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Capítulo 4 — A casa que também era minha (mas não era)

Mudar-me para a casa de Guilherme aconteceu quase sem cerimônia.

Uma noite, depois de um dia longo e uma briga silenciosa entre ele e o mundo, ele simplesmente disse:

— Faz mais sentido você ficar aqui. Facilita a rotina das crianças. — Pausa curta. — Escolha um quarto no corredor de hóspedes.

Eu respondi que sim, sem pensar muito — porque quem vive contando moedas não recusa teto. Mas, quando fechei a porta do quarto simples, com janela para o jardim, percebi que algo tinha mudado de verdade.

Eu morava ali.

Não era minha casa — mas o meu despertador agora era o barulho discreto de Dona Mirtes na cozinha e o canto suave de algum passarinho que Seu Sebastião sempre atraía. E, à noite, eu dormia com a sensação de guarda — como quem fica de vigia por amor.

Na primeira manhã como moradora, Pedro entrou correndo no meu quarto.

— Olivia! Você mora aqui pra sempre?

Eu ri.

— Pra sempre é muito tempo. Mas por enquanto, sim.

Ele comemorou como quem ganhou campeonato. Sofia apareceu logo depois, envergonhada.

— Se você mora aqui… — ela hesitou — posso te mostrar meu diário novo?

Era um caderno com capa azul, nada mais. Mas, para ela, era um tesouro.

— Pode — respondi — e eu prometo respeito.

Sofia assentiu. Confiança, na vida dela, era coisa rara.

Guilherme me encontrou na cozinha, de cabelos molhados e gravata meio torta.

— Dormiu bem?

— Dormi. — Sorri. — E estou a trinta segundos de organizar o mundo.

Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Boa sorte com o mundo.

Foi a primeira manhã em que ele parecia… humano. Sem armadura completa.

Mas eu já havia aprendido: quando a casa relaxava demais, algo vinha para lembrar que paz ali era sempre provisória.

E veio.

A campainha tocou com insistência. Seu Sebastião olhou pela câmera, suspirou e disse:

— É ela.

Ana.

Entrou com perfume forte e expressão decidida.

— Fiquei sabendo que a babá agora mora aqui — disse, sem sequer um “bom dia”.

— Mora — respondeu Guilherme, seco. — Organização. Rotina. Estabilidade.

— Estabilidade? — ela riu sem humor. — Ter uma estranha morando com seus filhos é estabilidade?

Eu mantive o silêncio. Não me cabia entrar.

— Olivia não é “uma estranha” — Guilherme rebateu. — As crianças confiam nela.

Ana virou o rosto para mim.

— Crianças confiam em qualquer adulto que lhes dê atenção.

Eu respirei fundo para não revidar. Guilherme percebeu.

— Ana, chega. Você veio por quê?

Ela abriu a bolsa e tirou um envelope.

— Avaliação psicológica marcada. — Entregou. — Para todos vocês.

Ele pegou o papel e rangeram os dentes invisíveis.

— Eu já sabia que viria — disse Eduardo, que apareceu no corredor como advogado que sente cheiro de problema. — Mas não precisava trazer pessoalmente.

Ana sorriu, triunfante.

— Precisava, sim. — Olhou em volta, com ar de inspeção. — Gosto de ver o cenário.

Antes de ir embora, ajoelhou-se diante de Sofia.

— Se qualquer coisa te incomodar… — disse, doce demais — você me liga, tá?

Sofia assentiu, tensa. Eu me abaixei e segurei a mão dela.

— Ela já tem a quem dizer — falei, gentil, mas firme.

Ana se levantou, olhando para Guilherme.

— Você está substituindo a Vitória rápido demais. Cuidado.

Ele endureceu.

— Ninguém substitui ninguém.

Quando ela saiu, o ar pareceu mais leve — mas o estrago já estava feito.

Sofia correu para o quarto e fechou a porta. Pedro ficou quieto, coisa rara. Guilherme encostou na parede e respirou fundo.

Eduardo quebrou o silêncio:

— Ana está jogando pesado. — Depois, me encarou. — E você, Olivia, vai ser parte da avaliação. Querendo ou não.

Meu coração deu um solavanco.

— Eu só faço o que sei: cuidar.

— Continue — ele disse. — É exatamente isso que precisamos mostrar.

A semana virou um teste silencioso.

Chegaram os formulários, as perguntas, as observações. Psicóloga agendada. Conversas sérias. Guilherme ficou mais atento à rotina, quase disciplinado demais. Às vezes parecia um general tentando aprender a brincar.

Em uma noite de tempestade, as crianças vieram correndo ao meu quarto.

— Trovão! — Pedro pulou na cama.

— Fica aqui — Sofia pediu, sem vergonha nenhuma.

Eu os abracei e deixei que ficassem. Guilherme apareceu na porta, com cara de quem não sabe se permite.

— Está tudo bem — eu disse. — Eles só querem certeza.

Ele observou a cena e, por um instante raro, sentou-se na beirada da cama.

— Quando eu era pequeno — contou, baixinho — eu achava que o trovão era Deus arrastando móveis.

Pedro riu, aliviado.

— Então Deus é bagunceiro.

— Às vezes — respondeu Guilherme.

Aquele momento era pequeno, mas precioso — e eu sabia que a psicóloga nunca veria isso no papel. Era o tipo de coisa que prova quem a gente é quando ninguém cobra.

Dois dias depois, o telefone tocou — e o clima mudou.

— Quem é? — perguntei.

— Bárbara — respondeu a voz suave — diga a ele que foi inevitável pensar nele.

Eu levei o recado. Guilherme fechou o rosto.

— Eu disse que não precisava atender.

— Desculpa. — Pausa. — Ela insiste.

— É exatamente isso que ela faz — respondeu, irritado.

Mais tarde, Eduardo apareceu para assinar papéis com ele — e, quando o assunto esfriou, perguntou:

— E a Bárbara?

— Está tentando voltar — Guilherme disse, seco.

— E você?

Ele não respondeu. Eu estava perto demais para fingir que não escutava — mas longe demais para opinar. Ainda assim, senti uma pontada que não tinha nome. Não ciúme — mas uma espécie de alerta.

Catarina apareceu à noite para buscar um documento do escritório e, quando me viu arrumando o quarto das crianças, sussurrou:

— A Bárbara não desiste. Se acha dona do final feliz.

— Final feliz não se toma — respondi.

— Tomar, não. Mas manipular… ela sabe.

Anotei aquilo mentalmente.

A psicóloga chegou numa terça-feira cinza.

Mulher calma, olhar atento. Conversou com cada um, em tempos diferentes. Comigo, foi direta:

— Você mora aqui. — Anotou. — E como se sente sendo “parte” sem ser família?

Pensei.

— Eu me sinto responsável.

— E segura?

— Sim. — Depois corrigi, honesta. — Na maior parte do tempo.

Ela sorriu, como quem entende tempestades.

— E o Guilherme?

— É duro — respondi. — Mas tenta.

Ela escreveu algo e mudou de assunto. Eu saí da sala com a sensação de ter atravessado um raio-x.

À noite, depois de tudo, pedi licença para ir até o jardim. A chuva tinha parado, e Seu Sebastião cuidava das plantas com paciência.

— Essa casa fala — ele disse, sem me olhar. — E você está ouvindo.

— O que ela diz?

Ele pensou.

— Diz que estava vazia. E que, quando a gente coloca amor onde havia silêncio, sempre aparece alguém querendo tirar.

Eu entendi.

— A Ana.

— E talvez outros — ele completou.

Olhei para as janelas iluminadas. Ali estavam duas crianças que agora dormiam melhor. Um homem tentando reaprender. Uma cozinheira que era mãe de muita gente. Um jardineiro que sabia segredos. Um advogado que segurava pontes. Uma irmã que curava rindo. Uma ex que rondava. E eu — morando sem pertencer totalmente.

Mas, quando subi as escadas, Sofia saiu do quarto e me abraçou, inesperadamente.

— Boa noite, Olivia. — Ela sussurrou. — Agora eu não tenho mais medo quando durmo.

E eu soube, sem dúvida nenhuma:

Mesmo que aquela casa não fosse minha…

Eu já fazia parte dela.

E, quando a gente passa a morar também no coração de alguém, nada mais é simples.

Nem — especialmente — o que ainda estava por vir.

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