Mundo de ficçãoIniciar sessãoSão Francisco não parecia ter sido feita para quem estava recomeçando do zero.
As ruas eram organizadas demais, os prédios altos demais, as pessoas apressadas demais. Ainda assim, havia algo naquela cidade que Ana não encontrou em lugar nenhum desde que perdera a mãe: a sensação de que ninguém se importava com o seu passado. Ali, ela podia ser apenas mais uma. E, naquele momento, isso era tudo o que precisava. Ana segurava a pasta com os poucos documentos que carregava consigo, sentada na recepção de uma casa ampla, discreta, localizada em uma rua silenciosa e arborizada. Nada de ostentação visível. Nenhum exagero. O tipo de lugar que não gritava riqueza, mas que definitivamente não pertencia a alguém comum. Ela respirou fundo, tentando acalmar a ansiedade que insistia em se espalhar pelo peito. Precisava daquele trabalho. Não era exagero. Não era drama. Era necessidade. A oferta tinha surgido dias antes, quase como uma coincidência improvável: babá residente, salário acima da média, moradia incluída, disponibilidade para viagens. Uma vaga incomum, mas que se encaixava perfeitamente no ponto exato onde a vida dela estava. Sem família próxima. Sem casa fixa na cidade. Com a faculdade recém-transferida. Ana não buscava conforto. Buscava estabilidade. — Ana Ribeiro? Ela ergueu o olhar imediatamente. O homem à sua frente era alto, magro, postura impecável. Usava roupas sociais simples, mas bem cortadas. O olhar era atento, analítico. Ao lado dele, uma mulher mais velha, expressão firme, semblante experiente, observava tudo com cuidado silencioso. — Sou eu — respondeu, levantando-se. — Eu sou Dylan — ele se apresentou, com um aperto de mão objetivo. — E esta é Dora. A mulher assentiu, sem sorrir, mas com um olhar que parecia avaliar mais do que aparência. — Pode nos acompanhar? — Dylan pediu. Ana seguiu os dois por um corredor bem iluminado até uma sala clara, organizada, com uma mesa simples e cadeiras confortáveis. Tudo naquela casa parecia pensado para funcionar, não para impressionar. Sentaram-se. Dylan abriu a pasta com o currículo de Ana, lendo em silêncio por alguns segundos antes de falar. — Você é nova — ele começou, direto. — Vinte anos. Faculdade de Direito. Transferência recente. Pouca experiência formal como babá. Ana assentiu. — Sim. Mas tenho experiência cuidando de crianças na família e filhos de conhecidos. E… — hesitou por um instante — tenho disponibilidade total. Dora inclinou a cabeça levemente. — Disponibilidade é uma coisa — disse, com voz firme. — Presença é outra. A criança em questão tem uma rotina delicada. Precisa de constância, paciência e alguém que saiba respeitar limites. Ana sustentou o olhar dela. — Eu não estou procurando algo temporário — respondeu. — Estou procurando um lugar onde eu possa ficar. A sinceridade fez Dylan fechar a pasta devagar. — Você não tem família na cidade? — ele perguntou. — Não — Ana respondeu. — Não tenho ninguém aqui. Não disse isso como pedido de pena. Disse como fato. Dora observou por mais alguns segundos, como se decidisse algo internamente. — Você se sentiria confortável morando na casa? — perguntou. — Respeitando regras rígidas, horários definidos e uma convivência profissional clara? — Sim — Ana respondeu sem hesitar. — É exatamente o que eu preciso. Houve um breve silêncio. Dylan se recostou na cadeira, analisando-a com atenção renovada. — O cargo exige discrição absoluta — disse. — A casa pertence a alguém que preza por privacidade. Viagens internacionais são comuns. Mudanças de rotina acontecem sem aviso. Você teria problemas com isso? Ana pensou por um segundo. Problemas eram coisas que ela tinha deixado para trás. — Não — respondeu. — Desde que eu saiba o que se espera de mim. Dora levantou-se, caminhando até a janela por um instante antes de voltar. — Eu observo as pessoas há muitos anos — disse. — Espero que intenda o que significa cuidar de uma criança. Ana engoliu em seco, mas manteve a postura. — Eu sou responsável — disse apenas. Dylan fechou a pasta por completo. — Ótimo. — Ele se levantou. — Vamos fazer um período de teste. Se tudo correr bem, o contrato será formalizado em definitivo. Ana sentiu o alívio antes mesmo de permitir que o sorriso surgisse. — Obrigada. — Mais uma coisa — Dylan acrescentou. — O chefe não estará presente nos primeiros dias. Ele está viajando. Quando retornar, haverá uma conversa formal. Apenas alinhamento profissional. Ana assentiu. Aquilo era melhor, pensou. Melhor não criar expectativas. Melhor não saber quem ele era ainda. Dora se aproximou, desta vez com o semblante ligeiramente mais suave. — A criança se chama Kali — disse. — Ela tem dez meses. E é… observadora. Ana sorriu de leve. — Acho que vamos nos dar bem. Horas depois, instalada no quarto simples e confortável destinado a ela, Ana sentou-se na beirada da cama e respirou fundo. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia que estava fugindo. Sentia que estava começando. Tinha um teto. Tinha um trabalho. Tinha um plano. Ela não fazia ideia de que, em poucos dias, aquele recomeço a colocaria novamente diante do único homem que tentara esquecer. E que, para ele, vê-la ali, sob seu teto, cuidando de sua filha, seria o início de algo muito mais perigoso do que desejo.






