Mundo ficciónIniciar sesiónNeste romance de época, o cotidiano da fronteira sul do país é marcado pela reconstrução após as revoluções, pela ausência dos que não retornaram e por amores que atravessam o tempo e as cicatrizes da guerra. Em meio a esse cenário, Maria Júlia enfrenta uma luta íntima entre as obrigações impostas à passividade feminina de sua época e o espírito indomável herdado de suas origens charruas. Seu destino cruza com o de Don Fernando, um homem influente e oficial militar pertencente às tropas inimigas de sua família. Mesmo após o fim da Revolução Federalista, ambos descobrem que as batalhas mais difíceis não se encerram nos campos de guerra, mas persistem na tentativa de viver um amor que nem o tempo nem as distâncias rasgadas pela fronteira poderão detê-lo.
Leer más“Há amores que não pertencem ao tempo, mas à terra e ao vento. Quando a memória não alcança, a lenda se encarrega de guardar”
Fim do século XIX, nas margens do Rio Jaguarão, a fronteira era mais do que linha divisória — era um território de encontros e desavenças, onde o Brasil e o Uruguai se olhavam como irmãos que ora se abraçavam, ora se enfrentavam. Um cenário de contrabando, festas populares e memórias das batalhas que sangraram aquele chão. Ainda ecoavam, nas conversas à meia-voz e nos causos repetidos ao redor do fogo, as marcas da Revolução Farroupilha. Não como um livro fechado, mas como ferida mal cicatrizada. Os estancieiros lembravam os dias em que o Rio Grande ousou sonhar república, desafiando o Império, enquanto a fronteira servia de refúgio, passagem e esperança para homens armados de ideais e pólvora. Do lado uruguaio, aliados e adversários se alternavam conforme o vento da política, e a neutralidade nunca era completa. A rivalidade não se limitava às armas. Ela se estendia aos costumes, à terra disputada, ao gado que cruzava o rio sem pedir permissão, aos sotaques que se misturavam nas feiras e tavernas. Brasileiros e orientais compartilhavam o mesmo horizonte aberto, mas carregavam memórias distintas do poder, da lealdade e da honra. Assim, naquela fronteira viva, o passado não repousava: caminhava ao lado dos vivos, moldando escolhas, inflamando paixões e lembrando a todos que ali, entre um país e outro, a história nunca fora apenas passado — era presença constante. Ali, Júlia cresceu e tornou-se mulher, entre o peso da memória e a aspereza do presente. O pai, veterano da Guerra do Paraguai, permanecia acamado, prisioneiro de lembranças que não lhe concediam repouso. Durante o dia, seus olhos turvos vagavam entre o teto e a janela, como se ainda buscassem o clarão distante das batalhas. À noite, porém, a guerra retornava com mais crueldade. Em delírios febris, chamava pelo nome da esposa morta, estendendo as mãos no escuro, certo de que ela viria ao seu encontro. Júlia o escutava em silêncio, sentada à beira da cama, enquanto aquelas palavras rasgavam o tempo e reacendiam ausências. O amor que os unira fora intenso e improvável. Ele, filho de estancieiros respeitados; ela, marcada por uma origem que a família dele jamais aceitou. Havia quem dissesse que seu sangue não lhe concedia direito àquelas terras, como se a história pudesse ser apagada por sobrenomes e escrituras. Ainda assim, amaram-se à revelia do desprezo e das vozes que os condenavam. Construíram a vida sobre um chão contestado, carregando a certeza silenciosa de que nem toda posse se escreve em papel — algumas se afirmam na resistência, no trabalho e na permanência. Agora, entre a doença e a memória, restava ao velho Coronel apenas a companhia dos fantasmas e a fidelidade tardia a um amor que nem a guerra, nem o preconceito, conseguiram destruir. Ao lado do irmão Pedro — homem de palavra dura e temperamento irascível, marcado também pelos combates da Revolução Federalista — Júlia se habituara a ouvir sem contestar. Concordava em silêncio com seus discursos inflamados, apenas para apaziguá-lo e retomar a rotina do casarão, onde encontrava refúgio nos pequenos afazeres. Na fazenda, os dias seguiam lentos, arrastados como se o tempo também tivesse feridas a cicatrizar. Pedro se ocupava das negociações de couro e lã, em meio às disputas e alianças que a vida na fronteira impunha. Era uma convivência ambígua, feita de rivalidade e de integração: o mesmo portão que se abria para o compadre oriental, podia fechar-se com desconfiança diante do vizinho brasileiro. E Júlia, entre ecos de guerra e a monotonia dos campos, aprendia a viver nesse espaço de contrastes — onde a terra guardava tanto sangue quanto esperança, e onde seu destino começava a se desenhar em silêncio Julia e Pedro eram filhos de Ernesto e Isabel Anahí, mulher de alma forte, herdeira do sangue charrua que corria por aquelas campanhas do Rio Grande do Sul. Da mãe guardava os olhos escuros e profundos, como quem carrega em silêncio histórias mais antigas que a própria memória. Do pai herdara a postura firme e o senso de disciplina, ainda suavizados pela delicadeza que sempre a distinguia. Das feições morenas e cabelos fartos, Julia parecia carregar em si mescla de dois mundos: o rigor militar de Ernesto e a ancestralidade indômita de Isabel. Cresceu com um espírito livre, inquieto, mas trazia um coração generoso, puro, comovido sempre com a dor alheia. Era observadora, silenciosa, aprendendo a escutar os rumores da vida, mesmo antes de aprender a falar sobre ela. A tragédia marcou cedo sua existência. Isabel sua mãe, adoeceu subitamente. Alguns diziam ser febres trazidas pelas águas, outras que fora a fragilidade daquele coração cansado. Partiu quando Júlia ainda mal sabia compreender o luto, deixando-a órfã de um colo que lhe seria eterno refúgio. A ausência da mãe a fez forte mais cedo do que a idade pedia, aprendeu a encontrar no silêncio das lembranças o afago que tanto lhe fazia falta. Tornou-se o próprio espírito da fronteira: a disciplina e a fúria dos campos de batalha e a liberdade indomável das pradarias. Pedro, o irmão mais velho, tinha temperamento firme, forjado nas lides da Revolução Federalista. Era homem de fala dura, mas de coração atento, e, embora muitas vezes parecesse severo, guardava para Júlia um zelo silencioso, sobretudo porque Ernesto, já debilitado, pouco podia lhe oferecer além da lembrança dos tempos de glória e dor. Pedro vivia na fazenda com a esposa — uma mulher bondosa, de gestos simples — e os filhos pequenos, que traziam alegria e movimento àquela casa grande. Entre eles reinava certa harmonia, como se cada um compreendesse a importância de manter de pé o legado deixado pelos pais, mesmo em tempos de instabilidade. A fazenda se estendia sobre campos vastos, onde ovelhas pastavam em rebanhos cerrados, cobrindo a paisagem de branco e movimento. A lã era fiada em paciência e suor, tornando-se moeda de sustento nas feiras da fronteira. Do couro, Pedro fazia negócios com tropeiros que vinham e iam, carregando nas mulas a vida de dois países que se tocavam sem nunca se fundir. O gado, rústico e bravo como convinha àquele tempo, era cuidado com persistência. Pedro, embora severo, buscava sempre melhorar o rebanho, cruzando raças, escolhendo os mais fortes, como quem sabia que a prosperidade exigia trabalho incansável. Para Júlia, a fazenda era ao mesmo tempo prisão e horizonte. Nos amanheceres, contemplava os campos dourados pelo sol, o mugido dos bois e o balido das ovelhas compondo uma sinfonia agreste. E, entre os afazeres, sonhava em silêncio, guardando no peito uma inquietação que parecia maior que o casarão, maior que a própria fronteira. Talvez herança charrua, um impulso por uma liberdade que gritava distante das mangueiras e um impulso por uma liberdade que gritava distante das mangueiras e das cercas de arame farpado. Essa força se revelava quando montava. No lombo dos cavalos, Júlia deixava transbordar o que o corpo em terra precisava conter. Galopava pelas planícies como quem conversa com o vento, sentindo-se inteira, sem amarras, pertencente apenas ao instante. Ali, sua coragem não pedia licença, e o mundo parecia caber no compasso firme dos cascos sobre a relva. Mas o tempo, implacável, lhe impôs outra travessia. Com a doença do pai, os campos se estreitaram. As rédeas foram penduradas, os galopes substituídos pelo silêncio dos quartos fechados e pelo ritmo lento da respiração alheia. Júlia permaneceu. Cuidou, velou, sustentou a casa com a mesma firmeza com que antes domava cavalos bravos. Aprendeu que a liberdade, às vezes, não está em partir, mas em ficar — ainda que o coração siga correndo, indomável, pelas planícies que ela agora apenas observa da janela.A primavera chegou à fazenda como uma promessa cumprida. Os campos se cobriram de cores, e as flores regionais surgiram com força — o amarelo vivo das marcelas, o lilás delicado das corticeiras em flor, pequenas flores brancas que brotavam entre a relva como se o chão respirasse esperança. O ar tornara-se mais leve, perfumado, e os dias se alongavam em luz. Mas em María Júlia, nada florescia. O noivado havia se concretizado. As palavras foram ditas, os acordos selados, e agora o futuro lhe pesava como um destino imposto. Embora tudo ao redor celebrasse a renovação, ela carregava no peito uma tristeza funda, silenciosa, que não encontrava espaço para existir. No pescoço, escondida sob o tecido simples do vestido, repousava a joia de Don Fernando. O pequeno coração de pedra era sua âncora e sua tormenta. Ela o tocava quase sem perceber, como quem confirma que algo verdadeiro ainda pulsa. Certo dia, Pedro notou o brilho discreto quando o sol tocou-lhe o colo. — Essa pedra… — disse,
Don Fernando deu um passo atrás, respeitando o limite que ambos sabiam existir. Depois, virou-se e partiu, deixando para trás não apenas a margem erma, mas um coração que já não lhe pertencia por inteiro. Júlia permaneceu ali por alguns instantes, as mãos fechadas sobre a joia, sentindo que naquele beijo havia atravessado uma fronteira da qual não sabia se conseguiria voltar. A voz de Stephanie rompeu o silêncio. — Júlia! Júlia! Chamava-a com insistência, aproximando-se pela margem, até encontrá-la imóvel, à beira do rio. Don Fernando já não estava ali. Restava apenas o curso lento da água e o eco distante do que havia sido dito — e sentido. Júlia permanecia estagnada, como se o corpo tivesse ficado para trás enquanto algo dentro dela avançara sem retorno. Era uma mistura impossível de nomear: surpresa, apreensão, emoção. Um turbilhão intenso demais para caber em palavras. O beijo ainda ardia em sua memória, recente como uma chama que se recusa a apagar. — Onde você estava? — pe
Muitos dias haviam se passado desde aquela partida. O tempo seguira seu curso lento, como se a fazenda respirasse no mesmo ritmo das estações. Naquela manhã, Júlia e Stephanie estavam no galpão da lã, onde o ar guardava o cheiro morno dos fardos recém-lavados e o pó dourado dançava à luz que atravessava as frestas da madeira antiga. As mãos trabalhavam quase sozinhas, entrelaçando fios, enquanto o som baixo das conversas dos empregados se misturava ao canto distante dos pássaros.Havia uma beleza serena naquele cenário rústico — a lã branca acumulada como nuvens ao chão, os aventais gastos pelo uso, o murmúrio da vida simples que insistia em seguir, apesar das inquietações do coração.Stephanie observava Júlia em silêncio por alguns instantes, até quebrar a quietude com suavidade.— Depois do almoço você precisa se arrumar — disse, com um meio sorriso —. Pedro vai nos levar até o comércio. Chegaram mercadorias da capital… tecidos novos, rendas finas. Precisamos escolher o vestido do n
Pedro sempre acreditara que certas decisões não nasciam do afeto, mas da necessidade. A ideia de casar Júlia com o Capitão Sales vinha de longe, forjada ainda nos dias ásperos da Revolução, quando promessas valiam mais do que contratos escritos. Sales fora seu superior direto nos combates. Homem de confiança entre os oficiais, havia protegido Pedro em momentos decisivos e, em troca, prometera-lhe apoio quando a guerra cessasse — influência, proteção política e portas abertas para assegurar o futuro da fazenda em tempos incertos. Para Pedro, aquela dívida não era apenas pessoal; era estratégica. O Capitão tinha a mesma idade que ele, mas eram homens moldados por mundos distintos. Sales estudara longe das estâncias, aprendera a manejar palavras e armas com igual destreza, e jamais se adaptara à lida rude dos campos. Preferia os salões, os cafés, os quartéis organizados da capital. Era conhecido por sua facilidade com mulheres e pelo gosto excessivo pelos tragos — algo que Pedro via, m
O caminho de volta estendia-se sob o céu carregado, rasgado por relâmpagos que, por instantes breves, iluminavam a campina como se revelassem segredos guardados na noite. Júlia seguia adiante sem apressar o passo. A chuva encharcava-lhe as saias, tornava o tecido pesado contra as pernas, mas ela mal percebia. O corpo sentia o frio; o pensamento, não. Este permanecia preso ao salão da Estância Soledad. A lembrança da aproximação de Don Fernando surgia nítida, quase palpável. Ele havia se colocado perto demais — o suficiente para que ela sentisse o calor de sua respiração, o leve roçar de sua presença, o silêncio carregado que se instalara entre ambos. Não fora um gesto indevido, tampouco uma palavra imprópria, mas havia algo em seu olhar que a buscava com insistência, como se tentasse atravessar-lhe a alma. Um olhar que não pedia permissão, apenas reconhecia. Um novo clarão cortou o céu, e por um instante o mundo tornou-se branco. Júlia respirou fundo. Quase lhe escapou um sorriso —
A Estância estava em festa, onde bombachas bem passadas e vestidos finos que não haviam enfrentado a chuva daquela manhã, se misturavam aos chapéus e gargalhadas de gente conhecida entre si. Taças erguidas ao compasso a música que vinha da varanda. Julia, porém, não vinha dessa roda. Vinha de outra realidade, a qual não conhecia de chapéus nem das jóia que exibiam aquelas mulheres. Trazia o barro agarrado às botas, e as tranças quase desfeitas pela chuva escapavam-lhe os fios rebeldes. O barro dos sapatos pesou os passos, mas seguiu adiante com o olhar incrédulo e relutante de Pedro que ficou um passo atrás sem estar seguro sobre seguir ou voltar, afinal “os do lenço branco” mostrava-lhes que estavam de lados opostos. Mas afinal, fronteira não se marca apenas com cercas, também se marca pelo mate que passa de mão em mão e pelo “che”ou “bah”, mesmo em lados opostos pelos interesses políticos e comerciais, todos ali em sua maioria, estancieiros negociando, erguendo suas próprias b





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