Mundo ficciónIniciar sesiónNatan já estava acordado quando o relógio marcou seis horas.
Na verdade, ele nunca tinha dormido de verdade. O corpo repousava na poltrona ao lado da cama, mas a mente permaneceu em vigília a noite inteira, alerta, como se algo precisasse ser contido para não sair do controle. Ele estava sentado com a coluna ereta, os antebraços apoiados nas pernas, as mãos unidas de forma quase mecânica. A camisa ainda era a mesma da noite anterior, agora levemente amarrotada. Um detalhe que normalmente o incomodaria mais do que incomodava naquela manhã. A luz fria do amanhecer entrava pelas cortinas parcialmente abertas, iluminando a suíte de maneira impiedosa. Não havia sombras suficientes para esconder nada. A cama estava arrumada demais. Natan não precisou se levantar para saber. Ela tinha ido embora. O lençol esticado, o travesseiro sem marca recente, a ausência absoluta de qualquer sinal de movimento. Não era o tipo de saída apressada que deixava rastros óbvios. Ana tinha saído com silêncio e intenção, como se não quisesse ser notada ou como se quisesse provar que não precisava ser. Ele permaneceu sentado por alguns segundos, encarando aquele espaço vazio que, horas antes, estivera ocupado por um corpo adormecido envolto na camisa dele. Não havia bilhete. Não havia explicação. Não havia garantia de que ela estava bem. Essa última percepção foi a que mais o incomodou. Natan fechou os olhos por um instante breve, respirando fundo, como fazia sempre que precisava reorganizar o pensamento. Não funcionou como gostaria. A noite voltou em fragmentos, sem pedir permissão. Ana dormindo de lado, o cabelo escuro espalhado no travesseiro. A camisa dele caindo sobre o corpo dela de um jeito quase indecente, não pela exposição, mas pelo contraste. Pequena demais. Vulnerável demais. Ocupando o espaço mais íntimo que ele tinha. Ele lembrava do próprio esforço consciente para não se levantar da poltrona. Da maneira como controlou a respiração, profunda, lenta, repetida, como um exercício disciplinado de contenção. Levantar teria sido fácil demais. Cair em tentação, também. Ficara ali, imóvel, dizendo a si mesmo que aquilo passaria. Que ela dormiria. Que a manhã resolveria. A manhã não resolveu nada. O toque mínimo voltou à memória com nitidez irritante. Os dedos dela procurando algo no escuro, encontrando os dele. Um contato pequeno demais para justificar o impacto que teve. Pequeno demais para ser ignorado. Natan abriu os olhos e passou a mão pelo rosto, irritado consigo mesmo. Aquilo não fazia sentido. Não era assim que ele funcionava. Não era assim que permitia que alguém entrasse na sua vida, e ainda menos daquela forma, sem nome completo, sem história conhecida, sem continuidade. Ele se levantou finalmente e caminhou até a janela. Puxou a cortina de uma vez, deixando a luz invadir o quarto. Precisava começar seu dia, pular o acontecido e seguir no controle. Foi uma noite diferente. Nada mais. O telefone tocou, quebrando o fio dos pensamentos com precisão. Natan atendeu no segundo toque. — Sr Roman. — a voz de Dylan surgiu do outro lado, objetiva, organizada. — Confirmando o voo para São Francisco. Saída às nove e quarenta. O carro chega em trinta minutos. As reuniões da tarde estão mantidas, salvo se quiser ajustar algo. Natan olhou novamente para a cama vazia. — Está tudo mantido — respondeu, firme. — Sem alterações. — Perfeito — Dylan disse. — Te mando o resumo do dia no e-mail. A ligação se encerrou. Natan ficou alguns segundos parado, o telefone ainda na mão, sentindo o peso da própria resposta. Nada mudou, ele tinha dito. BH Tudo tinha mudado — apenas não de um jeito visível o suficiente para alguém como Dylan perceber. Ainda. Ele entrou no banheiro, tomou um banho rápido, quase frio demais, como se a água pudesse apagar o rastro da noite anterior. Vestiu-se com a precisão de sempre: roupa alinhada, relógio no pulso, expressão controlada. O reflexo no espelho era o mesmo homem que comandava reuniões, tomava decisões milionárias e não perdia tempo com desvios emocionais. Mas havia algo novo no fundo do olhar. Antes de sair, Natan voltou ao quarto uma última vez. Sobre a mesa, viu o copo de água pela metade que ela havia deixado. Um gesto simples. Quase doméstico. Um vestígio mínimo de que Ana estivera ali e, ainda assim, partira sem pedir nada. Ele fechou os dedos em torno do copo por um instante, depois o soltou. Aquilo tinha sido uma exceção, decidiu. Um erro circunstancial. Algo que não se repetiria. Tinha uma empresa esperando por ele. Uma vida organizada. Nenhum espaço para distrações sentimentais ou mulheres que desapareciam antes do amanhecer. Ainda assim, ao sair da suíte e caminhar pelo corredor silencioso do hotel, uma única certeza o acompanhou até o elevador: Ele não sabia quem Ana era. Não sabia de onde vinha. Não sabia se estava bem. E detestou, mais do que deveria, não saber. Quando as portas do elevador se fecharam, Natan teve uma percepção desconfortável, clara demais para ser ignorada: Aquilo o incomodou mais que queria manhã.






