Mundo de ficçãoIniciar sessãoClara, uma jovem cega e rica, vê sua vida virar de cabeça para baixo quando é arrastada por seus amigos a uma luta clandestina. Lá, ela esbarra em Miguel, um lutador de MMA endurecido pela vida, que a trata com desdém, sem saber de sua condição. Após a luta, a polícia invade o local e, no meio da confusão, Clara acaba perdida dentro de um vestiário. Miguel, relutante, acaba ajudando-a a sair. Ele a tira de lá e, irritado com a situação, jura que nunca mais quer vê-la. No entanto, o destino dá uma reviravolta e ele acaba trabalhando como segurança na casa dela. Com o tempo, uma amizade começa a surgir entre os dois, e, à medida que convivem mais, sentimentos inesperados começam a aflorar, colocando-os frente a frente com os desafios de seus mundos tão diferentes.
Ler maisClara
Eu não sei aonde a Isabela quer chegar com essa história de me levar para um lugar radical, como ela diz. Até agora, estou tentando explicar a ela que isso não é uma boa ideia, principalmente considerando que eu sou cega e papai não vai deixar eu sair por aí sem meus seguranças.
— Essa saia vai ficar linda em você — diz, vasculhando meu closet como se fosse dela.
— Eu já disse que não vou sair com você e seus amigos idiotas.
— Para de ser chata e neurótica. Só porque você é cega não quer dizer que precisa viver trancada nesse castelo — diz, como se a mansão onde moro fosse uma prisão para mim.
— Isso não é verdade. Eu sou uma mulher adulta, tenho meu trabalho e saio sempre que quero — justifiquei, tentando me manter firme.
— Sim, sai sempre cercada com mil seguranças ao seu redor, até para o trabalho. Que vida sem graça. Deus me livre viver assim. Só porque você é cega não quer dizer que não pode se divertir.
— Mas eu me divirto.
— Ir até o seu terapeuta e médicos regularmente não conta como diversão, querida priminha.
— Pelo menos eu cuido da minha vida, não sou igual umas intrometidas que vivem falando mal da minha.
— Isso foi uma indireta para mim?
— Não, foi direta mesmo. Se a carapuça serviu.
— Vou ignorar seu comentário nada amistoso só porque estou muito feliz que conseguimos os ingressos para ver a luta...
— Ver o quê? — Pergunto, tentando ter certeza do que eu ouvi.
— Nada não, eu quis dizer os ingressos para ir ao cinema.
— Se a sua felicidade toda é só para ver um filme, você não está batendo bem da cabeça hoje.
— Clara, eu lhe garanto que você vai amar nossa saída.
— Eu já disse que não vou — falo, determinada.
— Ah, você vai sim. O tio Hugo já deixou. Não vamos perder a nossa oportunidade.
— É o que veremos.
***************
Eu sinto o chão tremendo sob meus pés. O ar está pesado, cheio de vozes altas e gritos abafados. O cheiro de suor e madeira velha me envolve. Tudo aqui é estranho e confuso.
— Que cheiro estranho é esse, Isabela? — Pergunto, tentando andar ao seu lado utilizando meu bastão de mobilidade. — Parece cigarro... não, é maconha. Tenho certeza que é maconha.
— E por acaso você já fumou maconha para saber com exatidão que esse cheiro é de maconha? Quem te viu, quem te vê, hein, priminha?
— Ah, cala a boca, Isabela. A gente não ia no cinema. Que lugar é esse? — Pergunto, nervosa.
— Um cinema em que nós podemos ver ao vivo e a cores. Ah, é verdade, aqui não temos o fone auto descritivo como no cinema, mas tenho certeza de que você vai entender o belo show que teremos — O babaca do Mathias me responde.
— Ah, fica quieto, Mat, e vai buscar umas bebidinhas para a gente relaxar aqui — Isabela manda.
— Eu não vou beber nada que venha das suas mãos, já vou logo te avisando — Falo, puta da vida, sem saber o lugar em que minha prima me meteu.
Sinto um empurrão no meu ombro e esbarro em Isabela. Esse povo é tudo mal-educado nesse lugar. Será que não estão vendo que tem uma deficiente visual aqui?
— Acho melhor eu ir embora — falo para Isabela — Essas pessoas não têm educação, estão me empurrando o tempo todo. Não consigo me locomover assim.
Ela bufa do meu lado e agarra meu braço, pegando meu bastão da minha mão.
— Vamos fazer assim: vou deixar você ficar grudada no meu braço só hoje, porque aqui tem muitas pessoas, e esse seu bastão não vai resolver nada. Logo esse lugar vai estar lotado de gente, e será impossível nos locomover. Então, não solta meu braço.
— Tá legal. Então deixa eu guardar meu bastão na bolsa. E, a propósito, que lugar é esse afinal? — Pergunto, arrumando minha bolsa no ombro.
— Estamos em um lugar sensacional, amiga. Esse é um lugar em que você nunca pensou em colocar os pés.
— Para de suspense e fala logo.
— Vou deixar que você descubra por si mesma — Ela fala, e escuto alguém dizendo "boa noite" pelo microfone.
O som da multidão cresce, misturando gritos e aplausos que vibram no ar. Eu posso sentir a tensão no ambiente, como se o espaço estivesse pulsando com a expectativa. A voz do narrador ecoa pelo local, rouca e cheia de energia, mas é o volume que me diz a intensidade do momento.
— Senhoras e senhores! — A voz dele rasga o silêncio, e eu posso sentir a vibração das palavras no chão sob meus pés. — Preparem-se para o maior espetáculo da noite! O que acontece nesse octógono vai desafiar seus limites, seus sentidos!
O som da multidão aumenta, um mar de vozes e aplausos, cada grito uma onda que se choca contra o outro.
— Você só pode estar de brincadeira? — Falo o mais alto que posso para Isabela me escutar —Você me trouxe aqui para assistir a uma luta, é isso mesmo?
— Não é o máximo? Melhor ainda, estamos aqui para assistir uma luta clandestina no meio do subúrbio. Você está sentindo a vibração desse lugar?
— Estou, estou sentindo que vou é desmaiar nesse lugar. Vamos sair daqui agora — mando, irritada.
— Sem chances, já estamos aqui. Não vamos perder o show principal, fica quieta aí no seu canto e aproveita — ela segura firme no meu braço e eu não consigo nem me mexer no lugar, sentindo outras pessoas ao redor.
Que loucura! Onde é que fui me meter? Se o meu pai descobrir onde vim parar, nunca mais poderei sair de casa novamente.
ClaraQuando Miguel finalmente respondeu que aceitaria a minha proposta, precisei segurar um sorriso. Não queria que ele percebesse o quanto isso me deixou animada, então apenas mantive meu tom casual enquanto assentia com a cabeça.Conversamos mais alguns minutos para definir como seria sua rotina. Ele seria meu motorista, me levaria cedo para a perfumaria e, durante a manhã, ficaria livre para treinar ou resolver o que quisesse. À tarde, se eu quisesse almoçar fora, avisaria com antecedência para que ele me acompanhasse.Miguel ficou em silêncio por um momento após ouvir minha explicação. Quando finalmente falou, havia algo sério em sua voz, como se estivesse tentando escolher as palavras certas.— Clara, me explica uma coisa... Se os seguranças do seu pai vão estar por perto o tempo todo, o que exatamente eu vou fazer? Parece que eu só vou aparecer de vez em quando e, ainda assim, receber um salário alto pra isso. Não acho isso certo.Soltei um suspiro, já imaginando que ele poderi
Miguel— Eu quero que você trabalhe para mim, Miguel. — Ela diz, com uma firmeza calma. — Sei que você não quer voltar a trabalhar com o meu pai, e isso eu respeito. Por isso, eu te ofereço uma oportunidade diferente. Não será só uma chance de ganhar dinheiro, mas uma chance de seguir seus próprios objetivos enquanto tem a liberdade que precisa. Eu vou te dar espaço para treinar, para focar no seu objetivo, e ainda assim garantir que você tenha uma renda estável.Fico em silêncio, processando tudo o que ela acabou de dizer. A ideia de ter um trabalho flexível, que permita que eu continue treinando, sem me preocupar com as contas, é tentadora. Mas, ainda assim, uma voz na minha cabeça me diz que isso é bom demais para ser verdade.— E você acha que eu vou aceitar isso assim, sem mais nem menos? — Pergunto, desafiador. — Que tipo de jogada você está tentando fazer, Clara?Ela não se abala com a dúvida que expressei.— Não estou jogando nada. — Ela responde, com a mesma calma de sempre.
MiguelO som irritante do despertador me desperta da confusão dos meus sonhos. O visor do celular me diz que já são oito horas. Droga, já estou atrasado. Preciso me levantar, encontrar algo para comer e correr para a academia. Não posso perder mais um dia de treino.Saio da cama e vou direto para o banheiro. A água quente do chuveiro ajuda a afastar o resto da preguiça. Estou terminando de me enxugar quando ouço a campainha tocar. Quem diabos vem até aqui tão cedo?— Já vai! — grito, enrolando a toalha na cintura.Enquanto caminho até a porta, imagino que seja o Rafael. Ele deve estar impaciente, como sempre, querendo me arrastar para a academia. Abro a porta sem muita cerimônia, mas o que vejo me deixa estático.Clara está parada ali, com um sorriso radiante no rosto, segurando uma cesta nas mãos.— Você? O que está fazendo aqui? Perdida de novo? — Digo, surpreso.— Bom dia, Miguel! — ela responde, com a voz doce e uma tranquilidade que parece zombar da minha confusão.Fico encarando
MiguelO que eu estou arrumando para a minha cabeça? Quando foi que eu dei a entender que queria sair com ela e, pior ainda, ser seu amigo? Essa história não vai acabar nada bem.Mas aí tem o sorriso dela. Ele me desconcerta todo. É impossível resistir. Não consigo dizer não a Clara, por mais que minha lógica grite para eu manter distância. É como se cada pedaço de felicidade que eu pudesse trazer a ela deixasse meu peito mais leve, quase... eufórico.— E então, não vai responder minha pergunta? — A voz dela me tira dos meus pensamentos.— Qual foi a pergunta mesmo?— Perguntei se você vem sempre aqui, talvez no seu tempo livre.Solto um suspiro antes de responder:— Quase sempre. Na maioria das vezes, o cachorro-quente é meu jantar.— Mas os atletas não precisam ter uma dieta super restrita? — ela pergunta, com uma curiosidade que me faz sorrir de canto.— Precisam, sim. Mas manter uma dieta equilibrada custa dinheiro. E, nem sempre, eu consigo seguir isso à risca.— Eu entendo — ela
ClaraA fala do Rafael me deu uma grande ideia. Talvez ele nem percebesse, mas tinha acabado de acender uma luz na minha mente. Vou aproveitar essa deixa — Miguel fazendo o que eu quiser? Perfeito. Enquanto ele falava, já comecei a bolar algumas ideias. Talvez três coisas sejam o suficiente.— Miguel, quero que me leve para comer um cachorro-quente. — Soltei, tentando não sorrir.Por um momento, o silêncio dele foi suficiente para eu imaginar a confusão passando pela sua cabeça.— Um cachorro-quente? — Ele finalmente respondeu, com a voz carregada de incredulidade.— Isso mesmo. E, enquanto comemos, você vai me contar por que escondeu de mim que trabalhava como segurança na minha casa.Antes que Miguel pudesse retrucar, Rafael, satisfeito com a minha ideia, interveio prontamente:— Ele vai levar, sim! — Rafael diz apressadamente — Vai logo, leva ela naquela barraquinha de cachorro-quente top aqui do bairro, ela vai adorar!— Clara, você está brincando comigo, né?— Não estou.Silêncio
MiguelSaio da mansão com o sangue fervendo. E a cada passo, minha cabeça repete as palavras daquele homem. Inspiro fundo, tentando acalmar a raiva que ameaça tomar conta de mim. Ah, quer saber? Que se dane. O importante é que a Clara está bem. Foi por isso que fiz o que fiz. Não me arrependo de nada.Vou direto para a academia. O único lugar onde posso descontar isso tudo sem acabar machucando alguém que não merece. Rafael está lá, como sempre. Ele mal me vê entrar e já percebe que algo está errado.— O que aconteceu? — Ele pergunta, enquanto eu jogo minha mochila em um canto qualquer.Contei tudo. Cada detalhe. Relato a conversa com o pai dela e a forma como ele decidiu resolver a situação. Rafael me escuta em silêncio, mas a tensão em seus ombros fala por si. Ele não precisa abrir a boca para que eu entenda exatamente o que está pensando.— No fim, acabei sendo demitido — solto, o gosto amargo da frase queimando minha garganta. — Parece que o chefe não achou aceitável a "minha atit





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