Mundo de ficçãoIniciar sessãoAna demorou alguns segundos para responder.
O carro seguia pelas ruas iluminadas, o som abafado da cidade atravessando os vidros fechados. O interior era silencioso demais, organizado demais. Nada fora do lugar. O cheiro era limpo, neutro, distante do álcool que ainda dominava seus sentidos. — Você pode repetir? — ela pediu, a voz levemente arrastada. O homem ao volante não desviou os olhos da rua. — Seu endereço — disse, sem impaciência. — Para onde devo levar você? Ana apoiou a cabeça no encosto do banco e soltou uma risada curta, incrédula. A pergunta parecia simples, mas abriu um buraco estranho dentro dela. Endereço. Casa. Lugar seguro. Nada disso fazia sentido naquele momento. — Não — ela respondeu por fim. Ele franziu a testa, quase imperceptivelmente. — Não… o quê? — Não quero ir para casa. O silêncio se instalou novamente, mais denso agora. O carro parou em um semáforo. Ele finalmente virou o rosto na direção dela, analisando-a com atenção contida. Não havia julgamento ali. Apenas cálculo. — Você está alcoolizada — disse. — Talvez não seja a melhor noite para decisões definitivas. Ana soltou o ar lentamente, sentindo a irritação se misturar à tontura. — Hoje nada é definitivo — murmurou. — Só… errado o suficiente pra funcionar. O sinal abriu. Ele voltou a dirigir. — Você tem alguém que possa ligar? — perguntou. — Um amigo. Uma amiga. Ana pensou em Karen e sentiu o estômago revirar. — Não. Pensou em Tomás. — Não mesmo. — Família? A imagem da mãe surgiu de forma tão abrupta que Ana fechou os olhos por um segundo a mais do que deveria. — Também não. Ele percebeu. Não insistiu. Apenas fez uma curva suave à direita. — Então me diga ao menos um bairro — disse. — Alguma referência. Ana virou o rosto em direção à janela. As luzes passavam borradas, irreais. Tudo parecia distante demais, como se estivesse assistindo à própria vida através de um vidro grosso. — Posso ir com você? A pergunta saiu antes que ela pudesse pensar melhor. O carro freou levemente, não de forma brusca, mas o suficiente para denunciar surpresa. — Como é? Ela se virou, encarando-o agora com mais atenção. Os olhos dele eram escuros, atentos, calculistas. Não havia calor neles. Nem indulgência. Era exatamente por isso que ela sentiu coragem. — Só por hoje — acrescentou. — Eu… não quero ficar sozinha. Ele respirou fundo, os dedos apertando levemente o volante. — Isso não é uma boa ideia. — Nenhuma das minhas hoje foi — ela respondeu. — Ainda assim, estou viva. O silêncio voltou a se estender. Ele parecia ponderar opções, riscos, consequências. Ana quase conseguia ver os cálculos se formando. — Eu posso te deixar em um hotel — disse por fim. Ela inclinou o corpo levemente na direção dele. — Melhor ainda. Ele lançou um olhar rápido para ela. Havia algo quase incrédulo ali. — Você sempre faz esse tipo de coisa? Ana deu de ombros. — Normalmente, não. — Pausou, então sorriu de lado. — Hoje eu perdi o direito ao “normal”. Ele soltou um suspiro lento. — Você não deveria beber mais — disse. — Acho que não devo fazer muitas coisas — rebateu. — Mesmo assim… preciso esquecer meu dia de merda. Ela apoiou a cabeça no vidro novamente. A cidade continuava passando, indiferente. Aos poucos, o corpo começou a ceder ao cansaço. O álcool, a tensão, a descarga emocional. Tudo cobrava seu preço. — Meu nome é Natan — ele disse, depois de alguns minutos. Não havia intimidade no tom. Era apenas informação. Ana sorriu sem abrir os olhos. — Ana. O nome pareceu ficar suspenso no carro por um instante a mais do que deveria. — Prazer — ele disse. — Mais ou menos — ela respondeu. Ele quase sorriu. Quase. O hotel surgia à frente, alto, discreto, elegante. Nada chamativo. O tipo de lugar escolhido por alguém que não tinha tempo para excessos. Quando o carro parou na área de desembarque, Ana já lutava contra o sono. — Chegamos — disse Natan, desligando o motor. Ela abriu os olhos lentamente. — Promete que não vai me deixar dormindo aqui fora? Ele a observou por alguns segundos antes de responder. — Prometo. Natan desceu do carro e contornou até a porta dela. Abriu com cuidado. — Consegue andar? Ana tentou se levantar. As pernas protestaram imediatamente. — Talvez não. Ele hesitou por um breve instante. Depois, com um gesto firme, passou um braço ao redor da cintura dela e a ajudou a sair. O contato foi rápido, calculado, mas suficiente para que Ana sentisse um choque leve percorrer o corpo. — Você pesa menos do que parece — ele comentou, mais para si mesmo. — Estou cheia de surpresas — ela murmurou. Ele não respondeu. No elevador, o silêncio se tornou quase físico. Ana observava o reflexo deles no espelho polido. Ele alto, composto, sério. Ela pequena ao lado dele, olhos brilhando demais, expressão cansada demais. Quando as portas se abriram, Natan a guiou pelo corredor até a suíte. Ao entrar, acendeu as luzes e apoiou Ana cuidadosamente na cama. — Vou pedir um quarto para você — disse, já pegando o telefone. — Dormir aqui não é adequado. Ela o observou enquanto ele falava com a recepção, a postura reta, a voz firme, controlada. Quando desligou, Ana já estava sentada na cama, os sapatos jogados no chão. — Pode me trazer uma bebida antes de eu ir? — perguntou. Ele fechou os olhos por um instante. Muito rápido. Quase imperceptível. — Acho que você já bebeu o suficiente. Ana levantou-se devagar, caminhando até o minibar. — Não confia em mim? — perguntou, abrindo uma garrafa qualquer. Antes que ele pudesse responder, ela tomou um gole longo. O líquido queimou, mas a deixou mais consciente, estranhamente focada.






