Capítulo 6 – O sono ao lado

Natan inspirou devagar. Depois, com firmeza contida, ajudou-a a se levantar. Ana tentou manter a postura, mas os dentes batiam de leve.

Ele a conduziu para fora do box e a sentou no tampo fechado da privada. Pegou outra toalha e começou a secar os braços dela, as mãos, o cabelo, como se devolver calor fosse uma forma de devolver controle.

Ele evitou olhar além do necessário. Não era o corpo dela que o prendia ali. Era a coisa mais difícil: o que ela carregava por dentro.

— Por que você fez isso? — perguntou.

Ana apertou a toalha contra o peito.

— Porque eu queria parar de sentir.

A frase saiu simples. Brutal. Como se fosse a única verdade que ela ainda conseguia dizer.

Natan ficou em silêncio. Lógica não alcançava aquele tipo de dor.

Ele terminou de secá-la, então ficou agachado, esperando. Os olhos deles se cruzaram.

E ali ele percebeu com clareza incômoda: Ana não estava confusa. Ela estava ferida. E estava cansada de ser forte.

O choro veio de repente, primeiro contido, depois quebrando em soluços que ela tentou esconder e não conseguiu. Ana levou a mão ao rosto, como se quisesse calar o próprio corpo, mas já era tarde.

Natan não pensou.

Apenas a abraçou.

Foi um abraço firme, sem promessas, sem resgate. Só presença. O tipo de gesto que não resolve nada, mas impede alguém de cair mais um pouco.

Ana se agarrou nele por alguns segundos como se o mundo inteiro estivesse escorregando. O corpo tremia. O calor dela atravessou a camisa dele e acendeu algo desconfortável dentro de Natan: uma reação humana que ele não tinha planejado.

Quando ela se afastou, respirou fundo, tentando se recompor.

— Eu não quero voltar pra casa — disse, num fio de voz. — Eu não quero voltar pra aquela porta… pra aquele corredor… pra aquela…

Ela não terminou.

Natan assentiu uma vez, como se entendesse o suficiente.

— Eu pedi outro quarto — ele disse. — Você vai dormir.

Ana olhou para ele. O olhar estava mais claro agora, sem bravata.

— Eu só preciso de companhia. Só por hoje.

Não soou como pedido para ser salva. Soou como uma verdade crua: ela não aguentava ficar sozinha com a própria cabeça naquela noite.

Natan sentiu o impulso de negar. De impor o limite. De lembrar que ele era um estranho e que isso não era responsabilidade dele.

Mas a imagem dela embaixo da água gelada, tremendo, não saía.

— Você pode se arrepender amanhã — ele disse, ainda tentando oferecer uma saída.

Ana soltou um riso pequeno, triste.

— Eu vou me arrepender de voltar pra casa hoje.

O silêncio se alongou.

Natan se levantou devagar e estendeu a mão.

— Vamos sair daqui.

Ana segurou a mão dele e ficou de pé. Ainda frágil, mas presente.

No quarto, Natan entregou a ela uma camiseta limpa e apontou para o banheiro.

— Troca. Eu vou esperar na sala.

Ela assentiu e entrou.

Quando voltou, vestindo a camiseta grande, cabelo úmido, rosto lavado pelo choro, Ana parecia mais quieta. Mais real. O tipo de beleza que não pede aplauso, mas deixa alguém alerta.

— Deita — Natan disse, apontando para a cama.

Ela deitou sem discutir. Puxou o lençol sobre si.

Natan permaneceu em pé por um momento, como se ainda procurasse o limite correto. O cartão do outro quarto ainda existia no bolso. A decisão “certa” ainda estava disponível.

Mas, naquela noite, o certo parecia sempre chegar tarde.

Ele se sentou na poltrona ao lado da cama, a uma distância segura.

Ana virou o rosto na direção dele.

— Você pode ficar… só até eu dormir? — perguntou.

Natan assentiu.

— Só até você dormir.

O silêncio entre eles não era confortável. Mas era menos cruel do que o silêncio que ela carregava antes.

Ana fechou os olhos. A respiração foi acalmando. Quando o sono começou a vencer, ela estendeu a mão por cima do lençol, procurando algo no ar, um ponto de apoio.

Natan olhou para aquela mão por um segundo longo.

Depois, tocou os dedos dela com os seus.

Um contato mínimo.

Ana apertou de leve e soltou um suspiro que parecia alívio.

E Natan percebeu, com uma clareza desconfortável, que não era a bebida, nem o caos, nem o impulso que o afetavam.

Era o silêncio dela. E o jeito como, mesmo quebrada, ela ainda estava ali.

Horas depois, quando a luz do amanhecer começou a clarear a janela, Natan despertou na poltrona, o corpo inclinado, a cabeça pesada. Olhou para a cama.

O lençol estava esticado demais.

A suíte estava silenciosa demais.

A mão dela não estava mais ali.

Ele se levantou num movimento rápido, atravessou o quarto, e a percepção veio antes de qualquer pensamento: Ana tinha ido embora.

Sobre a mesa, ao lado do cartão do quarto ao lado, havia apenas um copo de água pela metade. Nada escrito. Nada deixado. Nenhum rastro.

Como se aquela noite tivesse sido um segredo que ela se recusava a carregar junto com ele.

Natan ficou parado encarando a porta por alguns segundos, sentindo um incômodo irritante subir pelo peito.

Não era alívio.

Era o contrário.

Ele ainda estava olhando para a maçaneta quando pensou, com uma honestidade que o desagradou:

Se ela não voltar… eu vou procurar.

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