Mundo ficciónIniciar sesiónLavínia Duarte tem 28 anos, um passado de luta e um segredo que pode destruir seu futuro. Oito semanas atrás, no Baile do Farol, ela viveu uma noite de paixão intensa com um desconhecido de máscara preta. Sem nomes, sem promessas, sem arrependimentos. Ou assim ela pensava. Quando descobre a gravidez, Lavínia toma uma decisão: ninguém saberá. Ela não vai entregar seu filho a um estranho que pode ser casado, poderoso ou perigoso. Ela vai sobreviver sozinha como sempre fez. Mas o destino zomba dos planos dela. Contratada para a Romano Group, a empresa mais prestigiada de Porto Sereno, Lavínia se vê trabalhando diretamente com Augusto Romano: o CEO implacável, noivo de outra mulher, obcecado por controle... e o homem da noite que ela não consegue esquecer. Ele não a reconhece. Ainda. Mas quando uma rivalidade cruel, um evento público desastroso e uma marca inesquecível no ombro dela colidem, Augusto descobre a verdade que ela escondeu com tanto cuidado. Agora, o jogo mudou. Ela luta pela liberdade. Ele exige a verdade e o filho que é dele. Enquanto isso, uma mulher poderosa fará qualquer coisa para destruir Lavínia e reivindicar o que acha que lhe pertence. Em Porto Sereno, todo segredo acaba exposto. E este pode custar tudo. Até onde você iria para proteger quem ama?
Leer másO azulejo do banheiro está frio, e eu juro que ele fica mais frio quando a vida decide desabar de uma vez.
Eu seguro o palito do teste com tanta força que meus dedos doem, como se apertar pudesse mudar o resultado. A luz fraca tremula, o ventilador faz um barulho chato, e lá fora a Várzea Clara segue acordada, alguém liga um som cedo demais, uma moto passa rasgando, um vizinho ri alto como se o mundo não tivesse conta pra pagar. Eu olho uma vez. Olho outra. Duas linhas. Meu estômago vira do avesso, mas não é enjoo… é medo puro, inteiro, tomando o corpo. Eu sento no chão porque as pernas não obedecem, e a primeira coisa que penso é absurda: não pode ser hoje. Hoje eu tenho entrevista. Hoje eu tenho chance. Hoje eu não podia ser a menina que repete a história da própria mãe. Eu encosto a cabeça na porta do armário e fecho os olhos, tentando respirar devagar, como se eu tivesse controle de alguma coisa. Só que controle sempre foi uma palavra bonita pra quem tem dinheiro. Eu tenho é coragem… e, ultimamente, nem isso eu sei se ainda tenho. A imagem vem sem pedir licença, como se alguém apertasse “play” dentro da minha cabeça. O Baile do Farol. As máscaras, os flashes, o cheiro de perfume caro misturado com o mar, e eu me sentindo deslocada em um lugar que não era meu. Moema tinha me empurrado pra dentro daquele mundo com a alegria de quem gosta de bagunça e com o coração de quem não aguenta me ver só trabalhando e sobrevivendo. “Vai, Vini”, ela disse, e eu nem lembro se foi olhando na minha cara ou mandando áudio com a voz dela enchendo o quarto: Vai, mulher, hoje você vai viver. A máscara azul-petróleo era dela, emprestada, e eu quase devolvi antes de sair porque me deu vergonha de brincar de rica. Eu lembro do toque do tecido no meu rosto e do medo de ser reconhecida por alguém que não deveria nem saber meu nome. Eu lembro do terraço, do vento, do som abafado da festa lá dentro e de um homem que chegou perto demais como se tivesse certeza de que eu não ia recuar. Terno cinza, presença de quem manda sem levantar a voz, e uma máscara escura que escondia metade do rosto, mas não escondia o olhar. — Qual é o seu nome? — ele perguntou. Eu podia ter mentido qualquer coisa, e acho que foi isso que me deixou corajosa: ninguém ali era de verdade. — Essa noite não importa — eu respondi, e a minha voz saiu firme, como se eu fosse uma mulher que não se apega. A lembrança do beijo é rápida e quente, e eu odeio que meu corpo reconheça a cena enquanto minha cabeça quer apagar tudo. O hotel, a porta fechando, o silêncio antes da pressa, e a sensação de estar fazendo algo errado e certo ao mesmo tempo, errado porque eu não sou desse tipo de risco, certo porque, por uma noite, eu parei de ser só problema e boleto. Eu lembro do peso dele acima de mim, do jeito como ele me segurou como se eu fosse dele, e eu lembro também do detalhe que agora vira faca: a dorzinha no ombro, depois um ardor, como se ele tivesse marcado minha pele sem pensar. Na manhã seguinte eu acordei sozinha. Eu vi o dinheiro em cima da mesa e senti a humilhação subir quente no peito, como se ele tivesse pago por mim. Eu não peguei. Eu vesti minha roupa rápido, lavei o rosto, escondi a máscara, e fui embora antes que alguém abrisse aquela porta e me visse com a cara limpa. Agora, de volta ao banheiro, eu encaro as duas linhas como se fossem sentença. Eu não sei o nome dele. Eu não sei quem ele é. E, mesmo que eu soubesse, eu sei o que homens com poder fazem quando decidem que algo é deles e eu não vou deixar ninguém decidir que meu filho é propriedade. — Vini? — a voz da minha mãe atravessa a porta, firme e cansada, do jeito que sempre foi. — Você vai se atrasar. Eu engulo em seco, porque eu não posso chorar agora. Chorar gasta tempo, e tempo é luxo. Eu me levanto com pressa, lavo o rosto, olho meu reflexo e vejo uma mulher de vinte e oito anos tentando fingir que ainda tem chão. Eu embrulho o teste em papel higiênico como se estivesse escondendo um crime. Abro a gaveta do armário, empurro pra trás de um monte de coisa, remédio, absorvente, uma escova velha e fecho com força. Como se fechar a gaveta fechasse o destino junto. — Já vou! — eu respondo alto, e minha voz sai normal demais, quase me traindo. Eu saio do banheiro, e a casa pequena me abraça com o cheiro de café e de roupa limpa secando na varanda. Minha mãe, Sueli Duarte, está na cozinha com a mesma cara de sempre: a cara de quem já sobreviveu a coisas que eu ainda tenho medo de encarar. — Come. — ela empurra um pedaço de pão pra mim, sem drama, sem pergunta. Eu amo e odeio isso nela ao mesmo tempo, porque parte de mim queria colo, e a outra parte precisa dessa firmeza pra não cair. Meu celular vibra, e eu nem preciso olhar pra saber quem é: Moema. Ela manda áudio cedo, tarde, no meio do plantão, no meio da vida, como se o mundo fosse uma conversa interminável. Eu não abro. Sueli me observa por dois segundos só dois e então desvia o olhar como se tivesse decidido me dar espaço. — Essa vaga… — ela começa, e para, como se a frase inteira fosse grande demais. — É a chance da nossa vida. Eu afirmo com a cabeça e sinto uma raiva estranha subir. Não raiva dela. Raiva do mundo, que escolhe o pior dia pra colocar duas linhas na minha mão. Eu pego minha bolsa gasta, confiro o currículo, ajeito o blazer antigo que ainda está impecável porque minha mãe ensinou que dignidade não depende de grife. Na porta, eu paro por um segundo e levo a mão à barriga sem perceber. Ainda não tem nada ali, e ao mesmo tempo tem tudo. — Eu vou conseguir, mãe. — eu digo, e agora sim minha voz falha um pouco. Sueli chega perto e segura meu rosto com as duas mãos, sem carinho de novela, com carinho de vida real. — Vai. — ela responde. Eu desço as escadas do prédio e piso na rua com o sol batendo forte cedo, e Porto Sereno parece linda e cruel como sempre. O ônibus demora, eu conto moedas, eu prendo o cabelo, e eu decido uma coisa com uma clareza que me dá até susto: ninguém vai tirar isso de mim. Ninguém. A entrevista era às nove. E eu não fazia ideia de que, naquele mesmo dia, eu ia chegar perto demais do dono do meu segredo.POV: LavíniaA Dra. Clarice não está sorrindo.Ela está sentada do outro lado da mesa de fórmica branca da UBS, com meus exames espalhados na frente dela como um baralho de tarô ruim. A sala é simples, cheiro de álcool e piso de linóleo gasto. O ar-condicionado faz um barulho rítmico. Tlec-tlec-tlec.Augusto estava em pé atrás da minha cadeira. Mudo. Ele ocupava metade do consultório. O terno italiano escuro parecia uma ofensa contra a parede descascada da UBS e o cartaz desbotado de vacinação. A linha do maxilar dele estava tão travada que parecia esculpida em granito.— Não é Síndrome HELLP. — A médica diz, finalmente.Solto o ar que estava prendendo.— Graças a Deus.— Ainda. — Ela completa, levantando um dedo. — Mas estamos na borda do precipício, Lavínia. Sua pressão está 15 por 10 agora, em repouso. Tem proteína na urina. Suas plaquetas caíram.Ela tira os óculos e me olha nos olhos.— Isso é pré-eclâmpsia. O corpo está gritando. Você passou por um nível de estresse nas
POV: LavíniaO retorno para a cobertura é silencioso.Não o silêncio tenso de antes, carregado de segredos e medo. É um silêncio de exaustão. De descompressão. Como quando você sai de uma festa barulhenta e entra no carro, e o zumbido no ouvido finalmente para.O carro blindado estaciona na garagem. Augusto desliga o motor. Ele não sai imediatamente. Fica com as mãos no volante, respirando fundo.Olho para ele. O homem que destruiu o próprio pai há duas horas.— Acabou? — Pergunto, baixo.Ele vira para mim. Os ombros dele caem três centímetros.— A parte dele, acabou. — Ele tira o cinto. — Agora começa a nossa.Subimos pelo elevador privativo. Quando a porta abre na sala, o cheiro nos atinge.Alho refogado. Cebola. Feijão fresco. Cheiro de casa de verdade, não de imóvel de revista de arquitetura.Minha mãe está na cozinha. Ela ouve o elevador e aparece na porta, secando as mãos no avental. Ela olha para o Augusto. Depois para mim. Vê que não estamos algemados. Vê que estamos
POV: LavíniaA sala de audiências da Justiça Federal em São Paulo é um teatro de madeira escura, ar-condicionado gélido e silêncio absoluto.Do meu lado: Augusto, eu, Lucas (como testemunha e delegado), Vicente e o Dr. Bittencourt.Do outro lado: A defesa. Três advogados caríssimos, liderados pelo Dr. Munhoz, o homem que me demitiu seis meses atrás.E no centro, na cadeira de rodas, Heitor Romano.Ele está interpretando o papel da sua vida. Cabeça baixa, mão trêmula, manta sobre os joelhos. O Grande Patriarca traído pelo filho e pela "aventureira".A Juíza Federal, Dra. Marta Siqueira, não parece impressionada com a performance. Ela é uma mulher de cinquenta anos, olhar afiado e fama de linha-dura.— Declaro aberta a audiência de instrução e julgamento — ela diz, golpeando o martelo levemente. — O réu é acusado de fraude processual, coação de testemunha, falsidade ideológica e gestão fraudulenta.A porta lateral abriu. Valdir foi o primeiro a entrar, os pulsos pesados pelas al
POV: LavíniaO oficial de justiça entregou o envelope às seis da manhã.Agora, às sete, o papel está aberto na mesa de café da manhã.Leio as palavras jurídicas que tentam transformar meu útero em cena de crime."Tutela de Urgência... risco iminente ao nascituro... instabilidade emocional materna comprovada por vídeo... histórico de violência... pedido de busca e apreensão na sala de parto."Minha mão treme tanto que derrubo o suco de laranja. O líquido amarelo espalha pela toalha branca, mas ninguém se mexe para limpar.Heitor não quer a guarda porque ama a neta. Ele nem sabe se é menina ou menino, porque nunca perguntou. Ele quer a guarda porque sabe que é a única coisa que faria o Augusto desistir da empresa. É o refém final.— Ele errou feio. — A voz da minha mãe corta o silêncio da sala.Olho para ela. Dona Sueli está em pé, de braços cruzados, encarando o documento como se fosse lixo.— Errou? Mãe, ele tá pedindo pra polícia tirar minha filha do meu colo na maternidade!
POV: Augusto— Felipe Romano.O nome dele bateu na mesa e ficou ali, entre o café frio e os relatórios. Felipe. O tio que eu enterrei em um caixão vazio.Olho para o Vicente.— Isso é impossível. — Digo, largando a caneta. — Meu tio Felipe morreu em 1998. Num acidente de carro em Minas Gerais. Eu fui no enterro simbólico. O caixão estava lacrado.— O caixão estava vazio, Augusto. — Vicente coloca uma pasta velha, amarelada, na minha frente. — Seu pai não matou o irmão. Ele apagou o irmão.Abro a pasta. Fotos. Recortes de jornal. E uma certidão de óbito falsificada.— Por quê? — Lavínia pergunta. Ela está ao meu lado, lendo por cima do meu ombro.— Porque em 1987, quando o avô do Augusto morreu, a herança deveria ser dividida meio a meio. — Vicente explica. — Mas o Heitor queria o controle total da Romano Engenharia. O Felipe descobriu uma fraude na assinatura do testamento. Ele ameaçou ir à polícia.— E o Heitor comprou o silêncio dele? — Pergunto.— O Heitor comprou a vida
POV: LavíniaA cara do Heitor Romano ocupa a tela inteira da TV. O velho doente sumiu. O que sobrou tem o olho vidrado e a postura rígida de quem acredita na própria mentira."...Ela não é uma funcionária comum. Ela foi treinada. Infiltrada. Uma agente do estado profundo para desestabilizar a iniciativa privada."A âncora do jornal tenta interromper, ajeitando o ponto eletrônico:"Mas Sr. Heitor, a Polícia Federal nega qualquer vínculo..."— Claro que nega! — Heitor sobe a voz, a veia do pescoço saltando. — Eles são cúmplices! O Delegado Lucas Falcão é o operador! Ele plantou essa mulher na minha empresa para forjar provas! É uma manobra do Estado para destruir a Romano Group!Aperto o botão do controle. O silêncio bate nas paredes da cobertura, pesado.Minha mãe está na poltrona. O clique metálico das agulhas de tricô é rápido, quase agressivo.— Velho maldito — ela resmunga, sem errar o ponto. — Apelou pro manicômio.— O pior é que cola, mãe. — Ando pela sala, segurando o peso da ba





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