chuva: aquilo ainda voltaria. À noite, levei os dois para dormir. Pedro quis história de dinossauro. Sofia pediu silêncio. Quando saí do quarto, encontrei Guilherme no corredor, parado, olhando para a porta fechada. Não era o empresário de manchete. Era um homem cheio de dúvidas. — A avaliação vai ver que eles estão melhor — eu disse. — E se não for o bastante? — Então a gente melhora mais. Ele assentiu. Pela primeira vez, não como ordem — mas como pedido. — Obrigado, Olivia. — De nada. Voltamos cada um para o seu canto. E, enquanto eu arrumava os livros na sala, pensei: As pessoas entram na nossa vida de jeitos diferentes — algumas como remédio, outras como teste. E, naquela casa, parecíamos ter ambos. Eu ainda não sabia, mas o jogo estava só começando. E ninguém ali estava preparado para as próximas verdades que viriam bater à porta.






