Mundo de ficçãoIniciar sessãoJuliana Bezerra foge para Londres em busca de paz após anos presa a um relacionamento abusivo. Sem opções, aceita trabalhar como babá de Mel Tudor, uma menina difícil que ninguém conseguiu conquistar. Mas Juliana consegue — e muda tudo. Leo Tudor, pai da menina, é um CEO bilionário, frio e obcecado por controle. A presença daquela mulher latina, simples e intensa, invade um mundo que ele mantém rigidamente organizado. Entre olhares, tensão e conflitos, nasce uma atração proibida. Em uma casa onde ela não deveria pertencer, Juliana pode ser exatamente o que Leo mais teme… e mais deseja.
Ler maisJuliana Bezerra
Eu acordei com o barulho insistente do meu celular vibrando na cômoda.
Era o meu despertador das seis. Mais um dia de trabalho na escola… ou pelo menos era o que eu esperava.Me espreguicei devagar, tentando não fazer barulho, mas antes que eu pudesse levantar, senti uma mão pesada puxando meu braço de volta.
— Vai levantar pra onde? a voz do André cortou o ar, rouca e irritada. — Ainda nem falei com você.
Engoli seco. A claridade fraca da manhã entrava pela fresta da cortina, iluminando só metade do quarto.
Respirei fundo.— Eu vou trabalhar, André. Tenho aula às oito… você sabe respondi baixo, tentando manter a calma.
Ele se levantou de repente, me prensando contra a parede fria ao lado da cama. O choque me fez perder o ar.
— Trabalhar? Trabalhar pra quê, Juliana? ele aproximou o rosto do meu, os olhos escuros queimando de raiva. — Que homem é esse que deixa a mulher sair de casa pra ficar dando atenção pra criança dos outros?
— É meu emprego… sussurrei, desviando o olhar.
Ele segurou meu queixo com força, me obrigando a encará-lo.
— Eu não tenho mulher pra sair por aí, não.
O tom dele era baixo e perigoso. — Você fica. Hoje você fica. Tá entendido?Meu coração martelava dentro do peito. Não era a primeira vez que ele fazia isso… mas cada vez parecia pior.
— André… eu preciso ir. Eu dependo desse salário.
Ele riu. Mas não era um riso de verdade, era um som frio, de deboche.
— Depende de mim. Não de emprego nenhum.
Apertei os lábios. A verdade é que eu já não dependia dele. Dependia da minha coragem para ir embora.
E ela estava começando a surgir, mesmo que aos pedaços.— Eu vou. repeti, mais firme do que esperava.
Ele deu um passo rápido e empurrou a porta com a mão, bloqueando minha saída.
— Você não vai lugar nenhum, Juliana.
Por um instante, senti aquele velho medo tentar me dominar.
Mas algo dentro de mim… mudou. Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a vontade de viver.— André, sai da minha frente. Agora.
Ele me encarou como se eu tivesse acabado de desafiar um rei.
Tentei passar por ele, mas André foi mais rápido. Arrancou a chave da porta, girou a fechadura e guardou no bolso da bermuda.
— Pronto. Resolvido. Agora você não sai mais. disse com aquela frieza que sempre me arrepiava.
— André, por favor… minha voz falhou. — Eu preciso trabalhar.
Ele se aproximou, tão perto que eu pude sentir o cheiro de álcool da noite anterior.
— Já falei que você não vai. Mulher minha não sai de casa pra trabalhar.
Os olhos dele passearam pelo meu rosto, como se tivesse orgulho da minha fraqueza. — E para de me desafiar, Juliana. Você não é ninguém longe de mim.Ele pegou minha mochila e a jogou no chão.
— Eu volto à noite.
Antes de sair, lançou o olhar que eu mais temia. — Tenta sair daqui… se conseguir.A porta bateu tão forte que o som ecoou pela casa inteira.
Fiquei parada no meio da sala, sentindo o choque, o medo, a humilhação… e algo a mais: a certeza amarga de que isso nunca ia mudar.
Meus olhos ardiam. Quando passei a mão pelo rosto, senti a dor pulsando no canto do olho.
O roxo estava pior do que eu imaginava.Peguei o celular com as mãos tremendo e abri a conversa que eu mais precisava naquele momento.
Karina minha melhor amiga. Minha única saída.
Escrevi rápido, antes que a coragem sumisse.
“Kari… ele me trancou em casa. Tirou a chave. Eu… eu não aguento mais.”
Ela respondeu quase na mesma hora, como se estivesse esperando por isso.
Karina:
Ju, o que ele fez com você? Me conta agora.As lágrimas finalmente caíram, silenciosas, queimando minha pele já machucada.
“Eu tentei ir trabalhar. Ele não deixou. Me prensou na parede… meu olho tá roxo. Kari, eu tô com medo.”
Ficou alguns segundos sem responder, e então veio a mensagem que mudaria tudo.
Karina:
Amiga, chega. Você não vai ficar aí mais um dia. Eu vou te ajudar a fugir. Vou comprar sua passagem pra Londres hoje mesmo. Você pede demissão essa semana, junta suas coisas escondida e vem pra cá ficar comigo.Meu coração disparou.
Londres.
Outra vida. Outra chance.Mas o medo veio logo em seguida.
“Kari… eu não sei falar inglês. Como eu vou viver aí?”
A resposta dela veio firme, decidida como ela sempre foi.
Karina:
Aqui você aprende, Ju. Eu te ensino, eu te ajudo, eu te protejo. Mas você precisa vir. Ou esse homem ainda vai te matar.Outra mensagem:
Karina:
Seu olho está roxo porque ele te machucou. Mas você é linda, inteligente, capaz. Você não nasceu pra viver assim. Eu tô aqui. Não solto sua mão.Chorei. Não de tristeza…
Mas por sentir, pela primeira vez em muito tempo, que alguém realmente se importava.Olhei para a porta trancada, para minha mochila caída no chão, para o meu reflexo machucado na janela…
E então senti algo nascer dentro de mim:
a vontade de ir embora. De verdade.
A vontade de sobreviver.Leo Tudor Estacionei o carro de qualquer jeito e entrei na delegacia com passos que ecoavam no piso frio. O ar ali dentro cheirava a café requentado e burocracia, mas para mim, cheirava a fim de linha. Vitor me esperava no corredor. Ele viu meus olhos e apenas assentiu, abrindo a porta da sala de interrogatório sem dizer uma palavra. Ele sabia que, se tentasse me impedir, seria apenas mais um obstáculo no caminho de um trator.Quando a porta se fechou atrás de mim, o silêncio foi absoluto.Margoh estava sentada, algemada à mesa de metal. A aparência de governanta impecável tinha sumido; o cabelo estava desgrenhado, mas o olhar... o olhar ainda era de serpente. Quando me viu, ela não se encolheu. Ela sorriu.— Ora, ora... o grande senhor da mansão resolveu aparecer ela soltou uma gargalhada rouca, inclinando a cabeça. Seu duquezinho de merda! Tá pensando que pode mandar em mim?Eu não respondi. Caminhei devagar até a mesa, sentindo o sangue pulsar nas têmporas.— Eu ia destruir
Leo Tudor Depois que tudo se acalmou.Depois que Richard subiu com a Mel, depois que Karina e Goretti fizeram os primeiros cuidados nela, depois que as vozes foram diminuindo e a casa voltou a respirar… eu me vi sozinho com a Juliana.Sozinho de verdade.Ela estava sentada no sofá, envolta numa manta, o cabelo ainda úmido de suor e terra, o rosto cansado de um jeito que apertava o peito. Os pés já tinham sido limpos e medicados, mas o corpo dela ainda carregava o peso da noite inteira.— Eu vou me despedir de todo mundo falei baixo. Depois a gente sobe.Ela assentiu devagar.Quando a casa finalmente ficou em silêncio, eu estendi a mão pra ela.— Vem.Ela se levantou com cuidado, apoiando-se em mim, e seguimos pelo corredor até o meu quarto. Cada passo parecia exigir mais dela do que deveria. Quando entramos, fechei a porta atrás de nós com suavidade.Ali, longe de tudo, a tensão finalmente caiu.— Amor… chamei, sem perceber que a palavra tinha escapado tão fácil. Como você tá se s
Juliana Bezerra Eu já não sentia mais meus pés quando ele me pegou nos braços.Na verdade, eu não sentia quase nada além do peso que tinha se acumulado no meu peito desde o primeiro grito na mata. O medo, a corrida, a Mel nos meus braços, o escuro… tudo parecia distante agora, como se estivesse acontecendo com outra pessoa.Meu corpo simplesmente cedeu.Senti os braços fortes dele me envolvendo, um debaixo das minhas pernas, o outro sustentando minhas costas, e foi ali só ali que eu percebi o quanto estava machucada. O quanto estava cansada. O quanto tinha aguentado sem saber que estava aguentando.Enterrei o rosto no peito dele sem pensar.O cheiro era familiar. Seguro. Leo.Meu choro não saiu alto. Não foi desespero. Foi alívio. Um soluço preso, dolorido, que escapou quando meu corpo entendeu que não precisava mais lutar.— Acabou… ouvi a voz dele perto do meu ouvido. — Tá tudo bem. Eu tô aqui.Eu queria responder. Queria dizer tanta coisa. Mas minha garganta travou. Tudo o que c
Leo Tudor Eu achei que já tinha sentido medo antes.Mas nada, absolutamente nada, se comparava àquele momento em que ouvi o grito dela no meio da mata.— JULIANA!Minha voz saiu rasgando a garganta, mais alta do que eu pretendia, mais desesperada do que eu gostaria de admitir. Eu corri. Corri sem pensar em buraco, raiz, arma, nada. Só corri.Quando vi a cena, meu coração simplesmente… parou.Ela no chão. Suja de lama. Tremendo. A Mel agarrada nela como um filhote assustado.E André. Perto demais.Por um segundo um mísero segundo eu tive certeza de que tinha chegado tarde.O estampido veio quase junto da minha respiração falhando. O grito dele ecoou, animal, e quando vi o corpo cair, a perna dobrando daquele jeito errado, eu não senti alívio imediato.Senti ódio.Um ódio tão cru que minhas mãos chegaram a tremer. Se não fosse a equipe em volta, se não fosse a arma ainda quente na mão de um dos homens, eu não sei do que seria capaz.Mas então eu olhei pra ela de novo.Juliana.Os olh
Juliana Bezerra Meus braços já queimavam.Cada passo era um pedido silencioso pra cair, pra desistir, pra parar. Mas eu não podia. Não agora. Não com a Mel agarrada em mim daquele jeito, os bracinhos finos apertando meu pescoço como se eu fosse o último porto seguro do mundo.A respiração dela vinha quente no meu ouvido, irregular.— Tia Ju… ela sussurrou, quase sem voz. Eu tô com medo…— Eu sei, meu amor. respondi, arfando. Eu também tô. Mas a gente vai conseguir, tá? A gente vai.A mata parecia viva.Não era só escura era fechada demais, sufocante. Os galhos vinham do nada, arranhavam meu rosto, prendiam no meu cabelo. Cipós batiam nas pernas, folhas escorregavam sob meus pés feridos. O chão era traiçoeiro, cheio de raízes escondidas, buracos, pedras soltas.Eu pensava o tempo todo em bichos.Cobras.Aranhas.Insetos venenosos.Meu estômago revirava só de imaginar algo picando a Mel. Eu desviava de tudo que parecia estranho, pulava quando o chão mudava de textura, prendia a res
Leo Tudor Eles nem fecharam a porta direito.— Richard, vem comigo. falei já indo em direção ao carro.Ele parou por meio segundo e depois assentiu. Se alguma delas estiver machucada, eu preciso estar lá.Vitor já estava no banco do motorista, falando no rádio enquanto ligava o carro, organizando o comboio com a precisão de quem estava no controle de tudo.— Dois carros atrás. Sem sirene. Discretos. ordenou.Entrei no banco do passageiro. Richard foi para trás. Assim que Vitor arrancou, o mapa seguia aberto no celular, o ponto piscando de forma insistente.Uma hora e meia de distância.Mata fechada.— Pela localização… Vitor disse, analisando a tela do notebook apoiado nas pernas só tem uma cabana nessa região. Isolada. Não tem mais nada num raio enorme.— Então é lá. respondi, com a voz dura.O silêncio dentro do carro era pesado, sufocante. Cada quilômetro parecia demorar mais do que o normal.Richard se inclinou para frente e pousou a mão no meu ombro. Vai dar tudo certo, Léo










Último capítulo