Mundo de ficçãoIniciar sessãoTudo começou quando perdi meu chão, minha base... tudo o que eu tinha. A notícia da morte covarde dos meus pais, assassinados por um de seus sócios, que também era meu tio materno, me destruiu. Sem estrutura e sem família, eu já caminhava para uma emancipação dolorosa aos dezesseis anos quando o segredo foi revelado: um acordo nupcial. Logo os meus pais, que se diziam tão modernos, me prenderam a um contrato matrimonial arcaico. Proteção ou controle dos nossos bens? Eu não sabia. Mas depois de assinar aquele papel e ser completamente isolada do mundo, decidi me rebelar. Só não imaginei que lutar contra mafiosos significava submeter-se às leis deles. E, no mundo da máfia, só existe uma regra. Eu quero o divórcio. Meu marido diz que nem pensar: ele não fica divorciado... fica viúvo. O que ele não sabe é que eu, Helena Thorne, não nasci para ser vítima. Neste mundo, eu posso até morrer... mas jamais morrerei sozinha.
Ler maisHelena Thorne
O dia da minha orfandade era, ironicamente, ensolarado demais. A luz era uma afronta, irrompendo com uma crueldade gélida que não combinava com o cinza do luto. No Cemitério de Carleon, o calor fazia as pessoas suarem sob os pesados casacos de marca, mas meu corpo magro, aos dezesseis anos, sentia apenas um frio cortante, vindo de dentro. Eu carregava o peso de uma orfandade absoluta.
Ao chegar ao portão de ferro forjado, senti os olhares. Olhos famintos por trás de lentes escuras me perfuravam. Eu era Lena Thorne, e meu sobrenome era o único que importava ali, sinônimo de luto, e de milhões.
Entrei com uma dor física, como se o caminho fosse pavimentado com cacos de vidro. Quanto mais eu caminhava pela grama verde, mais o vazio no meu peito se tornava um abismo. Ali estavam os amigos que riam alto em nossa mansão, mas também os abutres, credores inconvenientes e oportunistas, todos esperando o momento de rasgar a carcaça.
Olhei para as duas lápides.
Apenas nomes.
Nenhum corpo.
O mar havia engolido meus pais.
Dias de buscas exaustivas trouxeram apenas a certeza de um acidente orquestrado, limpo, sem vestígios.
O murmúrio do padre, em um latim antigo e vazio de significado para mim, quebrou o silêncio. Olhei para as lápides, mas era para o céu que eu gritava por respostas que jamais viriam. Eu precisava de uma mão para me guiar, mas só havia o vazio.
A multidão se retirou lentamente após deixar murmurios que eles mal sabiam explicar, deixando rastros na terra úmida. Fiquei por horas, em silêncio absoluto, sob o sol forte e depois sob a chuva que veio como um chicote. Saí do cemitério com a certeza brutal, a dor não diminuiria.
Os dias se arrastaram, transformando a mansão em um circo fúnebre. A casa estava abarrotada de gente, mas vazia de qualquer afeto sincero. Eu tinha herdado o controle de um império, mas perdido o sentido da vida.
Dias depois, ele chegou. Meu padrinho, Victor Sterling.
Victor era o melhor amigo do meu pai, o homem que havia me segurado no batizado, o padrinho que prometeu zelar por mim. Ele veio pronto para assumir minha tutela e o controle interino dos negócios da família Thorne.
Diariamente, a cena na mansão se tornava mais repugnante. Mesas de café da manhã sujas de restos de jarras de conhaque. Mulheres desconhecidas indo e vindo, fingindo não me ver. A herança já estava sendo saqueada. Eu nunca dirigia uma palavra a Victor, mas a lembrança da voz da minha mãe era um aviso profético que ardia em minha mente.
— Lena, cuidado com Victor. O juramento de padrinho nem sempre é mais forte que a ambição. E o cheiro de milhões anula a moral de qualquer homem.
Eu não confiava nele.
Eu o vigiava.
Não me surpreendi quando os policiais invadiram a mansão. Não houve formalidade, apenas a violência de portas arrombadas. Eles foram direto para o antigo home office do meu pai. Victor tentou fugir pelos fundos, mas o agarraram.
Assisti a tudo do alto da escadaria. A cena era fria, brutal, Victor Sterling sendo algemado no chão de mármore branco.
— Permaneça em silêncio, Senhor Sterling. O que disser pode ser usado contra você. O mandado é por desvio de fundos e suspeita de envolvimento em homicídio.
Desci os degraus lentamente e peguei a notificação das mãos do policial mais alto. Li as palavras homicídio e Victor Sterling no mesmo parágrafo e encarei meu padrinho.
— Foi você? — perguntei, a voz embargada pela dor, mas carregada de ódio.
Victor, com a cabeça baixa, não respondeu de imediato. Um policial o forçou a levantar. Seus olhos azuis, antes gentis, me encararam.
— Foi você que os matou, Victor? Por dinheiro? — A dor rompeu o meu controle. Eu o empurrei no peito com toda a força que tinha, cambaleando logo em seguida. — Responda!
Victor Sterling soltou uma risada fraca e rouca. Aquele som zombeteiro, em meio ao caos de sua prisão, era a confirmação mais brutal.
— O seu pai sempre foi um tolo, Helena. Um tolo com muito dinheiro — ele conseguiu dizer, o sorriso frio se tornando um escárnio. — Você acha que eu faria isso por diversão? Olhe à sua volta, Herdeira. O mundo é um jogo. E eu apenas... joguei melhor.
O sorriso frouxo nasceu em seus lábios, como se o crime fosse uma piada de mau gosto, uma declaração de guerra.
— Você me dá nojo — eu sussurrei, as lágrimas voltando, mas agora eram lágrimas de raiva.
Foram as primeiras palavras que saíram dos meus lábios naqueles dias. Seus olhos azuis, antes gentis, me encararam. Um sorriso frouxo, frio e zombeteiro nasceu em seus lábios, como se o crime fosse uma piada de mau gosto, uma confirmação silenciosa. Levaram-no. Aquele foi o último dia que vi Victor Sterling. E soube, com horror, que meu luto tinha sido uma traição.
Depois daquela confrontação, permaneci em silêncio por meses, processando a violência e a traição. Até que o silêncio foi quebrado por um envelope de papel grosso e um nome que fazia a elite de Carleon tremer, Kaelen.
Eu estava em meu quarto quando a advogada da família, a Dra. Evelyn, me entregou o documento. Eu o rasguei antes mesmo de ler o cabeçalho.
— Nunca! Eu não vou me casar! — gritei, jogando os pedaços no chão. O caos parecia o único idioma que eu entendia agora.
A Dra. Evelyn, impassível, entregou-me uma segunda cópia. — Sua resistência é compreensível, Srta. Thorne. Mas não é negociável.
O envelope continha um acordo pré-nupcial. Meus pais haviam selado um pacto de sangue, entregando-me, a fortuna e a mim, ao filho mais velho dos Kaelen em troca de proteção. Os Kaelen não eram empresários; eles operavam nas sombras mais profundas, a única força que meu pai respeitava e temia.
— Ele é o futuro chefe da máfia! — Exigi, minha voz falhando. — Meus pais me venderam para a máfia!
A advogada me olhou com um pesar calculado. — Seus pais lhe deram uma chance de sobrevivência. Olhe para as opções, Helena. A assinatura de seu pai aqui é autêntica. O casamento deve ocorrer em uma semana, ou, de acordo com o testamento, o tribunal é obrigado a colocar você novamente sob a tutela de Victor Sterling, enquanto os bens são congelados para investigação.
A menção do nome Victor Sterling, o suposto assassino de meus pais, foi um golpe físico. Meu sangue gelou. A imagem de seu sorriso zombeteiro me forçou a engolir a raiva.
Eu voltei a ler o documento, as mãos tremendo. Nele estava a ordem fria, eu, uma garota de dezesseis anos, precisava ser protegida de forma absoluta. Não por ser uma menina, mas por ser a Herdeira da Thorne Corporation, um alvo ambulante.
Eu não tinha escolha. Ou me casava com um fantasma da máfia, ou voltava para a guarda legal do homem que matou meus pais para me roubar.
Naquela mesma semana, fui levada ao cartório como um pacote a ser despachado. Eu vestia a roupa mais simples de ficar em casa, o cabelo preso numa trança mal feita. Assinei os papéis ao lado de um homem alto, magro, de óculos de aro discreto. Ele não me olhou. Eu desviei o olhar do seu rosto.
Assinei um contrato de escravidão com um estranho e voltei para a mansão, agora casada. A aliança no meu dedo parecia uma algema de ouro, pesando uma tonelada. A mudança foi imediata, com a eficiência fria da máfia, as malas foram feitas, a casa esvaziada.
Mudaram-me de casa, de escola. Mudaram minha vida. Minha privacidade foi vigiada 24 horas por dia, há sempre homens de preto em todos os lugares. A governanta Sra. Maeve e o mordomo Arthur passaram a morar comigo. Quanto ao meu esposo, só o vi naquele dia. Ele nunca me visitou. Eu nunca perguntei por ele.
A verdade era brutal, eu não precisava de um esposo. Eu precisava do seu sobrenome. Kaelen é o nome que faz os abutres tremerem e se afastarem.
Mas, ao invés de usar o Thorne ou o Kaelen, prefiro que me chamem de Lena Aris para os desconhecidos. Para os mais chegados, apenas Lena. Eu estava protegida, mas a que custo? E até quando?
O vento frio do lago Siljan soprava suave, fazendo o tecido do vestido azul com flores brancas de Helena balançar contra suas pernas. Eu estava parado a uma curta distância, encostado na mureta de madeira da varanda, apenas observando. Os fios dos seus cabelos pretos dançavam ao redor do seu rosto, e a luz do fim de tarde batia em sua pele, dando-lhe um tom dourado e irreal. Ela segurava a mãozinha gorda e hesitante de Noah, que dava seus passos trêmulos pela grama alta, rindo a cada tropeço.Para quem fora criado no berço da máfia, moldado para ser um monstro desprovido de piedade, o homem frio e implacável que Simon Kaelen precisou ser para sobreviver... aquela cena era o meu verdadeiro milagre. Aqui, como Julian Vance, eu não precisava vestir uma armadura de aço. Eu podia ser. Eu podia sentir. Eu podia, finalmente, amar sem reservas. A cada novo amanhecer nessa terra distante, minha fome de amá-la só aumentava; um desejo insaciável e primitivo de fazer Helena feliz, de apagar cada
Era um sonho. Era, só poderia ser.Meus planos estavam perfeitamente alinhados com os dele. Simon já tinha o destino traçado nas sombras. Fiz as últimas transferências bancárias das minhas contas, e ele fez as suas, limpando o rastro de fortunas que agora nos pertenciam sob novas identidades. Nos organizamos em absoluto sigilo por duas semanas: ele, obstinado em se afastar para sempre da máfia, da violência e do sangue que quase nos destruíram; e eu, buscando uma vida tranquila ao seu lado, onde meu filho pudesse crescer sem o peso de uma armadura.O nosso destino final foi a Suíça, mas o nosso recomeço perfeito se selou nos cenários cinematográficos da Suécia. Simon deixou para trás Simon Kaelen e renasceu como Julian Vance, abandonando um longo legado de poder e hierarquia absoluta na sua família. De repente, nos tornamos dois órfãos de passado, despidos de sobrenomes e obrigações, carregando apenas um futuro inteiro pela frente.Com seis meses de gestação, no ápice do verão nórdico
Helena despertou devagar, os cílios piscando sob a luz da sala. Quando seus olhos finalmente encontraram os meus, tudo ao redor pareceu evaporar. Ficamos ali, em um silêncio denso e absoluto, um olhando para o outro, absorvendo a presença um do outro como se tentássemos ter certeza de que aquilo não era um delírio.No fundo, Megan continuava tagarelando sem parar, uma torrente de palavras histéricas que eu simplesmente ignorava.— O que aconteceu com você? — Helena perguntou baixo, a voz rouca, sem desviar os olhos dos meus.— Eu sofri um atentado em Abu Dhabi... — comecei a responder, mas ela me interrompeu antes que eu concluísse.— Foi o meu tio — disse ela, o tom firme, encarando o homem morto no chão. Depois, o olhar dela desceu para a própria barriga e voltou para mim. — E eu estou grávida.Apenas assenti devagar, confirmando o que ela já sabia. A emoção entalou na minha garganta. Inclinei o rosto para beijá-la, querendo finalmente sentir o gosto da minha mulher depois de quatro
Para quem assistia de fora, o mundo acreditava que Simon Kaelen virara cinzas em Abu Dhabi. Mas nas sombras, os quatro meses de ausência foram uma guerra silenciosa de reconstrução, dor e pura fúria.Dentro de um galpão abandonado nas docas clandestinas de Carlton, a luz amarelada de uma lâmpada pendurada oscilava sobre o capô de um carro preto. Eu estava encostado na lataria, tragando um charuto com a mão direita enquanto a esquerda segurava um copo de uísque barato. Minhas costas ainda queimavam sob as faixas de curativo, mas a dor física era um mero detalhe diante da sede de sangue.— O perímetro da Thorne está blindado, chefe — disse Matteo, um dos meus operacionais mais leais, ajustando o silenciador de um fuzil sobre a bancada. — A segurança que Gaston montou para ela é impenetrável. Dois carros blindados escoltam a senhora Kaelen da cobertura até a empresa todos os dias. Ninguém chega a menos de cem metros sem ser interceptado.— Gaston está fazendo o trabalho dele — respondi,





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