Capítulo 4 – Sem endereço

Ana demorou alguns segundos para responder.

O carro seguia pelas ruas iluminadas, o som abafado da cidade atravessando os vidros fechados. O interior era silencioso demais, organizado demais. Nada fora do lugar. O cheiro era limpo, neutro, distante do álcool que ainda dominava seus sentidos.

— Você pode repetir? — ela pediu, a voz levemente arrastada.

O homem ao volante não desviou os olhos da rua.

— Seu endereço — disse, sem impaciência. — Para onde devo levar você?

Ana apoiou a cabeça no encosto do banco e soltou uma risada curta, incrédula. A pergunta parecia simples, mas abriu um buraco estranho dentro dela.

Endereço.

Casa.

Lugar seguro.

Nada disso fazia sentido naquele momento.

— Não — ela respondeu por fim.

Ele franziu a testa, quase imperceptivelmente.

— Não… o quê?

— Não quero ir para casa.

O silêncio se instalou novamente, mais denso agora. O carro parou em um semáforo. Ele finalmente virou o rosto na direção dela, analisando-a com atenção contida. Não havia julgamento ali. Apenas cálculo.

— Você está alcoolizada — disse. — Talvez não seja a melhor noite para decisões definitivas.

Ana soltou o ar lentamente, sentindo a irritação se misturar à tontura.

— Hoje nada é definitivo — murmurou. — Só… errado o suficiente pra funcionar.

O sinal abriu. Ele voltou a dirigir.

— Você tem alguém que possa ligar? — perguntou. — Um amigo. Uma amiga.

Ana pensou em Karen e sentiu o estômago revirar.

— Não.

Pensou em Tomás.

— Não mesmo.

— Família?

A imagem da mãe surgiu de forma tão abrupta que Ana fechou os olhos por um segundo a mais do que deveria.

— Também não.

Ele percebeu. Não insistiu. Apenas fez uma curva suave à direita.

— Então me diga ao menos um bairro — disse. — Alguma referência.

Ana virou o rosto em direção à janela. As luzes passavam borradas, irreais. Tudo parecia distante demais, como se estivesse assistindo à própria vida através de um vidro grosso.

— Posso ir com você?

A pergunta saiu antes que ela pudesse pensar melhor.

O carro freou levemente, não de forma brusca, mas o suficiente para denunciar surpresa.

— Como é?

Ela se virou, encarando-o agora com mais atenção. Os olhos dele eram escuros, atentos, calculistas. Não havia calor neles. Nem indulgência. Era exatamente por isso que ela sentiu coragem.

— Só por hoje — acrescentou. — Eu… não quero ficar sozinha.

Ele respirou fundo, os dedos apertando levemente o volante.

— Isso não é uma boa ideia.

— Nenhuma das minhas hoje foi — ela respondeu. — Ainda assim, estou viva.

O silêncio voltou a se estender. Ele parecia ponderar opções, riscos, consequências. Ana quase conseguia ver os cálculos se formando.

— Eu posso te deixar em um hotel — disse por fim.

Ela inclinou o corpo levemente na direção dele.

— Melhor ainda.

Ele lançou um olhar rápido para ela. Havia algo quase incrédulo ali.

— Você sempre faz esse tipo de coisa?

Ana deu de ombros.

— Normalmente, não. — Pausou, então sorriu de lado. — Hoje eu perdi o direito ao “normal”.

Ele soltou um suspiro lento.

— Você não deveria beber mais — disse.

— Acho que não devo fazer muitas coisas — rebateu. — Mesmo assim… preciso esquecer meu dia de merda.

Ela apoiou a cabeça no vidro novamente. A cidade continuava passando, indiferente. Aos poucos, o corpo começou a ceder ao cansaço. O álcool, a tensão, a descarga emocional. Tudo cobrava seu preço.

— Meu nome é Natan — ele disse, depois de alguns minutos. Não havia intimidade no tom. Era apenas informação.

Ana sorriu sem abrir os olhos.

— Ana.

O nome pareceu ficar suspenso no carro por um instante a mais do que deveria.

— Prazer — ele disse.

— Mais ou menos — ela respondeu.

Ele quase sorriu. Quase.

O hotel surgia à frente, alto, discreto, elegante. Nada chamativo. O tipo de lugar escolhido por alguém que não tinha tempo para excessos.

Quando o carro parou na área de desembarque, Ana já lutava contra o sono.

— Chegamos — disse Natan, desligando o motor.

Ela abriu os olhos lentamente.

— Promete que não vai me deixar dormindo aqui fora?

Ele a observou por alguns segundos antes de responder.

— Prometo.

Natan desceu do carro e contornou até a porta dela. Abriu com cuidado.

— Consegue andar?

Ana tentou se levantar. As pernas protestaram imediatamente.

— Talvez não.

Ele hesitou por um breve instante. Depois, com um gesto firme, passou um braço ao redor da cintura dela e a ajudou a sair. O contato foi rápido, calculado, mas suficiente para que Ana sentisse um choque leve percorrer o corpo.

— Você pesa menos do que parece — ele comentou, mais para si mesmo.

— Estou cheia de surpresas — ela murmurou.

Ele não respondeu.

No elevador, o silêncio se tornou quase físico. Ana observava o reflexo deles no espelho polido. Ele alto, composto, sério. Ela pequena ao lado dele, olhos brilhando demais, expressão cansada demais.

Quando as portas se abriram, Natan a guiou pelo corredor até a suíte. Ao entrar, acendeu as luzes e apoiou Ana cuidadosamente na cama.

— Vou pedir um quarto para você — disse, já pegando o telefone. — Dormir aqui não é adequado.

Ela o observou enquanto ele falava com a recepção, a postura reta, a voz firme, controlada. Quando desligou, Ana já estava sentada na cama, os sapatos jogados no chão.

— Pode me trazer uma bebida antes de eu ir? — perguntou.

Ele fechou os olhos por um instante. Muito rápido. Quase imperceptível.

— Acho que você já bebeu o suficiente.

Ana levantou-se devagar, caminhando até o minibar.

— Não confia em mim? — perguntou, abrindo uma garrafa qualquer.

Antes que ele pudesse responder, ela tomou um gole longo. O líquido queimou, mas a deixou mais consciente, estranhamente focada.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App