Capítulo 3 – A fuga

O empurrão que Tomás deu no homem foi rápido, impulsivo e desproporcional. O som seco do impacto ecoou pelo bar, chamando atenção de todos ao redor. Cadeiras se arrastaram, alguém gritou para parar, copos ainda caíam no chão enquanto a música seguia tocando, indiferente ao caos recém-instalado.

Ana ficou imóvel por um segundo. Não era medo, mas por incredulidade. Era como se aquela noite tivesse decidido provar que sempre podia piorar.

— Você enlouqueceu? — ela conseguiu dizer, elevando a voz para ser ouvida no meio da confusão.

Tomás não tirava os olhos do homem à sua frente. O maxilar travado. As mãos fechadas em punho.

— Se afasta dela — ele disse, como se tivesse algum direito sobre aquela frase.

O homem deu um passo para trás, confuso, mas não tentou revidar. Apenas olhou para Ana, claramente tentando entender se devia intervir ou simplesmente sair dali.

— Eu não tenho nada a ver com isso — ele murmurou.

Ana sentiu uma onda de vergonha subir pelo peito, misturada com raiva. Tudo o que ela menos queria era ser o centro de um escândalo.

— Chega — ela disse, empurrando Tomás no peito com força. — Você não manda em mim.

O toque pareceu despertar algo nele. Tomás finalmente desviou o olhar do homem e a encarou de verdade. Os olhos estavam escuros, cheios de um desespero que não despertava mais empatia alguma.

— Ana, a gente precisa conversar — insistiu. — Você não pode sair daqui com um estranho.

Ela riu, mas o som saiu trêmulo.

— E eu não podia confiar em você — respondeu. — Mesmo assim, aqui estamos.

As pessoas começavam a se afastar, algumas observando com curiosidade, outras claramente incomodadas. Um segurança se aproximava do fundo do bar. Ana sabia que precisava sair dali. Agora.

Virou-se bruscamente e começou a caminhar em direção à saída, desviando de corpos, empurrando portas, sentindo o coração bater tão rápido que parecia querer saltar pela garganta.

— Ana, espera! — Tomás chamou, indo atrás dela.

Ela não esperou.

O ar frio da rua bateu em seu rosto assim que atravessou a porta. A mudança de ambiente fez a tontura aumentar por um instante. Ana cambaleou levemente, apoiando-se na parede externa do bar para não cair.

Respirou fundo uma, duas vezes. O gosto do álcool ainda queimava no fundo da garganta. Nunca tinha bebido daquele jeito antes. Nunca tinha permitido que o mundo girasse daquela forma sob seus pés.

Ouviu a porta se abrir atrás dela.

— Por favor — Tomás disse, a voz mais baixa agora, quase suplicante. — Vamos conversar com calma.

Ana se afastou da parede e começou a caminhar pela calçada, sem rumo definido. Apenas precisava se afastar dele. O som dos passos atrás dela denunciava que ele não desistiria fácil.

— Para de me seguir — ela disse, sem olhar para trás.

— Você está bêbada — ele retrucou. — Não sabe o que está fazendo.

Ela parou de repente e se virou, fazendo-o quase trombar com ela.

— Eu sei exatamente o que estou fazendo — respondeu, os olhos brilhando de raiva. — Estou indo embora de você. Pela segunda vez nessa noite.

Tomás passou a mão pelos cabelos, frustrado.

— Você está exagerando tudo isso. Foi um erro.

— Não — Ana respondeu. — Foi uma escolha. E agora a minha escolha é ir.

Ela voltou a andar, dessa vez mais rápido. O barulho da cidade se misturava ao sangue pulsando em seus ouvidos. Carros passavam, pessoas falavam alto, luzes piscavam. Tudo parecia intenso demais.

Tomás segurou seu braço mais uma vez.

Foi o estopim.

— Não encosta em mim! — ela gritou, puxando o braço com força.

Algumas pessoas pararam para olhar. Ana sentiu o constrangimento misturar-se à vertigem.

— Você não pode sair assim — ele insistiu. — Não desse jeito.

— Eu posso fazer o que eu quiser — ela respondeu, a voz embargada. — Você perdeu qualquer direito de se preocupar comigo.

Ela se desvencilhou e atravessou a rua sem olhar.

O mundo desacelerou por um segundo.

Ana percebeu o farol tarde demais. O som da buzina cortou o ar. O impacto não foi forte, mas foi suficiente para desequilibrá-la. Ela sentiu o corpo ser empurrado para trás, o chão se aproximando rápido demais.

E então caiu.

Tudo ficou silencioso por um instante breve, quase gentil.

O carro freou completamente poucos metros à frente. A porta do motorista se abriu com rapidez, e passos firmes se aproximaram.

— Você está bem? — uma voz masculina perguntou.

Ana piscou algumas vezes, tentando organizar a visão. O rosto acima dela estava parcialmente desfocado, mas algo na postura — firme, contida — transmitia controle.

— Não toca nela! — Tomás gritou, surgindo ao lado, tentando se abaixar para ajudá-la.

— Se afasta de mim! — Ana gritou, com olhos furiosos em direção a Tomás.

Antes que pudesse encostar, uma mão forte se interpôs entre eles.

— Ela disse para não tocar — a mesma voz masculina respondeu, agora mais dura.

Ana sentiu o alívio antes mesmo de entender por quê.

O homem ajoelhado à sua frente avaliava a situação rapidamente. Os olhos atentos, o tom objetivo.

— Consegue se sentar sozinha? — ele perguntou, olhando diretamente para ela, não para Tomás.

Ana assentiu levemente. Com cuidado, apoiou as mãos no chão e se sentou, sentindo uma leve dor no quadril, nada mais sério. O álcool ainda tornava tudo um pouco distante demais.

Tomás se aproximou outra vez.

— Ela é minha namorada — disse. — Eu cuido disso.

Ana riu, amarga.

— Não sou não.

O homem ergueu-se lentamente, ficando entre eles. Era mais alto do que Tomás, ombros largos, postura imponente sem precisar elevar a voz.

— Ela claramente não quer sua ajuda — disse. — Afaste-se.

Tomás fechou o semblante.

— Isso não é da sua conta.

— Agora é — o homem respondeu. — Eu estava dirigindo o carro que quase a acertou. Vou garantir que ela esteja bem.

Ana se levantou com cuidado, sentindo o mundo inclinar levemente. Deu alguns passos para trás até tocar em algo sólido. Um tronco firme. O peito do desconhecido. Sem pensar, ela se apoiou ali, instintivamente, como quem encontra um ponto fixo em meio ao caos.

— Obrigada — murmurou.

Tomás observava a cena com os olhos cheios de raiva.

— Ana, vem comigo — insistiu. — Vamos pra casa.

Ela levantou o rosto, apoiada no estranho, e encarou Tomás pela última vez naquela noite.

— Eu não vou a lugar nenhum com você — respondeu.

O desconhecido olhou para ela por um segundo a mais, avaliando. Depois falou em tom baixo, apenas para que ela ouvisse.

— Se quiser, posso te dar uma carona.

Ana respirou fundo. O cheiro dele era discreto, limpo, diferente do álcool e do suor ao redor. Algo nela se acalmou.

— Eu quero — disse.

Tomás deu um passo à frente, mas o homem abriu a porta do carro e fez um gesto firme, encerrando qualquer discussão.

— Acabou — disse. — Vá embora.

Houve alguns segundos de tensão, mas, por fim, Tomás recuou. Ana entrou no carro sem olhar para trás.

A porta se fechou, isolando-a do barulho, das vozes e do passado recente.

O carro começou a se mover.

Ana apoiou a cabeça no banco, fechando os olhos por um instante. O coração ainda batia acelerado, mas algo dentro dela finalmente desacelerava.

Ela não sabia quem era aquele homem.

Não sabia para onde estava indo.

Mas, não se sentia em perigo.

Ana abriu os olhos quando ouviu a voz dele novamente, calma e firme:

— Qual é o seu endereço?

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