Capítulo 2 – O que se quebra

O silêncio depois do choque foi ensurdecedor.

Ana ainda estava parada no corredor quando Tomás se moveu. O corpo dele reagiu primeiro do que a consciência. Ele se afastou de Karen com pressa desajeitada, puxando o lençol, tentando cobrir algo que já não podia ser escondido. O quarto parecia menor agora, sufocante. O ar carregado demais.

— Ana… — ele disse, a voz quebrada, como se pronunciar o nome dela pudesse reorganizar a realidade.

Ela não respondeu.

Não porque estivesse pensando no que dizer, mas porque não havia palavras disponíveis dentro dela naquele momento. Era como se o idioma tivesse desaparecido. Tudo o que ela sentia passava direto pelo corpo, sem virar som.

O rosto de Karen estava pálido. Os olhos arregalados. Nenhuma frase saía, apenas uma tentativa inútil de se recompor. Aquela mesma garota que conhecia cada detalhe da vida de Ana, que sabia do luto, das noites difíceis, das inseguranças, agora parecia uma estranha.

Ana não olhou para ela novamente.

Girou o corpo lentamente, cada movimento pesado demais, e começou a caminhar em direção à porta. O corredor parecia mais longo do que minutos antes. Como se o apartamento tivesse se estendido apenas para castigá-la.

— Espera — Tomás disse, agora mais alto, atropelando o próprio pânico.

Ela sentiu quando ele se aproximou. O som dos passos atrás dela fez seu estômago revirar. Antes que pudesse alcançar a porta, ele segurou seu braço.

O toque foi suficiente para quebrar algo novo.

Ana puxou o braço com força, finalmente reagindo. O gesto foi rápido, quase instintivo, e Tomás se afastou meio passo, surpreso.

— Me solta — ela disse.

A voz saiu baixa, mas firme de um jeito que ela mesma não reconheceu.

Tomás passou a mão pelos cabelos, desorganizando-os ainda mais. Vestia apenas uma calça qualquer, colocada às pressas. O rosto estava vermelho, os olhos agitados, como alguém que ainda tentava entender como tinha sido exposto tão abruptamente.

— Não é o que você está pensando.

Ela riu. Um som curto, seco, sem humor nenhum.

— Então explica — disse, finalmente levantando os olhos para ele.

Foi a primeira vez que o encarou de verdade desde que entrou no quarto. A imagem se fixou com brutalidade. Não porque ele estivesse seminu, mas porque não havia arrependimento suficiente ali. Havia medo. Havia pressa. Havia desespero para consertar algo que não tinha conserto.

— Foi um erro — ele começou. — Não significou nada.

Ana sentiu o coração bater forte demais, como se quisesse escapar do peito. O mundo ao redor parecia levemente fora de foco, como se estivesse olhando tudo através de um vidro embaçado.

— Nada? — repetiu. — Você transou com minha melhor amiga no seu quarto. E isso não é nada?

Karen apareceu no corredor, enrolada em um lençol. Tentou falar alguma coisa, mas Ana levantou a mão, cortando-a sem precisar olhar.

— Não fala comigo.

A frase saiu automática, carregada de um limite que nunca tinha sido imposto antes.

Karen engoliu em seco. Ficou ali, imóvel, como alguém que percebe tarde demais que não há pedido de desculpas possível.

Tomás respirou fundo, como se estivesse se preparando para um discurso que já vinha ensaiando internamente.

— Ana, você precisa me ouvir.

Ela cruzou os braços, não como defesa, mas como contenção. Se não segurasse o próprio corpo, sentia que poderia se desfazer ali mesmo.

— Eu te ouvi por meses — ela disse. — Te ouvi dizer que me entendia. Que respeitava meu tempo. Que esperaria.

Ele passou a mão pelo rosto, frustrado.

— E eu esperei. Mas eu também tenho necessidades.

A frase pairou no ar por um segundo a mais do que deveria.

Algo se rearranjou dentro de Ana. Não foi tristeza. Não foi decepção. Foi algo mais frio. Mais lúcido.

— Então isso é minha culpa? — perguntou. A voz não tremia. — Você decidiu ir para a cama com outra pessoa porque eu não estava pronta?

Tomás deu um passo em direção a ela, impaciente.

— Não distorce as coisas. Eu te amo.

Ana sentiu vontade de rir de novo. Dessa vez, não se conteve.

— Você sabe qual é o problema dessa frase? — ela perguntou, finalmente se movendo até a porta. — Ela sempre vem depois de um erro, nunca antes.

Ele tentou segurá-la de novo, dessa vez com mais força.

— Não vai embora assim. A gente precisa conversar.

O toque fez algo escurecer na visão dela. Ana puxou o braço com violência.

— Não encosta em mim.

As palavras saíram mais altas agora. Cortantes.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Karen deu um passo para trás. Tomás ficou parado, os punhos cerrados, dividido entre a raiva e o medo de perdê-la.

— Você está exagerando — ele disse, finalmente. — Foi só sexo.

Ana parou.

Virou-se devagar.

Aquela frase caiu como um golpe preciso.

— Exatamente — ela respondeu. — Foi só sexo. E ainda assim, você destruiu tudo.

Ela abriu a porta e saiu.

O som da porta se fechando atrás dela pareceu marcar o fim de algo que, no fundo, já estava quebrado há muito tempo.

A escada do prédio parecia instável sob seus pés. Ana desceu sem olhar para trás, a respiração curta, o peito apertado demais para comportar o ar que tentava entrar. Quando finalmente chegou à rua, parou por um instante, apoiando as mãos nos joelhos, tentando recuperar o fôlego.

As lágrimas vieram sem aviso.

Não eram silenciosas. Eram profundas, arrancadas do fundo do peito, carregadas de uma dor que não tinha por onde sair. Ela chorava pela traição, mas também pela mãe, pela solidão, pelo tempo que acreditou estar sendo compreendida.

Perder a mãe tinha aberto um buraco. Aquilo apenas empurrou Ana para dentro dele.

Caminhou sem direção por alguns minutos. As ruas se misturavam. O barulho dos carros parecia distante. A cidade continuava funcionando normalmente, indiferente ao colapso particular que acontecia ali.

Como fui tão burra?, pensou.

A pergunta se repetia como um mantra cruel. Ela tinha se guardado. Tinha acreditado. Tinha esperado. Sete meses de relacionamento construídos sobre cuidado aparente e promessas de compreensão. Tudo desmontado em poucos segundos.

A raiva começou a surgir misturada à dor.

Raiva de Tomás.

Raiva de Karen.

Raiva de si mesma.

Quando percebeu, estava parada em frente a um bar que nunca tinha entrado antes. Luzes baixas, música escapando pela porta, risadas altas demais. Um contraste perfeito com o silêncio que carregava por dentro.

Ficou ali por alguns segundos, observando as pessoas entrarem e saírem. Todas pareciam ter algo que ela tinha acabado de perder: leveza.

Sem pensar demais, entrou.

O cheiro de álcool e perfume barato a atingiu de imediato. Ana sentou-se no balcão, apoiando o cotovelo, tentando se recompor o suficiente para parecer normal.

— O que vai querer? — perguntou o bartender.

Ela hesitou por um segundo. Não tinha o hábito de beber. Quase não bebia, na verdade. Mas naquela noite, isso parecia irrelevante.

— Qualquer coisa forte.

O copo apareceu à sua frente minutos depois. Ana encarou o líquido por alguns segundos antes de levar à boca. O gosto ardeu na garganta, queimando mais do que ela esperava, mas não reclamou.

Talvez fosse isso que precisava. Algo que doesse de um jeito diferente.

Virou metade do copo de uma vez só.

A sensação foi imediata. Um calor estranho se espalhou pelo corpo, misturado a uma leve tontura. Ana fechou os olhos por um instante, respirando fundo.

Se guardar pra quê?, pensou. Pra isso?

A ideia se formou aos poucos, perigosa e sedutora. Ela tinha seguido regras. Tinha sido cautelosa. Tinha esperado o momento certo. E ainda assim, tudo tinha dado errado.

Talvez estivesse cansada de esperar.

Talvez estivesse cansada de ser a garota compreensiva. Forte. Contida.

Abriu os olhos quando sentiu alguém se aproximar.

Um homem de cabelos castanhos, sorriso fácil, parado a uma distância respeitosa. Ele não parecia invasivo. Apenas curioso.

— Dia ruim? — perguntou.

Ana deu de ombros.

— Você não faz ideia.

Ele sorriu de canto.

— Quer companhia?

Ela o observou por alguns segundos. Avaliou o jeito como ele a olhava, sem julgamento, sem pressa. Pela primeira vez desde que entrou ali, sentiu-se vista.

— Talvez — respondeu.

O copo foi esvaziado lentamente enquanto enquanto outro era servido e conversavam sobre nada importante. Pequenos detalhes. Perguntas simples. Risadas tímidas. Quando percebeu, havia calor demais entre eles. Um toque no braço. Uma mão nas costas.

Ana não recuou.

O beijo aconteceu de forma inesperada, carregado mais de decisão do que de desejo. E, ainda assim, fez seu corpo reagir.

Até tudo ser interrompido com violência.

Um empurrão brusco. O copo caiu no chão. Vozes se elevaram ao redor.

— O que você está fazendo? — Tomás gritou.

O mundo voltou ao caos em segundos.

Antes que Ana pudesse reagir, a confusão se formou ao redor deles, e ela soube, no fundo, que aquela noite ainda estava longe de terminar.

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