Mundo ficciónIniciar sesiónO líquido queimou, mas a deixou mais consciente, estranhamente focada.
Ana pousou a garrafa no minibar como se tivesse acabado de tomar uma decisão definitiva. O quarto estava silencioso demais para uma noite como aquela. As luzes da cidade entravam pela janela e desenhavam reflexos pálidos no tapete, como se o mundo lá fora estivesse distante e intacto demais. Natan a observou por um segundo, a expressão fechada, o maxilar firme. Não parecia irritado com a bebida em si. Parecia irritado com a falta de controle que aquela noite insistia em impor. — Você não precisa provar nada — ele disse, a voz baixa. Ana soltou uma risada curta, sem humor. — Eu não estou provando nada. Eu só… — parou no meio, como se não quisesse terminar a frase. Natan respirou fundo, então pegou o telefone novamente. O tom dele ao falar com a recepção foi seco, eficiente. Pediu um quarto separado. Pediu discrição. Pediu agilidade. O tipo de pedido que não abre espaço para discussão. Quando desligou, olhou para Ana como se estivesse finalizando um assunto. — Você vai dormir no outro quarto. É mais adequado. Ana ergueu o queixo, mas não discutiu. Apenas caminhou até a cama e se sentou na beirada, o corpo finalmente cobrando o peso do álcool e do dia. Os ombros caíram, como se a ousadia tivesse sido um empréstimo curto que venceu de repente. Natan tirou do bolso um cartão-chave recém-entregue pelo hotel e colocou sobre a mesa. — Assim que alguém do hotel subir, você vai ser acompanhada. Eu só preciso resolver isso e encerrar a noite. Resolver. Encerrar. Era o vocabulário dele. Ana deitou de lado, puxando o lençol por cima do corpo, sem a delicadeza de quem se importa com aparência. O rosto ficou virado para a parede. Por alguns segundos, pareceu adormecer. Natan ficou na sala da suíte, de costas para o quarto, como se a distância fosse uma proteção necessária. Ele não gostava do silêncio. Mas gostava menos ainda da confusão que as pessoas faziam quando estavam quebradas. O interfone tocou. Natan atendeu, ouviu uma frase curta de alguém do hotel, abriu a porta e recebeu uma nova chave de acesso, com instruções objetivas. Não haveria funcionário entrando. O hotel funcionava com eficiência: ele era o responsável por conduzi-la até o outro quarto. Ótimo, pensou, sem qualquer entusiasmo. Entrou no quarto com passos controlados. Ana continuava na cama, aparentemente dormindo. O cabelo escuro espalhado no travesseiro. A respiração lenta. O corpo quieto demais para alguém que, minutos antes, parecia fogo. Ele parou ao lado da cama e falou baixo: — Ana. Eu vou te levar para o outro quarto. Nenhuma resposta. Natan respirou fundo e estendeu a mão para tocar o ombro dela, mínimo, funcional. Não foi um gesto carinhoso. Foi um gesto de logística. O que aconteceu em seguida o pegou completamente desprevenido. Ana ergueu a mão de repente, segurou o rosto dele com firmeza e o puxou para um beijo. Natan congelou. O beijo não foi agressivo. Foi quente. E, ao mesmo tempo, havia uma ternura estranha ali, como se aquela fosse a única maneira que ela conhecia de pedir alguma coisa sem se partir em voz alta. Ele se afastou rápido, quebrando o contato. — Não — disse, firme. Ana abriu os olhos devagar. Os olhos verdes estavam brilhantes, mas não vazios. Havia álcool, sim. Havia cansaço. Mas havia intenção. — Eu estou lúcida — ela disse, como se estivesse cansada de que a tratassem como um erro. Natan apertou o cartão-chave na mão. — Você bebeu. Você não está em condições de decidir nada. Ana o encarou com uma frieza que não combinava com a fragilidade dela poucos minutos antes. — Eu bebi porque hoje eu não consegui respirar — respondeu. — Não pra desligar minha cabeça. Natan sentiu um incômodo subir pelo peito, irritação misturada a algo mais difícil de nomear. — Você vai agradecer amanhã por eu ter sido responsável hoje — ele disse, tentando ancorar a noite em alguma lógica. Ana soltou um riso pequeno. — Amanhã eu vou lembrar de tudo. A frase não soou como chantagem. Soou como verdade. Um cansaço antigo. Natan ficou em silêncio por um segundo. — Você vai dormir. Sozinha. No outro quarto — insistiu. Ana desviou o olhar, e a ousadia nela pareceu falhar. Ela puxou o lençol para cima, cobrindo melhor o corpo, como se de repente tivesse lembrado que existia vergonha. — Eu sou uma decepção — murmurou. A frase não pareceu para ele. Pareceu para ela mesma. Natan franziu a testa. — Você nem me conhece. Ana assentiu, devagar. — Eu me conheço. Eu sei como eu pareço. Eu sei… — ela fez um gesto vago, como se o quarto inteiro fosse uma prova contra ela. — Eu sei o que eu virei hoje. Ela engoliu em seco, e a voz saiu menor. — Me desculpa. Antes que Natan respondesse, Ana se levantou e foi em direção ao banheiro. A porta fechou. O clique da tranca soou como uma decisão. Natan ficou parado por alguns segundos com o cartão-chave na mão, como se aquela solução fosse subitamente inútil. Ele não tinha tempo para drama juvenil, repetiu mentalmente. Não tinha. E ainda assim, o silêncio do banheiro não parecia “juvenil”. Parecia perigoso de um jeito quieto. Ele voltou para a sala e sentou-se, tentando esperar com paciência. Minutos passando. O relógio do hotel parecia alto demais. A cidade continuava viva do lado de fora, indiferente. Trinta minutos. Tempo suficiente para um banho, um choro curto, um sono. Tempo suficiente para alguém se perder. Natan se levantou e foi até a porta do banheiro. Bateu duas vezes. — Ana? Você está bem? Nada. Bateu de novo, mais firme. — Ana. Silêncio. A falta de resposta acendeu um alerta instantâneo nele, não emocional, quase instintivo. Não era cuidado romântico. Era uma reação objetiva: algo estava fora do padrão. Ele girou a maçaneta. A porta abriu. O vapor o atingiu primeiro. Em seguida, o som da água correndo. E então ele viu. Ana estava sentada no chão do box, completamente vestida, debaixo do chuveiro, com água gelada caindo sobre o cabelo e os ombros. O corpo tremia. Os joelhos recolhidos. Os braços abraçando as pernas como se tentasse se impedir de se desfazer. Natan ficou imóvel por um segundo. Aquilo era mais íntimo do que um beijo. Mais íntimo do que qualquer pele. Ele se moveu sem pensar demais, alcançou o registro e fechou o chuveiro. O barulho da água cessou, e o silêncio que ficou foi quebradiço. Ana levantou o rosto. Os olhos vermelhos. Nenhuma confusão, nenhum teatro. Só tristeza. Daquelas que não pedem permissão. — Eu tô bem — ela disse, automaticamente. — Você não precisa se preocupar. Natan não respondeu. Ajoelhou-se ao lado dela e pegou uma toalha grande. Envolveu os ombros dela primeiro, protegendo-a, como se o corpo tremendo fosse um problema que ele precisava conter com as mãos. — Você vai ficar doente — ele disse, baixo. — Tanto faz — ela murmurou, sem força.






